
A situação mundial da infância
67 —Acabar com a pobreza infantil: nosso imperativo comum.
Esse é o novo documento do Unicef lançado em novembro e coloca a pobreza como o centro de sua atenção. Em um mundo de abundância, muitas crianças sofrem à medida que a pobreza lhes rouba os direitos e põe em risco o seu futuro.
A pobreza é entendida como a falta de acesso a recursos financeiros. Assim, todos os dias, 412 milhões de crianças no mundo acordam em extrema pobreza financeira, sobrevivendo com menos de 3 dólares por dia.
As crianças têm mais do que o dobro da probabilidade de viver em extrema pobreza monetária em comparação com os adultos. Como seus corpos e mentes ainda estão em desenvolvimento, também são mais vulneráveis aos efeitos da pobreza, com consequências que podem afetar seu bem-estar por toda a vida.
Mas o Unicef entende a pobreza como um problema multidimensional. A pobreza também precisa ser entendida em termos das privações que as crianças vivenciam em seu cotidiano em áreas como moradia, alimentação, água potável, saneamento básico, educação e saúde.
Mais de 1 em cada 5 crianças em países de baixa e média renda sofrem privações graves em pelo menos duas áreas vitais, essenciais para sua saúde, desenvolvimento e bem-estar.
A falta de saneamento básico é a privação mais grave e disseminada. Embora a cobertura de água tratada no Brasil seja maior (cerca de 84%), apenas 53% da população têm coleta de esgoto, e apenas 46% desse esgoto é efetivamente tratado. O cenário é marcado por grandes desigualdades sociais e regionais.
Para as crianças, a pobreza prejudica a saúde e o desenvolvimento, limita a capacidade de aprendizado e leva a piores perspectivas de emprego, menor expectativa de vida e maiores taxas de depressão e ansiedade.
Para as sociedades, a pobreza mina a prosperidade econômica futura e, ao privar as comunidades da esperança, cria condições nas quais a violência e o extremismo podem prosperar.
Quem corre maior risco de pobreza infantil?
As crianças mais novas do mundo vivenciam taxas de pobreza mais altas do que as mais velhas. Crianças com deficiência, crianças que vivem em áreas rurais e crianças indígenas apresentam taxas de pobreza mais elevadas do que outras.
As crianças deslocadas ou refugiadas, embora frequentemente subnotificadas, enfrentam um risco maior de pobreza tanto durante o trajeto quanto após a chegada. Temos que lembrar que essas crianças existem nas regiões de fronteiras no Norte do país, em grande parte formadas por populações indígenas e que são acolhidas em Estados com poucos recursos financeiros para acolher refugiados.
Para acabar ou mitigar o problema da pobreza na infância, o Unicef propõe trabalhar em cinco pilares políticos. Eles focam na integração de esforços nas áreas de nutrição, saúde, educação, habitação e mercado de trabalho. Priorizam também a equidade e o empoderamento, ajudando as famílias a se tornarem autossuficientes, ao mesmo tempo que utilizam o planejamento baseado em evidências em todas as intervenções.
1. Fazer do fim da pobreza infantil uma prioridade nacional.
2. Integrar as necessidades das crianças nas políticas econômicas e nos orçamentos.
3. Ampliar a proteção social inclusiva
4. Ampliar o acesso a serviços públicos de qualidade.
5. Promover trabalho decente para pais e cuidadores.
Embora muitas crianças ainda vivam na pobreza, o mundo fez progressos significativos. Neste século, a proporção de crianças que vivem em situação de extrema privação diminuiu em um terço. Os países que obtiveram progressos fizeram do fim da pobreza infantil uma prioridade nacional e trabalharam para incorporar os direitos das crianças nas políticas nacionais e no planejamento econômico.
Mas a pandemia da COVID-19 interrompeu grande parte desse progresso, e a recuperação tem sido lenta. O mundo ainda está muito aquém de suas metas de redução da pobreza.
Cortes repentinos na ajuda oficial ao desenvolvimento podem agravar a situação de vulnerabilidade infantil em muitos países de baixa e média renda. Além disso, os desafios impostos por conflitos, crises climáticas e choques econômicos ameaçam piorar ainda mais a situação.
Muitas crianças vivem na pobreza, privadas de recursos financeiros e de itens essenciais como educação e saneamento. Mas a pobreza infantil não é inevitável. Países já demonstraram o que é possível quando priorizam as crianças. O que precisamos agora é de um compromisso para implementar estratégias comprovadas, inovar à medida que as crises se sucedem e manter o foco inabalável nos direitos de todas as crianças.
Fontes:
The State of the World's Children 2025
Saiba mais:
· Qual o futuro queremos para as nossas crianças?
Dr. José Luiz Setúbal
(CRM-SP 42.740) Médico Pediatra formado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com especialização na Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduação em Gestão na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Pai de Bia, Gá e Olavo. Avô de Tomás, David e Benjamim.