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A adaptação à vida extrauterina
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A adaptação à vida extrauterina

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12/10/2012
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Dentre todos os cuidados com a criança, o carinho da mãe faz toda a diferença

vida extrauterina

Na época em que eu era uma mocinha solteira, nada sabida e pouco interessada no assunto filhos, ouvi de uma louca mulher, já mãe de segunda viagem, que o bebezinho recém-nascido dela dava muito trabalho, pois estava em fase de adaptação à vida fora do útero.

Hummm… A minha impressão dessa pessoa parece óbvia: qual é a dificuldade, minha gente? Aqui fora tem luz, colinho, carinho, leitinho, o que pode ser tão difícil?

Um bom tempo depois, eu tive a minha primeira filha, nascida após 40 semanas completas de gestação, um bebezinho “perfeitamente adaptado” à vida extrauterina. A frase da doidinha continuava sem fazer sentido na minha cabeça.

Pouco tempo depois, nasceram os meus meninos gêmeos, Joaquim e Pedro, saídos da minha barriga depois de 37 ½ semanas de gestação, o que foi considerado excelente para uma gravidez gemelar. Nasceram com peso de bebês “únicos” (3,2kg e 2,3kg), mas o Pedro, que foi o menorzinho, disseram-me que já estava quase em sofrimento fetal, também conhecido por “esmagamento na placenta” pelo seu irmão gêmeo grandão. Eu mesma tive a tal da “atonia uterina”, uma hemorragia fortíssima e séria no pós-parto, que me deixou anêmica por um bom tempo. Mas, tendo em vista a saúde, o peso e a desnecessidade da UTI neonatal, tudo foi considerado um sucesso.

Então, os meninos vieram para casa e o sufoco começou. Eles só choravam, dia e noite, noite e dia sem parar! O recorde de tempo sem choro era de uns 15 minutos, não importava se era dia ou noite. Eu não dormia e não conseguia ir a lugar algum com eles, afinal, que agradável, não? A verdade é que eu fiquei tão transtornada que pouco me lembro da época. Só sei que era intensamente enlouquecedor e cansativo, tanto que me arrepia a alma até hoje ouvir um bebezinho urrar.

Resolvi cuidar do problema. Era lógico que havia um problema de verdade e só poderia ser cólica. Não é verdade que os bebês têm cólica? O “normal” é que elas aparecem e fazem os bebês urrarem, se contorcerem e ficarem quase roxos de dor, não é mesmo? Não tá certo isso? Dos urros, eu me lembro bem, agora “contorcionismos” e bebês roxos, não posso afirmar. Mas era cólica. Cer-te-za!

Tratei de atacar a cólica. Com métodos “naturais”, como colocá-los na minha barriga, bolsas de água quente, chazinhos da vovó e até coisas mais “hardcore”, como medicamentos.

E, acreditem: nada resolveu. Mas, passaram-se 3 meses e eles não choravam mais, eram bebezinhos alegres e deliciosos que, tadinhos, sofreram muito de cólicas nos 3 primeiros meses de vida.

Incrível como eu realmente acreditei nisso até ontem. Cólicas. Todos os bebês têm cólicas. Como se isso fosse verdade.

Confesso que errei e que ataquei o problema errado. Mas, era o possível para mim naquela época, da montanha-russa mais radical em que eu já entrei. Não me sinto culpada, de verdade, pois tenho a consciência de ter feito o meu melhor, de ter sido a melhor mãe para eles naquele comecinho de vida, a melhor mãe que eu pude ser naquela fase deles e minha.

Hoje em dia, certamente faria diferente, aliás, acho que faço. Não procuro enfrentar os problemas e dificuldades da maternidade de acordo com o que está escrito nas bíblias dos bebês e crianças, do que é normal e esperado para cada fase de suas vidinhas. Eu olho bem fundo nos olhos dos meus filhos e tenho certeza que (ainda) os conheço melhor do que ninguém. (Já perceberam como brilham os olhos das crianças?). E é esse o meu norte: o brilho nos olhos dos meus filhos. Eles me dizem um monte de coisas e me mostram qual caminho trilhar.

Nós dormíamos juntos, aqueles cochilinhos da tarde e, quando isso acontecia, eles se acalmavam. Depois, aprendi que se eu não podia deitar e descansar com eles, colocava os dois para dormir juntos, no mesmo berço ou até no moisés. Eles ficavam juntinhos, bem apertadinhos e também se acalmavam. Isso foi puro instinto, uma maneira de “imitar” a vida uterina dos gêmeos, ou de colocá-los junto de mim, sentindo o cheiro, a respiração e os batimentos cardíacos da mãe. Falar assim parece até bobo de tão óbvio que é, mas naquela época, não era. Era instinto.

Não me culpo, não me arrependo e também não estou aqui para aconselhar ninguém, só para refletir mesmo, pois tenho a sensação de que a ficha demorou quase 4 anos para cair. E a vida continua, com todas as suas dificuldades e alegrias, não tem escape, assim como fica difícil fugir da ideia de que cada um é o melhor que se pode ser. Simples assim. Complicado assim. Conflituoso assim.

Eu já quis ser a melhor, mas tenho plena consciência de que sou a melhor que eu posso ser e é inacreditável como essas palavras – que mais se parecem um balde de água fria – saiam dos meus pensamentos, passem pelos meus dedos no teclado, registrem uma página do Word do meu computador e me caiam como um verdadeiro abraço. O abraço poderia ser dos meus filhos.

Acho que não seria um abraço de muita alegria e entusiasmo, mas nem um abraço de tristeza também. É daqueles maduros, de compreensão e que, também instintivamente, oferece o ombro para que eu possa aconchegar a minha cabeça, já leve.

Aos meus filhos, o meu amor e agradecimento eternos.

Originalmente postado em: Mamãe tá Ocupada

Dr. José Luiz Setúbal

Dr. José Luiz Setúbal

Dr. José Luiz Setúbal (CRM-SP: 42.740) Médico Pediatra formado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo , com Especialização na Universidade de São Paulo (USP) e Pós Graduação em Gestão na UNIFESP. Pai de Bia, Gá e Olavo. Avô de Tomás e David.

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