
As crianças e as telas
17 —No sábado, dia 18 de abril, participei, com o Dr. José Luiz Egydio Setubal e a Dra. Gláucia Faria de Sá, de uma mesa-redonda sobre a relação das crianças com as telas.
O que segue é um sumário de minha apresentação. Analisei o problema, que tanto preocupa pais e educadores, em cinco dimensões: saudável, inevitável, agradável, substituível e disponível, fazendo comentários a cada uma delas. (1) A relação das crianças com a tela é saudável, isto é, faz bem, é benéfica ou proveitosa para sua saúde? Minha resposta é sim e não, dependendo do quanto, do como e do quê a criança faz através delas. (2) A relação das crianças com as telas é inevitável? Sim, se considerarmos que elas são, cada vez mais, instrumentos de trabalho e lazer para os adultos e de lazer (e estudo) para as crianças. Nos preocupamos com seu uso exagerado pela criança, mas não observamos que o mesmo pode valer para muitos de nós. A justificativa de que as usamos para trabalhar não é suficiente se calculamos, igualmente, as horas que passamos nas redes sociais, nos brinquedos eletrônicos, nas trocas de mensagens. As crianças observam seus pais fazendo esses usos e os imitam, e julgam que isso é bom e interessante. (3) A relação das crianças com as telas é substituível, ou seja, dispensa outras experiências fundamentais aos seus processos de aprendizagem e desenvolvimento? Não. Elas são para ver, ouvir e interagir. Ver e ouvir são órgãos sensoriais à distância. Interagir não pode ser apenas pela via indireta. A criança precisa cultivar, igualmente, os órgãos sensoriais que implicam proximidade física: tocar, cheirar, sentir o gosto. (4) A relação das crianças com as telas é agradável? Sim e não. Muitas vezes, elas continuam jogando e jogando, quando já estão cansadas, com fome. Há um aspecto aditivo, tóxico, que precisa ser observado e evitado. (5) O que dizer do fato de as telas estarem sempre disponíveis para seu uso? Pode ser confortável saber que, por si mesmas e dependendo das condições, as máquinas (tablets, computadores, telefones) estão sempre disponíveis para serem usadas. Ou seja, telas, programas de jogos podem operar 24 horas por dia, 7 dias por semana[1]. E quanto à nós, às crianças e aos jovens? Isso é bom para a vida, saúde e bem-estar nosso e deles?
Concluímos a fala ponderando que a relação da criança com as telas supõe, como em tudo mais, o papel responsável, vigilante, amoroso e sensível de seus pais ou responsáveis. São eles que saberão, em nome da criança e junto com ela, avaliar o quanto a experiência com telas e jogos está sendo positiva ou negativa ao seu desenvolvimento. Trata-se de mais uma oportunidade de aprender e ensinar a estabelecer e respeitar limites, de ganhar autonomia e autossuficiência nos atuais tempos tecnológicos.
[1] Sugerimos sobre isso a leitura do livro de Jonathan Crary, 24/7 – O capitalismo tardio e os fins do sono. São Paulo: Cosac Naify, 2014
Leia também: A grande polêmica das mídias sociais e a saúde mental
Atualizado em 31 de julho de 2024

Dr. Lino de Macedo
Professor Emérito pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Foi Presidente da Academia Paulista de Psicologia e integra a Cátedra de Educação Básica do IEA (USP). Professor Senior do Departamento de Ciências Sociais do Instituto Pensi.