Gelatina fibrilar reduz sangramento em neurocirurgia pediátrica
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Gelatina fibrilar reduz sangramento em neurocirurgia pediátrica

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Biomaterial neutro assegura ressecção segura de tumores cerebrais. Trabalho de Rafael Colodetti — enfermeiro, fisioterapeuta, mestre em enfermagem e agora doutorando em biotecnologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) — é um dos vencedores do prêmio Pensi na categoria Estudantes.

Controlar a hemorragia é o ponto decisivo de qualquer cirurgia para remover tumores cerebrais em crianças. Mesmo um filete de sangue pode turvar o campo operatório, prolongar o tempo sob anestesia e, no limite, comprometer a recuperação de um organismo cuja volemia ainda é limitada. Na prática clínica, porém, faltava evidência robusta sobre qual agente hemostático reuniria segurança, rapidez de aplicação e baixo custo. Foi essa lacuna que mobilizou Rafael Colodetti — enfermeiro, fisioterapeuta, mestre em enfermagem e agora doutorando em biotecnologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) — a analisar um biomaterial à base de gelatina porcina em apresentação fibrilar. Embora o produto já tivesse uso pontual em adultos, nenhuma publicação o havia avaliado de modo sistemático na neurocirurgia pediátrica.

O vazio científico como motivação

A ideia nasceu de um levantamento nas principais bases médicas de dados. Colodetti e equipe constataram que artigos sobre agentes hemostáticos em crianças eram escassos; sobre gelatina fibrilar, inexistiam. A composição do material — pH neutro, textura maleável e biodegradação completa — apontava vantagens claras: menor risco de reação química caso o cirurgião associasse antibióticos tópicos, aderência suave a estruturas cerebrais sensíveis e absorção rápida do exsudato. “Encontramos um vazio científico e clínico que não podia permanecer”, resume o pesquisador, bolsista da Capes e integrante do Grupo de Oncologia Clínica e Experimental (Loce) da Ufes.

Seis etapas até a evidência

O projeto foi submetido ao Comitê de Ética e estruturado em seis fases. A primeira consistiu na revisão sistemática da literatura que sustentaria o desenho do ensaio. Em seguida, a equipe definiu instrumentos de avaliação — tomografia computadorizada de rotina após 24 horas e ressonância magnética entre 30 e 60 dias para checar sangramento residual e biodegradação. A terceira fase ocorreu no bloco operatório do Hospital Infantil Nossa Senhora da Glória (HINSG-ES), onde o hemostático foi aplicado e cada detalhe registrado em questionários validados pelo neurocirurgião-chefe, Walter Fagundes. Depois vieram as imagens de controle, o acompanhamento clínico por até doze meses e a análise estatística com teste exato de Fisher e regressão ordinal, sob nível alfa de 5 %. Cada passo obedecia aos protocolos mais rígidos para participantes de 0 a 18 anos.

Amostra expressiva em plena pandemia

Entre 2019 e 2022, mesmo sob restrições impostas pela covid‑19, o estudo registrou 267 procedimentos. Eles foram agrupados em quatro conjuntos, mas o foco do trabalho recaiu sobre as 61 ressecções de tumores cerebrais. Crianças de 2 a 5 anos predominavam, e o seguimento médio foi de 11 a 12 meses. Gliomas apareceram com mais frequência, em linha com a literatura internacional. Ao final, o biomaterial recebeu nota “excelente” em todos os quesitos: facilidade de uso, adaptação ao leito cirúrgico, poder tampão e absorção de fluidos e sangue.

Trinta segundos que salvam tecido

O dado mais eloquente foi o tempo até a hemostasia: menos de 30 segundos, na maioria dos casos. Esse intervalo curto manteve o campo operatório limpo. O novo hemostático acelerou a retirada do tumor e dispensou manobras extras que poderiam ferir áreas saudáveis do cérebro. Nenhuma criança precisou voltar à sala cirúrgica por complicações, como encapsulamento (retenção do material), hematoma (acúmulo de sangue) ou infecção. Exames de imagem feitos logo depois da operação, e repetidos após um a dois meses, mostraram que o material desaparece por completo nesse período  “biodegrada”; numa linguagem simples, quer dizer que o corpo o absorve sem deixar resíduos. Para os cirurgiões, isso encurta o tempo de exposição do cérebro; para as famílias, reduz a internação e o risco de sequelas.

Desafios no campo e resiliência

Chegar a esses números exigiu presença constante no centro cirúrgico, muitas vezes em horários imprevisíveis. Colodetti lembra que, durante o auge da pandemia, cada entrada na sala de cirurgia implicava novas barreiras sanitárias. Paralelamente às exigências éticas para pesquisas com menores de idade, multiplicavam-se formulários e revisões. “Foi cansativo, mas reforçou a importância de ter pesquisadores dentro do hospital, acompanhando o paciente, do pré-operatório até a alta”, afirma.

O esforço foi reconhecido no 5º Prêmio Pensi de Pesquisa em Saúde Infantil, onde o trabalho recebeu o terceiro lugar na categoria Estudantes.

Horizonte de novas aplicações

Encerrado o ensaio, as perguntas se multiplicaram. Sob orientação da prof.ª dr.ª Sonia Alves Gouvea, Colodetti planeja um pós‑doutorado para testar o mesmo biomaterial em feridas oncológicas, conhecidas pelo exsudato hemorrágico constante. A neutralidade de pH permitiria combinar a gelatina a antibióticos tópicos e a substâncias pró‑angiogênese sem interação adversa. O pesquisador já publicou uma revisão integrativa sobre hemostáticos cirúrgicos e pretende ampliar a série, avaliando terapias em procedimentos minimamente invasivos e em feridas crônicas.

Embora ensaios multicêntricos ainda sejam necessários, o estudo oferece um alicerce sólido para atualizar protocolos hospitalares. Trinta segundos de sangria controlada transformam a execução da cirurgia; a biodegradação completa elimina a necessidade de remoção; e a ausência de efeitos adversos respalda a segurança. “Hemorragia é a primeira fase da cicatrização; se dominamos esse passo, todo o processo de recuperação muda”, conclui o pesquisador. Com 267 intervenções analisadas nesse estudo, nenhuma complicação registrada e um prêmio que chancela o trabalho, a gelatina fibrilar abre novas trilhas para a neurocirurgia pediátrica.


Colodetti, Rafael; Fagundes, Walter; Moura, João Augusto Diniz; Gouvea, Sonia Alves; "HEMOSTÁTICO DE GELATINA FIBRILAR NA CIRURGIA PEDIÁTRICA DE RESSECÇÃO DE TUMOR CEREBRAL", p. 113-129 . In: Anais do 7º Congresso Internacional Sabará-Pensi de Saúde Infantil. São Paulo: Blucher, 2024. ISSN 2357-7282, DOI 10.5151/sabara2024-2947


Por Rede Galápagos

Comunicação PENSI

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