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“Cada real doado deve estar alinhado a evidências”

Marcos Paulo de Lucca Silveira, diretor do Pensi Social, explica como o departamento articula pesquisa e filantropia com base em evidências, descreve a estrutura dos pareceres técnicos e defende uma ciência voltada ao impacto real na vida de crianças e adolescentes. Foto: Mário Rodrigues/Galápagos

Filho de São Roque, cidade do interior paulista, Marcos Paulo de Lucca Silveira iniciou sua trajetória acadêmica em ciências sociais na USP, com passagem pela Universidade Georgetown, nos Estados Unidos, onde aprofundou seus estudos em bioética e políticas de justiça distributiva em saúde. Ele chegou à Fundação José Luiz Setúbal por meio de uma colaboração inicial na área de bioética e, pouco tempo depois, foi convidado a estruturar um novo departamento de pesquisa voltado à produção de evidências em filantropia e ciências sociais aplicadas à infância. Assim nasceu, em 2024, o Pensi Social. Desde então, Marcos lidera um modelo inédito de instituição, que alia ciência, transparência e impacto social mensurável.

Na entrevista a seguir, conduzida em junho de 2025, o diretor detalha a missão do Pensi Social, que define como “alinhar cada real doado à evidência científica para que crianças e adolescentes enfrentem menos barreiras do que enfrentamos nós”. Ele descreve o funcionamento de um fluxo de pareceres técnico-científicos que embasa decisões do Infinis, o coração da FJLS e seu braço de filantropia e advocacy, relata aprendizados vindos de projetos como o do Jardim Lapena, onde o trabalho etnográfico reorientou um investimento, e explica como pesquisas quantitativas e qualitativas ajudam a redesenhar estratégias de mobilização no campo da cultura de doação.

Como o Pensi Social atua no processo de tomada de decisão da fundação?
Sempre que necessário, o Infinis nos encaminha projetos para que possamos validar a viabilidade com base em evidências. Avaliamos se o aporte vale a pena e de que forma deve ser feito. Emitimos um parecer técnico-científico sobre o fenômeno em questão, que muitas vezes tem natureza nas ciências sociais. A decisão final sobre o investimento cabe ao Infinis. No dia a dia, estamos aprimorando continuamente esse fluxo de análise, buscando torná-lo cada vez mais preciso e útil à tomada de decisão.

Pode dar um exemplo prático desse tipo de atuação?
Um dos casos mais emblemáticos é o do Jardim Lapena. Mantemos um antropólogo atuando em tempo integral no território, já há dois anos, com o objetivo de entender as demandas locais e verificar se as ações implementadas pela Fundação José Luiz Setúbal e pela Fundação Tide Setubal correspondem às reais necessidades da comunidade. Esse trabalho resulta não apenas em pesquisa etnográfica, mas também em informações que alimentam diretamente decisões e impactam a saúde infantil na região.

Como o Pensi Social lida com dados sobre cultura de doação no Brasil?
Esse é o foco do trabalho do laboratório liderado por Flávio Pinheiro. A pesquisa Retrato da Solidariedade tem caráter recorrente e gera um panorama nacional sobre o comportamento pró-social no país. Já temos alguns resultados preliminares da edição mais recente, que servem como prévia para os dados completos que divulgaremos no segundo semestre. Cada edição da pesquisa consolida um marco de referência para o campo da filantropia. Os primeiros dados da nova edição dessa pesquisa revelam uma mobilização impressionante de recursos financeiros no Brasil, mesmo em um cenário econômico desafiador. O percentual de doadores passou de 27% em 2023 para 32% em 2024, um crescimento de 5 pontos percentuais, ou, ainda, um crescimento de 18% em números redondos. O volume de doações monetárias destinadas pelo brasileiro a organizações da sociedade civil no Brasil pode ter chegado a R$ 23,6 bilhões em 2024, o equivalente a 0,20% do PIB.

O que os dados da edição anterior da pesquisa já mostravam sobre doações estruturadas versus esmolas?
A pesquisa mostra que 64% dos brasileiros afirmam ter dado esmola, enquanto um percentual bem menor declara ter feito doações estruturadas. Há uma desconfiança elevada em relação às organizações da sociedade civil. Muitas pessoas evitam doar por não confiarem que o recurso chegue a quem realmente precisa. Nosso desafio é ajudar a criar uma cultura de doação mais estável e estruturada no país.

Quais outros elementos dificultam a doação estruturada?
Um fator central é a limitação econômica: doar pressupõe dispor de algum recurso, e isso não é uma realidade para todos. Além disso, o perfil do grande doador é muito diferente daquele que faz pequenas doações em contextos de urgência. Nossas pesquisas mostram que o brasileiro tende a doar para causas locais, a pessoas ou instituições que conhece pessoalmente, como igrejas e projetos no próprio bairro.

Como o Pensi Social evita que seus laboratórios atuem de forma isolada?
Trabalhamos com o que chamamos de lateralidades em ciência. Criamos incentivos claros para que os pesquisadores colaborem entre si. Isso inclui protocolos bem definidos, dados abertos e uma política institucional de avaliação 360 graus. Além disso, o pesquisador precisa demonstrar impacto social. Esses elementos fazem parte da estrutura da carreira científica no Pensi Social.

Como isso influencia as prioridades de pesquisa?
A estrutura de carreira prevê uma dedicação obrigatória de pelo menos 30% a projetos com impacto social direto. Em alguns casos, essa proporção pode chegar a 70%, com 30% voltados à publicação acadêmica. Esse equilíbrio estimula a formação de equipes colaborativas, com colideranças e projetos interdisciplinares que respondem a demandas reais dos territórios e das políticas públicas.

Qual sua visão sobre a missão do Pensi Social hoje?
A missão do Pensi Social é compreender o papel da filantropia em uma sociedade democrática e, a partir disso, alinhar a atuação em causas prioritárias com conhecimento científico de qualidade. Queremos garantir que cada real doado esteja orientado por evidências, promovendo eficiência e justiça na aplicação de recursos. O objetivo final é reduzir as barreiras enfrentadas por crianças e adolescentes no acesso a uma vida mais saudável e plena.

Por Galápagos Newsmaking

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