
Desengasgo em crianças: o que mudou nas novas diretrizes da American Heart Association
1418 —A cada cinco anos, a American Heart Association (AHA) revisa e publica recomendações internacionais baseadas nas mais recentes evidências científicas sobre suporte básico de vida (BLS – Basic Life Support). A atualização de 2025, elaborada em conjunto com a Academia Americana de Pediatria (AAP), trouxe mudanças importantes nas manobras de desengasgo — especialmente para bebês e crianças.
Essas orientações são fundamentais não apenas para profissionais de saúde, mas também para pais, professores e cuidadores, pois qualquer pessoa pode se deparar com uma situação de emergência em que o tempo de resposta faz toda a diferença.
No Brasil, o tema ganhou destaque com a Lei Lucas (Lei nº 13.722/2018), que tornou obrigatória a capacitação de professores e funcionários de escolas em primeiros socorros, após a morte do menino Lucas Begalli, de 10 anos, vítima de engasgo em um ambiente escolar.
Por que o engasgo é tão perigoso?
A aspiração de corpo estranho é uma das principais causas de morte acidental em menores de 1 ano.
Cerca de 90% dos casos ocorrem em crianças menores de 5 anos, muitas vezes presenciados por familiares ou cuidadores.
Os objetos e alimentos mais comuns envolvidos são:
Frutas pequenas (como uvas e pedaços de maçã), pipoca, amendoim, balas e pedaços de carne;
Pequenos brinquedos, tampinhas de caneta, moedas, balões e peças soltas.
O primeiro sinal de engasgo é geralmente uma tosse súbita e intensa. Se o objeto bloquear totalmente as vias aéreas, a criança pode não conseguir falar, emitir sons ou respirar, evoluindo rapidamente para perda de consciência.
Atualização 2025: o que mudou para bebês (menores de 1 ano)
Antes (2020):
O bebê era colocado com a cabeça mais baixa que o corpo, apoiado no antebraço do socorrista, com o rosto voltado para baixo. Eram dadas 5 batidas firmes nas costas, entre as escápulas, seguidas de 5 compressões torácicas com dois dedos logo abaixo da linha dos mamilos.
Agora (2025):
O posicionamento continua o mesmo — bebê apoiado com a cabeça mais baixa e face voltada para baixo (fig. 1) —, mas há uma mudança importante nas compressões:
Devem ser feitas com a base da mão, e não mais com dois dedos.
Aplicam-se 5 batidas nas costas, observando se o corpo estranho é expelido.
Se não sair, vira-se o bebê com o rosto para cima e faz-se 5 compressões torácicas com a base da mão, abaixo da linha dos mamilos (fig. 2).
O ciclo de 5 batidas + 5 compressões deve ser repetido até a criança desobstruir as vias aéreas.
Se a criança ficar inconsciente, deve-se chamar ajuda (SAMU 192) e iniciar a reanimação cardiopulmonar (RCP) em uma superfície firme.
Fig. 1
Fig. 2
Atualização 2025: o que mudou para crianças maiores de 1 ano
Antes (2020):
O protocolo indicava iniciar diretamente a manobra de Heimlich — compressões abdominais rápidas, de dentro para cima, com uma das mãos fechadas sobre o abdômen e a outra apoiando-a.
Agora (2025):
A AHA recomenda um novo passo inicial:
Fazer 5 batidas firmes nas costas da criança, com a mão espalmada, entre as escápulas. (fig.3)
Se o corpo estranho não sair, aplicar 5 compressões abdominais (Heimlich) (fig.4).
Repetir a sequência até que o objeto seja expelido ou até a criança perder a consciência.
Se a criança desfalecer, deve-se chamar por ajuda e iniciar RCP imediatamente.
Fig. 3
Fig. 4
Prevenção: o melhor tratamento é evitar o engasgo
Supervisione todas as refeições de crianças pequenas (1 a 3 anos).
Evite alimentos redondos, duros ou escorregadios como uvas inteiras, amendoim, balas e salsichas.
Nunca ofereça alimentos enquanto a criança corre, brinca ou fala.
Mantenha a posição sentada e calma durante as refeições.
Redobre a atenção com crianças com atrasos no desenvolvimento neurológico, prematuridade ou dificuldades de deglutição.
Se os episódios de engasgo forem recorrentes, procure avaliação médica.
Atenção com brinquedos feitos de pequenas peças, bolinhas, baterias, tampinhas de caneta, e principalmente balões.
E lembre-se: se você aplicou as manobras de desengasgo ou suspeita que a criança aspirou algum corpo estranho, e ela permanece sintomática, mas estável, procure imediatamente um pronto-socorro pediátrico para avaliação médica. Mesmo que o objeto pareça ter saído, pode haver restos que causem complicações respiratórias posteriores.
Dica importante:
Nunca tente retirar o corpo estranho às cegas.
Introduzir os dedos na boca da criança sem visualizar o objeto pode empurrá-lo ainda mais, agravando a obstrução.
Em resumo
As novas diretrizes da AHA reforçam a importância de ações simples, rápidas e seguras.
Treinamento e informação salvam vidas — e qualquer pessoa pode ser o primeiro socorrista em uma emergência.
Após qualquer episódio de engasgo, nunca deixe de buscar avaliação médica, mesmo que a criança pareça bem — isso garante segurança e evita complicações.
Referências bibliográficas:
1. Joyner BL Jr, Dewan M, Bavare A, de Caen A, DiMaria K, Donofrio-Odmann J, et al.
Part 6: Pediatric Basic Life support: 2025 American Heart Association and American Academy of Pediatrics guidelines for cardiopulmonary resuscitation and emergency cardiovascular care. Pediatrics. 2025 Oct 22. doi:10.1542/peds.2025-074350.
2. Bray JE, Smyth MA, Perkins GD, Cash RE, Chung SP, Considine J, et al.
Basic Life Support: 2025 International Liaison Committee on Resuscitation consensus on science with treatment recommendations. Circulation. 2025 Oct 21;152(16 Suppl 1):S34–71. doi:10.1161/CIR.0000000000001364.
3. Sociedade Brasileira de Pediatria.
Obstrução de vias aéreas por corpo estranho e engasgo por líquidos: o que fazer? Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Pediatria; 2025. 6 p. (Guia prático de atualização – Curso de suporte básico de vida; 222)

Dra. Heloisa Ionemoto
Formada em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Fez Residência Médica em Pediatria no Instituto da Criança na Faculdade de Medicina da USP. Tem Mestrado em Medicina pela Universidade de São Paulo. Possui Título de Especialista em Terapia Intensiva Pediátrica. Fez MBA em Gestão em Saúde pelo IBMEC-Insper. Atualmente é gerente médica da Educação Continuada do Instituto Pensi.