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Onde a ciência e a filantropia encontram a saúde infantil

Criado pela Fundação José Luiz Setúbal, o Pensi Social produz evidências que conectam saúde infantil, filantropia e ciências sociais. Suas linhas de pesquisa abrangem desigualdades, comportamento pró-social, ética aplicada, políticas públicas e governança. Na foto, os seus pesquisadores principais: Antonio Pedro Ramos, Mônica Magalhães, Ana Elisa de Figueiredo Bersani, Flávio Pinheiro e Marcos Paulo de Lucca Silveira (diretor executivo); atrás, Pietro Carlos de Souza Rodrigues e Claudia Cheron König. Foto: Mário Rodrigues/Galápagos

O Pensi Social é o Departamento de Pesquisa em Filantropia e Ciências Sociais da Saúde Infantil da Fundação José Luiz Setúbal (FJLS). Criado oficialmente em 2024, começou a surgir alguns anos antes, da constatação de que o cuidado à infância exige mais do que diagnóstico biomédico. ”Entender e enfrentar as desigualdades que impactam o bem-estar de crianças e adolescentes requer análise de território, cultura, comportamento, investimento social e decisões políticas“, explica o dr. José Luiz Setúbal. ” A missão do Pensi Social é produzir conhecimento rigoroso e aplicável para orientar ações da filantropia, das políticas públicas e das organizações sociais que atuam pela saúde infantil“.

Inserido no eixo Pensar da FJLS, o departamento integra o Instituto Pensi – Sandra Mutarelli Setúbal — frente de ensino e pesquisa — e atua de forma articulada com o Infinis, que opera as frentes de Defender e advocacy, e o Sabará Hospital Infantil, onde se concretiza a dimensão Cuidar. Essa arquitetura estratégica transforma evidência em ação: os dados gerados pelo Pensi Social subsidiam decisões de investimento e campanhas de mobilização com potencial para colaborar na elaboração de políticas públicas.

Estrutura e governança científica

O Pensi Social organiza suas atividades em seis laboratórios de pesquisa:

Em honra a uma tradição de centros universitários, internamente adota uma nomenclatura de cada laboratório que reforça a autoria, a responsabilidade científica e a identidade temática de cada núcleo. Assim, a lista acima traz os nomes completos e formais dos laboratórios, que no dia a dia da pesquisa são batizados com o sobrenome de seus pesquisadores principais, respectivamente: Pinheiro, König, Magalhães, Rodrigues, Bersani e Ramos.

Essa personalização, no entanto, não significa sincronia nos ciclos de pesquisa. Cada laboratório opera segundo o tempo próprio de suas metodologias, contextos de campo e estratégias de análise. Por isso, mesmo nesta reportagem que apresenta os seis núcleos do Pensi Social, o retrato é, por definição, dinâmico e assimétrico. Neste momento, dois dos laboratórios finalizam e divulgam resultados com potencial de repercussão imediata: o Laboratório Rodrigues, com um estudo sobre transparência de dados do setor privado na área de segurança alimentar; e o Laboratório Pinheiro, que conclui a nova edição de sua pesquisa nacional sobre comportamento pró-social no Brasil.

O escritório do Pensi Social, na sede da FJLS, em São Paulo: ”Entender e enfrentar as desigualdades que impactam o bem-estar de crianças e adolescentes requer análise de território, cultura, comportamento, investimento social e decisões políticas“, explica o dr. José Luiz Setúbal. Foto: Mário Rodrigues/Galápagos

Os laboratórios operam com autonomia intelectual e compartilham diretrizes de governança: microdados públicos (exceto nos casos de sigilo ético), avaliação 360 graus e metas de impacto social mensurável. Cada pesquisador é avaliado por seus pares, lideranças e equipe técnica — e sua progressão na carreira está condicionada ao equilíbrio entre produção acadêmica e impacto concreto.

A política interna estabelece que ao menos 30% do tempo de trabalho dos pesquisadores deve ser dedicado a ações de campo ou projetos com impacto mensurável. Em alguns casos, essa proporção se inverte: 70% do tempo em projetos aplicados e 30% em pesquisa acadêmica tradicional. Essa lógica busca superar o modelo de centros de pesquisa que acumulam papers sem efeito prático nos territórios. O mais recente relatório anual da Fundação José Luiz Setúbal e o site do Pensi Social trazem informações mais detalhadas sobre os laboratórios e suas pesquisas. A seguir, uma breve síntese.

Linhas de pesquisa e laboratórios

Laboratório Pinheiro – comportamento pró-social e políticas públicas

Sob a liderança de Flávio Pinheiro, o laboratório analisa como os brasileiros se envolvem com causas coletivas — doações, voluntariado, apoio a campanhas e mobilizações cívicas. No ano passado, a pesquisa nacional Retrato da Solidariedade – Comportamento Pró-Social no Brasil revelou que 65% dos brasileiros dão esmola, mas apenas 27% doam para organizações sociais. O estudo também mostrou que 83% dos doadores decidem o valor “na hora”, sem planejamento. Esses dados têm sido utilizados por organizações do terceiro setor para reformular estratégias de captação e engajamento. Em breve o laboratório deverá divulgar a nova edição dessa pesquisa, que traz uma série de novos dados interessantes. Para começar, a pesquisa mostra que em 2024 o montante financeiro da doação no Brasil [R$ 23,6 bilhões] pode ter chegado a 0,20% do PIB, um valor que se aproxima do Piso da Atenção Primária à Saúde no SUS em 2024, estimado em R$ 28 bilhões, ou a quase dois meses de repasses diretos do Bolsa Família (em média, cerca de R$ 14 bilhões por mês), o maior programa de transferência de renda do país. Em 2023, o montante havia sido de R$ 16,9 bilhões, ou 0,16% do produto interno bruto, o que representa crescimento real de 40% e um avanço de 18% no número de doadores monetários.

A maior parte desse salto veio de aportes motivados por crises. Após as enchentes no Rio Grande do Sul, 3,9% dos entrevistados tornaram‑se doadores pela primeira vez, e a fatia das contribuições pontuais subiu de 62% em 2023 para 76% em 2024, enquanto o contingente de doadores recorrentes encolheu de 38% para 24%.

Para o pesquisador principal Flávio Pinheiro, a força dessa investigação reside no método: “Esta é a primeira pesquisa nacional que bate de porta em porta para medir solidariedade; a coleta presencial corrige vieses de acesso telefônico e entrega um retrato mais fiel da cultura de doação no país”. Ao evidenciar simultaneamente a rapidez com que a sociedade responde a emergências e a vulnerabilidade gerada pela predominância de doações pontuais, o estudo sugere a necessidade de estratégias que convertam a mobilização espontânea em fluxo previsível de recursos para as OSCs. Os resultados completos, com análises regionais e séries históricas detalhadas, serão divulgados pelo Pensi Social nas próximas semanas, oferecendo base sólida para gestores públicos, organizações do terceiro setor e demais interessados aprofundarem o debate sobre financiamento filantrópico.

Laboratório Magalhães – ética em políticas de saúde

Coordenado por Mônica Magalhães, bioeticista com formação em Health Policy and Ethics (Harvard), o laboratório investiga dilemas éticos em decisões de alocação de recursos. Entre os temas: como alocar recursos escassos com justiça, quando usar algoritmos em decisões clínicas e como regular tecnologias emergentes com alto custo. O grupo produz pareceres internos e colabora com instituições públicas e privadas na formulação de políticas sensíveis à equidade.

Laboratório Rodrigues – filantropia, políticas públicas e desenvolvimento

O laboratório dirigido por Pietro Rodrigues investiga como a filantropia interage com o Estado e o setor privado na criação de bens públicos. Seus estudos mapearam investimentos sociais em segurança alimentar e revelaram gargalos que impedem que recursos privados cheguem às cozinhas comunitárias. Em resposta, o Infinis redesenhou fundos de apoio, priorizando contratos com agricultura familiar. A equipe também desenvolve ferramentas de análise de governança colaborativa, capacidades estatais e arranjos intersetoriais.

Laboratório König – estratégia, governança e filantropia para transições sustentáveis

Liderado por Claudia Cheron König, o laboratório estuda como a filantropia pode impulsionar mudanças sustentáveis e acelerar inovações sociais. Um estudo sobre o manejo do pirarucu na Amazônia mostrou que, quando há governança local e cadeias produtivas fortalecidas, a renda gerada impacta diretamente o bem-estar infantil. O grupo desenvolve modelos de avaliação estratégica aplicados a parceiros como a B3 Social e a Fundação Amazônia Sustentável.

Laboratório Bersani – antropologia da saúde e engajamento comunitário

Coordenado por Ana Elisa Bersani, o laboratório realiza imersões em territórios vulneráveis. No Jardim Lapena (SP), o trabalho revelou que a baixa adesão a programas de primeira infância não estava ligada à ausência de oferta, mas à desconfiança na UBS local e à distância física e simbólica entre os serviços e a comunidade. A pesquisa reorientou o projeto antes da destinação de recursos. A equipe também atua em territórios indígenas e periferias urbanas, fortalecendo estratégias de escuta e cocriação com agentes locais.

Laboratório Ramos – políticas públicas e desigualdades em saúde

Sob coordenação de António Pedro Ramos, o laboratório aplica métodos estatísticos avançados e modelos de machine learning para prever riscos de mortalidade infantil com base em dados do SUS e fatores socioeconômicos. Os modelos permitem identificar, com alta acurácia, nascimentos sob maior risco de óbito evitável, permitindo que gestores públicos priorizem ações com maior potencial de impacto. A equipe também estuda os efeitos de mudanças climáticas na aprendizagem e no desempenho escolar de jovens vulneráveis.

Atuação integrada com o Infinis e o Sabará

O Pensi Social participa de um ciclo institucional articulado. Seus estudos subsidiam decisões do Infinis, que coordena a frente de advocacy e a filantropia estratégica da fundação. O fluxo se consolida em um circuito: problemas detectados em campo são analisados em laboratório, resultando em parecer técnico que orienta decisões de investimento e redesenho de políticas. O Infinis aplica as evidências em programas e campanhas — e os aprendizados retornam ao laboratório.

Além disso, o Pensi Social integra o Instituto Pensi e atua em parceria com o Sabará Hospital Infantil, onde os dados gerados são utilizados em decisões clínicas, desenho de projetos assistenciais e monitoramento de impacto. A lógica é de retroalimentação: a evidência científica orienta a ação, que, por sua vez, gera novos dados para a pesquisa.

Ciência para decisões públicas e filantrópicas

Embora ainda opere com uma equipe enxuta — cerca de 40 bolsistas e pesquisadores —, o Pensi Social já integra redes como Arnova, Anpocs, SPI e Gife. Seus achados foram apresentados em conferências nacionais e internacionais e vêm sendo utilizados por parceiros públicos e privados. A metodologia do departamento já começou a ser replicada por organizações sociais no semiárido nordestino e em colaborações com centros de pesquisa da África e da América Latina.

O Pensi Social propõe um modelo de departamento que combina excelência acadêmica com foco aplicado. Seus estudos partem da realidade brasileira e retornam a ela com recomendações concretas. A fundação que o abriga entende que não basta ter vontade de ajudar: é preciso saber onde, como e com que base. Se o futuro da filantropia e o da política pública dependem de boas escolhas, o Pensi Social oferece um ponto de partida confiável: evidência aberta, contextualizada e orientada por impacto.

Por Galápagos Newsmaking

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