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Segurança alimentar: dados à meia‑luz

Estudo inédito expõe falhas de transparência em relatórios empresariais sobre soberania e segurança alimentar e nutricional (SSAN) e aponta oportunidades de melhoria

Foram necessários quase dois anos de garimpo nos sites corporativos e relatórios de sustentabilidade para que o Laboratório de filantropia, políticas públicas e desenvolvimento do Pensi  Social, departamento de pesquisa em ciências sociais e filantropia do Instituto Pensi, pudesse concluir a primeira radiografia nacional sobre o aporte privado em soberania e segurança alimentar. O resultado, reunido no estudo “Investimento e apoio empresariais para garantia da soberania e segurança alimentar e nutricional no Brasil  (2020-2023)”, consolida um banco aberto que já pode ser consultado por pesquisadores.

O levantamento examinou 150 companhias líderes nos setores do agronegócio, alimentos e  bebidas e varejo; apenas 98 dispunham de relatórios públicos entre 2020 e  2023, e somente 49 apresentaram documentos em todos os quatro anos. Ainda assim, os autores contabilizaram 681 iniciativas — da doação de cestas básicas em emergências sanitárias a programas de capacitação agrícola — e identificaram sinais positivos, como institutos empresariais que publicam balanços auditados e financiam ações de longo prazo.

Os casos bem‑sucedidos, porém, são raros. A maioria dos projetos contínua de curta duração, geograficamente concentrada nas regiões Sudeste e Sul e pouco conectada às lacunas da política pública. Falta detalhar orçamentos, locais de execução e composição das cestas; sobram oportunidades para transformar esforços pontuais em programas permanentes, para reduzir desperdícios na cadeia logística e fortalecer organizações comunitárias que operam onde a fome é mais aguda.

Pesquisador no escuro

Constatações como a prevalência de doações emergenciais e baixa cooperação com organizações comunitárias completam um diagnóstico que, segundo os autores, abre espaço para melhorar escala, qualidade e transparência. O primeiro obstáculo apareceu antes mesmo da coleta de dados: boa parte das 150 companhias inicialmente selecionadas nem sequer publicou relatórios empresariais. Em muitos casos, quando existiam, foram publicados um ano sim, outro não — e, quase sempre, com descrições superficiais. “Nós passamos dois  anos capturando esse tipo de informação. Sem relatórios consistentes, o pesquisador fica no escuro”, afirma Pietro Rodrigues, coordenador do estudo.

Faltavam detalhes elementares: orçamento, localização exata, parceiros, tipo de alimento doado, duração da ação. Auditorias independentes eram exceção; na maioria dos casos, a revisão dos documentos atendia mais a exigências de acionistas do que ao interesse público. O resultado fere a diretriz 12.6 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, que recomenda a grandes corporações integrar dados socioambientais a seus ciclos de prestação de contas. No agronegócio, onde compradores internacionais pressionam por indicadores como GRI ou Sasb, os relatórios surgem com frequência um pouco maior. Mas mesmo ali a padronização é parcial: cada empresa monta capítulos a seu gosto, tornando impossível comparar metas ou indicadores. “Às vezes o PDF traz uma única linha: ‘Doamos duas toneladas de alimento’. Sem destacar para quem, quando ou que produto foi entregue”, observa Maria Victoria Vilela, coautora. A falha empurra pesquisadores a minerar informações dispersas em sites corporativos e releases de marketing, atrasando qualquer avaliação independente dos resultados sociais.

Sete de cada dez iniciativas catalogadas são projetos pontuais, com duração limitada e público restrito. Programa–guarda‑chuva, que reúnem metas de longo prazo e diferentes frentes de atuação, não chegam a um quinto do total. “O grosso das atividades são ações pontuais, com baixa coordenação e pouca chance de se tornarem permanentes”, constata Rodrigues. Essa lógica se acentua quando os recursos ficam alocados em departamentos sem equipe dedicada nem orçamento protegido. O estudo revela que apenas 36 das 98 empresas mantêm institutos ou fundações próprias. “Quando a empresa tem um instituto, há repasse anual atrelado ao lucro; isso garante planejamento e independência para desenhar projetos mais robustos”, explica Vilela.

A ausência de estruturas permanentes também dificulta parcerias estratégicas: cooperativas familiares recebem treinamentos que reforçam cadeias de fornecimento já existentes, mas poucas ações miram desafios estruturais, como reduzir perdas no armazenamento de grãos ou ampliar o acesso de agricultores a mercados regionais. Entre 2020 e 2021, a pandemia aumentou o número de iniciativas declaradas, mas muitas evaporaram após o pico da emergência sanitária. Outras migraram para coalizões multissetoriais, caso do Pacto contra a Fome, que busca escala ao articular recursos de empresas e fundações. Mesmo ali, porém, a continuidade dependerá de relatórios transparentes e métricas compartilhadas — condições ainda raras na amostra examinada.

Potencial de articulação inexplorado

O mapa das iniciativas confirma um viés territorial. São Paulo concentrou 146 ações e abriga a sede de 37 % das empresas analisadas; o Paraná, segundo colocado, recebeu 125. No total, Sudeste e Sul somam quase dois terços dos projetos, enquanto Norte e Nordeste, regiões com os índices mais altos de insegurança alimentar grave, ficaram com 19 % e 16 %, respectivamente. “As empresas atuam onde se sentem confortáveis, geralmente perto das plantas industriais ou dos escritórios centrais”, reconhece Rodrigues. Essa proximidade reduz custos logísticos e facilita a divulgação nos meios locais, mas desconsidera a prioridade social. As raras organizações que operam em áreas de carência extrema, como a Amigos do  Bem no sertão nordestino, dependem de doações flexíveis para manter infraestrutura, salários e programas de longo prazo. Ainda assim, apenas 27 iniciativas (4 % do total) declararam apoio institucional desse tipo. Sem recursos estáveis, as organizações da sociedade civil (OSCs) adaptam seus projetos às preferências de marketing das corporações, sacrificando temas menos visíveis, como logística, reaproveitamento ou educação nutricional. “Existe um enorme potencial de coordenação desses esforços, mas ele continua inexplorado”, avalia Rodrigues. A nova Estratégia Nacional de Segurança Alimentar, lançada em 2023, reforça a participação social e amplia frentes temáticas, do deserto alimentar ao excesso de ultraprocessados. Falta, contudo, articular incentivos que levem o capital privado para fora do eixo mais rico do país e aproximem suas iniciativas das lacunas que a política pública ainda não cobre.

Qualidade das doações

Distribuir cestas básicas continua sendo uma das formas dominantes de engajamento: 40 % das ações listadas mencionam alívio imediato da fome. O problema é que os relatórios raramente discriminam se as cestas contêm itens in natura ou ultraprocessados. “Às vezes o que chega às OSCs é fécula de mandioca sobrante da produção de cerveja; tecnicamente é comida, mas pouco influencia na nutrição das famílias”, observa Vilela. No agronegócio, algumas empresas relatam plantios de eucalipto destinados a cavaco para caldeiras, classificando a prática como reflorestamento alinhado ao ODS 2. Para os autores, trata‑se de greenwashing: a queima do cavaco emite carbono e não contribui diretamente para a dieta de ninguém. O estudo também detectou pouca atenção às etapas intermediárias da cadeia. Perdas no transporte e no armazenamento podem chegar a 50 % da colheita de grãos, mas menos de 3 % das iniciativas abordam redução de desperdício ou reaproveitamento. Coalizões de logística de “último quilômetro”, que recolhem excedentes de supermercados e os entregam a bancos de alimentos, somam casos isolados. Em contraste, no Brasil são descartadas cerca de 55 milhões de toneladas de comida por ano — oito vezes o necessário para alimentar a população em fome grave. Há exemplos promissores: empresas que auditam cadeias de frio, start-ups de routing solidário (planejamento e otimização de rotas, neste caso para transporte de doações), cooperativas que transformam excedentes em compostagem para hortas urbanas. Contudo, sem métricas comparáveis, é difícil provar escala ou replicar modelos bem‑sucedidos. A lacuna reforça a necessidade de avaliação independente e de relatórios que diferenciem iniciativas emergenciais de programas capazes de mudar rotinas produtivas.

Caminhos para avançar

Ao fim de quase dois anos de coleta, os autores defendem três movimentos complementares. Primeiro, ampliar a transparência: relatórios anuais padronizados — auditados e disponibilizados em bases públicas — poupariam pesquisadores de garimpos manuais e permitiriam acompanhar tendências setoriais em tempo real. Segundo, fortalecer institutos e fundações empresariais: ao blindarem o orçamento social contra flutuações trimestrais, essas entidades podem planejar programas de cinco anos, articular parceiros e medir impacto na ponta. Terceiro, direcionar parte dos recursos para apoio institucional às OSCs enraizadas nos territórios mais vulneráveis; assim, empresas alcançam áreas onde não possuem operações diretas e reduzem desigualdades regionais. “Não se trata de condenar o setor privado, mas de mostrar como ele pode ampliar sua contribuição”, sublinha Rodrigues. O estudo sugere ainda que futuros incentivos priorizem ações em elos críticos da cadeia — logística, refrigeração, processamento de excedentes — e que a plataforma de dados criada pelo Pensi Social seja atualizada anualmente, mesmo que focada nos setores de maior risco. O laboratório pretende comparar, em 2026, o novo ciclo de relatórios (2024‑2025) com a linha de base agora divulgada e expandir a análise para a participação da filantropia no Programa de Aquisição de Alimentos. Ao cruzarem indicadores de políticas públicas com investimentos privados, os pesquisadores esperam identificar sinergias e evitar sobreposições. O percurso, admitem, é longo, mas o potencial de aperfeiçoamento também: se cada empresa cobrir um elo negligenciado, o Brasil poderá converter desperdício em refeição e discurso em resultado.

A pesquisa

O estudo “Investimento e apoio empresariais para garantia da soberania e segurança alimentar e nutricional no Brasil (2020-2023)” foi coordenado por Pietro Rodrigues, pesquisador responsável pelo Laboratório de Filantropia, Políticas Públicas e Desenvolvimento do Pensi Social, que integra o Instituto Pensi, frente de ensino e pesquisa da Fundação José Luiz Setúbal. A pesquisa dá continuidade a uma investigação anterior sobre o investimento social privado (ISP) voltado à segurança alimentar e inspira uma série de produções e publicações realizadas pelos pesquisadores Laura Camargo, Maria Victoria Vilela e Pedro Luiz dos Santos.

O estudo mapeou 150 empresas dos setores de agronegócio, alimentos & bebidas e comércio varejista, com base no ranking Valor 1000 (2023); entretanto, apenas 98 possuíam alguma ação relacionada ao ODS 2. Os dados foram extraídos de relatórios públicos — como os de sustentabilidade, ESG e atividades — e analisados com critérios como localização, tipo de ação, público-alvo, elo da cadeia produtiva e aderência ao ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável) e ao ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis) da ONU.

O foco do Laboratório de filantropia, políticas públicas e desenvolvimento é o estudo da participação de organizações filantrópicas na promoção de bens públicos. É composto de pesquisadores de diferentes áreas e níveis de formação e gera conhecimento de forma autônoma; oferece suporte estratégico para o ecossistema filantrópico e da inovação social no Brasil e realiza pesquisas com outros parceiros da academia. As pesquisas desenvolvidas no laboratório fazem uso extensivo de métodos mistos e que combinam análises estatísticas, análises de redes sociais, entrevistas, estudos de caso e QCA (Análise Comparativa Qualitativa, do inglês, Qualitative Comparative Analysis).

Por Galápagos Newsmaking

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