
Diagnóstico precoce muda o curso da doença falciforme
11 —Pesquisa do Laboratório da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, destacada pelo Prêmio Pensi na categoria Estudantes, melhora o manejo da doença falciforme com diagnóstico confirmatório precoce. Na foto, resultado do teste de fragilidade osmótica, imagem do manual Diagnóstico Laboratorial das Hemoglobinopatias do Ministério da Saúde, elaborado pelo orientador e co-autor do estudo.
Nos serviços de triagem neonatal que ainda aguardam o sexto mês de vida para confirmar uma suspeita de doença falciforme, a prática médica muitas vezes se resume a vigiar e torcer. No Mato Grosso do Sul, essa espera perdeu sentido. Um protocolo desenvolvido na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) entrega laudos moleculares antes de a criança completar duas semanas, antecipando profilaxia antibiótica, vacinação especial e orientação familiar. “Cada dia ganho é um potencial caso de sepse evitado”, resume o geneticista Edis Belini Jr., que integra o grupo técnico do Ministério da Saúde para as talassemias.
Uma das responsáveis pelo estudo do novo fluxo atende pelo nome de Laura Ramires. Aos 25 anos, no último ano de medicina em Três Lagoas, ela participou do Curso Teórico-Prático de Pediatria Hospitalar do Instituto Pensi, que tem como campo de estudos o Sabará Hospital Infantil. O curso lhe apresentou de perto a prática da triagem neonatal e acendeu nela a ideia de investigar hemoglobinopatias. De volta ao interior sul‑mato‑grossense, reuniu 18 meses de dados de triagem, converteu dúvidas diagnósticas em algoritmos de bancada e conquistou o quarto lugar na categoria Estudantes do 5º Prêmio Pensi de Pesquisa em Saúde Infantil.
Da triagem clássica ao laudo de DNA
O “teste do pezinho” brasileiro, instituído em 2001, rastreia 6 grupos de doenças, entre elas as hemoglobinopatias. Em 2022, 269 recém‑nascidos em cada 10 mil apresentaram o traço falciforme e 4,39 manifestaram a doença propriamente dita, segundo o Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN). O gargalo? Converter o achado bioquímico em diagnóstico definitivo. Sem biologia molecular, perfis eletroforéticos ambíguos permanecem sob a rubrica “inconclusivo” — e a família circula entre postos de saúde sem respostas.
No Laboratório de Genética e Biologia Molecular da UFMS, adotou-se um caminho diferente. Amostras alteradas chegam pelo Instituto de Pesquisas, Ensino e Diagnóstico (Iped/Apae) de Campo Grande. Ali recebem uma sequência de testes: eletroforeses em pH alcalino e ácido, cromatografia líquida de alta performance (HPLC) e, sobretudo, painéis de PCR‑RFLP que rastreiam mutações de Hb S, C e D, além de GAP‑PCR para deleções alfa‑talassêmicas. Quando as mutações fogem ao repertório, o sequenciamento de DNA entra em campo.
“Das três etapas, a molecular é a que fecha a porta para a incerteza”, diz Belini, coautor do manual Diagnóstico laboratorial das hemoglobinopatias do Ministério da Saúde. O documento demonstra mais de 1.800 mutações descritas mundialmente e 703 apenas na cadeia beta da hemoglobina. Sem DNA, diferenciar interações raras pode levar meses.
Outra frente de impacto é o tempo. Antes do protocolo, muitos serviços aguardavam o perfil adulto se estabelecer, por volta dos 6 meses, para repetir a eletroforese. Hoje, 92% dos casos chegam à conclusão antes de 30 dias, redução que já se reflete nas intercorrências clínicas: menos crises vaso‑oclusivas precoces e menos internações por infecção pneumocócica, relatam pediatras do Hospital Regional de Três Lagoas em acompanhamento informal.
A hemoglobinopatia no Brasil
Os números nacionais sublinham a urgência. O Sistema Informatizado Hemovida Web Hemoglobinopatias (SHWH) somava 31.024 pacientes cadastrados até dezembro de 2023, sendo 27.882 com doença falciforme e 1.337 com talassemias moderadas ou graves. Bahia, São Paulo, Minas Gerais, Maranhão e Rio de Janeiro concentram os novos diagnósticos, reflexo histórico do gene S trazido pela diáspora africana — mas a migração interna duplica casos em regiões antes consideradas de baixa prevalência.
A prevalência global também exige atenção: 300 mil a 500 mil bebês nascem anualmente com hemoglobinopatias graves; 83% portam doença falciforme, segundo a Organização Mundial da Saúde. No Brasil, 557.986 recém‑nascidos foram diagnosticados como portadores do traço falciforme entre 2014 e 2022, e quase 10 mil já nasceram com a doença estabelecida apenas nesse intervalo.
Economia de recursos, não de precisão
O algoritmo sul‑mato‑grossense, inspirado em diretrizes do manual federal, foi desenhado para caber no bolso do Sistema Único de Saúde. Enquanto um exame molecular custa em média R$ 1.300 na rede privada, o mesmo painel sai por R$ 66 na tabela SUS quando processado na UFMS — diferença que viabiliza acordos de cooperação interestaduais. Propostas em negociação com a Coordenação‑Geral de Sangue e Hemoderivados preveem que estados sem verba própria enviem amostras ao laboratório e recebam laudos gratuitos, em troca do compartilhamento de dados epidemiológicos.
Para assegurar padronização, três pilares foram adotados: metadados clínicos completos em cada requisição (idade, transfusões, hemograma), associação de técnicas complementares e diálogo constante entre bancada e assistência — um tripé também recomendado pelo manual ministerial. A equipe ainda criou um prontuário digital que alerta o pediatra por e‑mail assim que o PDF do laudo fica disponível, reduzindo o hiato entre ciência e leito.
Formação que gera multiplicadores
O laboratório de Três Lagoas completou seis anos, mas já captou R$ 4 milhões em equipamentos e material de insumo, fora as bolsas de estudo. Ao todo, 73 projetos de graduação e pós-graduação foram desenvolvidos no laboratório. “Eu cheguei achando que pesquisa era uma coisa distante da realidade prática. Saio vendo que um gene pode mudar o protocolo de uma rede de atenção à saúde e melhorar a saúde dos pacientes”, diz Laura, agora inclinada a seguir como pesquisadora clínica.
Belini roda o país desde 2012, ministrando oficinas para a Hemorrede Pública Nacional sobre diagnóstico laboratorial das hemoglobinopatias. O know‑how acumulado deu origem a vários trabalhos publicados, incluindo o consenso da Associação Brasileira de Hematologia e Hematoterapia sobre diagnóstico laboratorial das talassemias, três cursos on-line gratuitos, acessados por 1,7 mil profissionais desde 2021, e convite para integrar o comitê científico que atualizará, em 2025, a Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doença Falciforme.
Do microscópio à política pública
O próximo passo é estruturar rotas logísticas de baixo custo para transporte de amostras, inclusive de localidades sem voos regulares. Paralelamente, a equipe elabora um anexo técnico para o manual de 2024 que descreve, passo a passo, o “Algoritmo de Diagnóstico” — do preenchimento do pedido ao diagnóstico confirmatório. A meta é que qualquer laboratório estadual possa reproduzir ou participar do fluxo de análises sem necessidade de infraestrutura sofisticada local.
“A universidade existe para resolver problemas reais”, lembra Belini. No caso, o problema é ter melhor qualidade de vida: quase 7% da população mundial carrega algum alelo defeituoso de hemoglobina, e 3,4% da mortalidade infantil global decorre de complicações ligadas a essas mutações. A solução começa com um diagnóstico rápido, acessível e tecnicamente irretocável — exatamente o que o time sul‑mato‑grossense demonstrou ser possível. “Transformar uma planilha de laboratório em serenidade para pais e melhor prognóstico para crianças. O resto é detalhe”, sintetiza Laura. Se depender dela e do DNA analisado em tempo recorde, cada novo bebê sul‑mato‑grossense ganhará o mesmo presente: uma história clínica que começa com prevenção, não com sintomas.
Silva, Laura Ramires; Pessoa, Caroline Pimentel; Oliveira, Lara Cristina Rodrigues de; Dias, Ingrid Souza; Souza Júnior, Luis Antonio de; Berti, Amanda Cristina Meneguetti; Muynarsk, Elisângela de Souza Miranda; Belini-Junior, Edis; "IMPORTÂNCIA DAS ANÁLISES MOLECULARES PARA A CONFIRMAÇÃO DIAGNÓSTICA PRECOCE DA DOENÇA FALCIFORME EM RECÉM-NASCIDOS", p. 195-196 . In: Anais do 7º Congresso Internacional Sabará-Pensi de Saúde Infantil. São Paulo: Blucher, 2024. ISSN 2357-7282, DOI 10.5151/sabara2024-3023
Por Rede Galápagos
