
Adultos, amanhã; crianças pequenas, hoje
2 —Formar adultos responsáveis e produtivos é uma tarefa que começa na infância – e a família tem um papel fundamental nisso
Afirmar que as crianças pequenas de hoje serão os adultos de amanhã pode parecer trivial e evidente. No entanto, não é trivial — porque ser adulto é mais do que ter uma idade entre 18 e 70 anos. É também, e principalmente, poder trabalhar e saber se comportar de modo responsável, contributivo e cuidadoso consigo mesmo, com a sociedade e com o mundo. Muitos adultos não conseguem isso, não por falta de vontade, mas porque não tiveram as condições necessárias: faltou escola de qualidade, moradia digna, cidade segura e saudável, vínculos afetivos estáveis. O resultado é a dependência, o subaproveitamento do potencial humano e a reprodução de desigualdades que só fazem crescer.
Também não é evidente, porque ainda hoje muitas crianças morrem antes de se tornarem adultas — e as que sobrevivem em contextos de privação frequentemente enfrentam, na vida adulta, obstáculos difíceis de superar. As pesquisas são claras: o melhor momento para prepararmos o futuro adulto é quando ele ainda é uma criança pequena, nos primeiros seis anos de vida — e até antes, durante a gestação.
Como oferecer às crianças de hoje as melhores condições para serem adultos responsáveis, produtivos e criativos amanhã? Dez respostas fundamentais:
1. Os primeiros anos são decisivos. “Educai as crianças e não será preciso punir os homens.” Essa frase antiga continua atual — e a neurociência contemporânea a confirma.
2. O nível educacional das mães importa. Mães bem-informadas e apoiadas cuidam melhor de seus filhos. Investir na educação feminina é investir diretamente no futuro das crianças.
3. O contexto de nascimento marca trajetórias. Não se trata de determinismo genético, mas de desigualdade de oportunidades. Famílias em situação de vulnerabilidade não querem menos para seus filhos — simplesmente não podem oferecer o mesmo que famílias com mais recursos.
4. Habilidades emocionais são tão importantes quanto cognitivas. Em um mundo de inteligência artificial e conexões digitais constantes, saber conviver, regular emoções e estabelecer relações saudáveis tornou-se ainda mais essencial para a Geração Alpha, os nascidos após 2010.
5. O cérebro da criança precisa de nutrientes. Físicos, afetivos, sociais e cognitivos. Oportunidades perdidas nos primeiros anos criam defasagens difíceis — ou impossíveis — de recuperar mais tarde, apesar da plasticidade cerebral.
6. A qualidade dos estímulos faz diferença. Fortalecer os estímulos positivos, tolerar os neutros e evitar os tóxicos — como o excesso de telas, o isolamento afetivo ou a exposição a conteúdos inadequados nas redes sociais — é uma responsabilidade de famílias e profissionais.
7. A criança é sujeito ativo. Estímulos externos não bastam: é preciso observar e respeitar a sensibilidade e o ritmo de cada criança, reconhecendo-a como protagonista do seu próprio desenvolvimento.
8. Vínculos saudáveis sustentam o desenvolvimento. Relações familiares e sociais estáveis, afetuosas e seguras são o alicerce sobre o qual tudo o mais se constrói — especialmente nos primeiros anos.
9. Escola e cultura também educam. Além da família, escolas, programas socioeducativos e culturais bem avaliados são parceiros insubstituíveis na formação das crianças de hoje — nossos adultos de amanhã e a esperança concreta de um mundo melhor.
10. Instituições comprometidas com a infância fazem a diferença. Famílias e profissionais não estão sozinhos nessa tarefa. Organizações que pensam, cuidam e defendem a infância de forma integrada são parceiras indispensáveis na construção do futuro. A Fundação José Luiz Setúbal (FJLS), ao completar 15 anos em 2025, consolida-se como o maior polo de saúde infantil do Brasil — atuando de ponta a ponta na defesa de crianças e adolescentes: da excelência no cuidado hospitalar à pesquisa, do advocacy ao investimento filantrópico. Por meio do Sabará Hospital Infantil, do Instituto Pensi e do Infinis, a Fundação traduz em ação concreta o que este texto afirma como princípio: investir na infância saudável é cultivar o futuro.

Dr. Lino de Macedo
Professor Emérito pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Foi Presidente da Academia Paulista de Psicologia e integra a Cátedra de Educação Básica do IEA (USP). Professor Senior do Departamento de Ciências Sociais do Instituto Pensi.