Automutilação infantojuvenil começa cedo, ocorre mais com meninas e exige acolhimento
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Automutilação infantojuvenil começa cedo, ocorre mais com meninas e exige acolhimento

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Estudo mapeia idade, gênero e circunstâncias da automutilação entre jovens paulistanos (2018‑2023), mostra que a automutilação começa aos cinco anos e afeta sobretudo as meninas. Kethlen Cavinato, que conquistou o primeiro lugar do 5º Prêmio Pensi, alerta para a necessidade de intervenção precoce. Na foto, com Felipe Lora, CEO do Sabará Hospital Infantil.

O Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) registrou 19.526 ocorrências de automutilação envolvendo crianças e adolescentes paulistanos entre 2018 e 2023. Meninas responderam por 77,8 % dos casos, e adolescentes de 15  a  19 anos concentraram 64,3 % dos episódios — mas a presença de notificações abaixo dos 10  anos alerta para a necessidade de acolhimento ainda na infância. Com esses números, o estudo de Kethlen Torres Cavinato, da Universidade Nove de Julho (Uninove), conquistou o primeiro lugar na categoria Estudantes do 5º Prêmio Pensi e oferece roteiro robusto para ação intersetorial em saúde mental.

Kethlen começou a observar autolesões ainda no cursinho pré‑vestibular, quando colegas escondiam pequenos cortes nos braços. O tema reapareceu na faculdade: uma amiga do grupo de estudos repetia o comportamento. “Entendi depois como um pedido de ajuda”, afirma Kethlen, defendendo que cada cifra remete a histórias de abandono ou de dor silenciosa que só vêm à tona quando alguém decide perguntar.

Diante do tabu, a futura médica transformou a inquietação em pergunta científica: quem são esses jovens, quando começam, que fatores agravam o quadro?

Para responder, ela se uniu a sete colegas e iniciou o trabalho sob orientação do professor Éric Edmur Camargo Arruda. O desenho escolhido foi epidemiológico descritivo, usando dados públicos do Sinan acessados via TabNet/Datasus. A equipe filtrou todas as notificações de 2018 a 2023 para a faixa de 0 a 19  anos, exportou o banco original e criou planilhas que cruzaram as variáveis ano, idade, sexo, raça/cor, presença de deficiência ou transtorno e suspeita de uso de álcool. “Aos cinco anos, já há registros de crianças que se automutilam. Esse dado nos convida a olhar mais cedo, com mais atenção, porque a intervenção precoce pode quebrar um ciclo de dor que normalmente fica oculto no corpo ou nas roupas”, ressalta Kethlen, lembrando que parte do sofrimento infantil continua fora das estatísticas completas por falhas de notificação.

O corte temporal — seis anos inteiros — permite acompanhar variações anuais e avaliar o impacto de eventos externos, como a pandemia de covid‑19. Cada ficha do Sinan traz dados clínicos essenciais: presença de deficiência ou transtorno, suspeita de uso de álcool e categoria étnica. A opacidade aparece quando se consultam campos sobre motivação (racismo, homofobia, sexismo, conflito geracional): muitos profissionais deixam esses campos em branco, limitando a leitura sobre causas contextuais.

“Esse estudo me mostrou que há muito a ser feito. E que vale a pena dar visibilidade a esses temas.”

Dos 19.526 registros, 12.560 pertencem à faixa de 15 a 19 anos (64,3 %); outros 5.641 concentram‑se em 10 a  14 anos (28,9 %). Apesar da menor frequência absoluta, as fichas mostram que casos também ocorrem em crianças mais novas — fato que corrobora a fala de Kethlen e exige vigilância precoce. A divisão por sexo confirma predomínio feminino: 15.192 ocorrências (77,8 %).

Quase um quarto (4.823) das notificações envolvem crianças ou adolescentes com deficiência ou transtorno. Dentro desse grupo, transtornos comportamentais despontam com 2.526 registros, sugerindo trajetória de sofrimento que pode prolongar‑se na vida adulta.

O consumo de álcool aparece em 1.645 fichas (8,4 %), atingindo o pico de 9,24 % no ano pandêmico de 2020. A literatura científica, citada no próprio resumo do estudo, descreve a bebida como desinibidora de comportamentos autolesivos, sobretudo quando já existentes. Os dados objetivos dialogam com a evidência consolidada em pesquisas internacionais: comportamentos autolesivos repetidos aumentam em 26,7 vezes a probabilidade de tentativa de suicídio. Importante sublinhar — como faz o próprio artigo — que a automutilação não busca a morte, mas dessensibiliza o corpo à dor física e normaliza a agressão contra si. Por isso, quebrar o ciclo cedo é estratégia de prevenção primária do suicídio.

A pesquisadora destaca três frentes imediatas derivadas do trabalho. A primeira é capacitar pediatras, professores e agentes de saúde a reconhecer sinais sutis (roupas desproporcionais ao clima, isolamento súbito, curativos frequentes em locais similares). Outra é buscar uma integração no encaminhamento dos casos, articulando uma rede que una atenção básica, serviços de saúde mental e grupos de apoio escolar para que nenhum caso dependa apenas da vigilância familiar. Por fim, é necessário melhorar as notificações, incentivando o preenchimento completo das fichas, principalmente nos campos de motivação, com dados importantes para a análise de fatores contextuais (bullying, homofobia, violência doméstica).

A autora também defende oficinas de saúde mental para famílias, desarmando a ideia de que a autolesão seja “apenas busca de atenção”. Quando os pais compreendem a complexidade psicológica e biológica do sofrimento, tendem a abandonar respostas punitivas ou moralizantes.

O trabalho mapeia limites de fonte secundária: subnotificação (nem todos os profissionais preenchem fichas) e ausência de variáveis socioeconômicas. Para reduzir vieses, a equipe dobrou verificações internas, mas reconhece que cifras totais podem ser apenas a parte visível do iceberg. “Esse estudo me mostrou que há muito a ser feito. E que vale a pena dar visibilidade a esses temas”, conclui a pesquisadora, atualmente na reta final da graduação e candidata à residência pediátrica com foco em saúde mental. Os registros analisados traduzem dor real, potencial de dano duradouro e necessidade de resposta organizada. Assim, o estudo reconstrói o contorno de um problema ainda cercado de silêncio, mostra quem está mais exposto e oferece pistas concretas de intervenção.


Cavinato, Kethlen Torres; Sidião, Gabriella Borges; Morais, Lorrany Eduarda Pereira; Morita, Isabelle Leiko Guedes; Jorge, Stephanie Zarlotim; Letícia Amelotti Coelho, Luiza Neves Favero; Arruda, Éric Edmur Camargo; "PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES QUE SE AUTOMUTILAM: UMA ANÁLISE NO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO DE 2018 A 2023.", p. 50-52 . In: Anais do 7º Congresso Internacional Sabará-Pensi de Saúde Infantil. São Paulo: Blucher, 2024.


Por Rede Galápagos

Comunicação PENSI

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