
Importância do comportamento repetitivo para a aprendizagem
100 —O comportamento repetitivo é muito comum na infância. Mas, afinal, o que a criança aprende com isso?
“Repetir” vem do latim repetere — “pedir de novo”, “buscar outra vez”. E é exatamente isso que as crianças pequenas fazem o tempo todo: pedem de novo. Mas por que repetir tanto? Qual é o sentido deste comportamento repetitivo? A resposta está no coração do desenvolvimento infantil.
Podemos compreender o comportamento repetitivo a partir de duas situações distintas, cada uma revelando um aspecto importante de como as crianças aprendem sobre o mundo.
Repetir pelo prazer funcional
Imagine uma criança pequena que joga a colher no chão — não uma, não duas, mas vinte vezes seguidas. Para muitos adultos, isso pode parecer teimosia ou desrespeito. Não é. Como nos ensina Jean Piaget, trata-se de um jogo de exercício movido pelo prazer funcional: a satisfação de realizar uma ação pelo simples prazer de realizá-la.
A cada colher jogada, a criança aprende. Aprende sobre o objeto — seu peso, sua forma, o som que faz ao cair, a direção que toma. Aprende sobre sua própria ação — a força necessária, os diferentes trajetos possíveis, como o corpo se coordena para arremessar. Nesse processo, ela constrói o que Piaget chamava de esquemas de ação e desenvolve habilidades motoras fundamentais. Desenvolve autonomia, em seu duplo sentido: fazer por si mesma e pertencer à comunidade das pessoas que sabem fazer isso.
Há também uma dimensão cognitiva fascinante nesse comportamento: a criança está, a seu modo, testando uma hipótese — "será que, se eu jogar de novo, acontecerá a mesma coisa?" Ela está descobrindo a regularidade do mundo, e isso é ciência em sua forma mais primitiva e genuína.
E não são apenas as crianças que vivem isso. Todos nós repetimos pelo prazer funcional — ouvimos a mesma música inúmeras vezes, relemos ou reescutamos a mesma história, encontramos novamente com os mesmos amigos, voltamos ao mesmo brinquedo ou à mesma brincadeira. Há algo de profundamente humano nesse desejo de rever, reouvir, reencontrar. A repetição, nesse sentido, não é sinal de limitação — é sinal de vida.
A repetição como criadora de rituais e hábitos
Erik Erikson, um dos grandes teóricos do desenvolvimento humano, nos oferece outro ângulo para compreender a repetição: ela cria rituais. Atos simples do cotidiano — comer, tomar banho, cumprimentar, agradecer — ganham significado e importância justamente porque são repetidos. Com o tempo, tornam-se hábitos saudáveis que estruturam a vida, organizam as relações e sustentam o bem-estar.
Para Erikson, essa dimensão ritual da repetição forma o que ele chamava de ethos cultural: um conjunto de práticas compartilhadas que dão sentido à existência e tecem os laços entre as pessoas. Quando ensinamos uma criança a dizer "bom dia”, a lavar as mãos antes de comer ou a agradecer um gesto de carinho, não estamos apenas transmitindo regras — estamos introduzindo-a em uma cultura, em uma forma de estar com os outros e consigo mesmo.
Repetir pelas consequências
Há uma segunda razão para a repetição: o valor que a criança atribui ao que acontece depois. Aqui o exemplo clássico é o choro.
Chorar, em si, não é agradável — pode expressar dor, fome, cansaço, medo. Mas muitas crianças aprendem que chorar é uma forma eficaz de obter atenção, colo ou algo que desejam. Quando isso acontece de forma sistemática — a criança chora, o adulto cede para "acabar com o choro" — instala-se um ciclo de aprendizagem que merece atenção.
Trata-se, também, de uma forma legítima de aprendizagem. A criança está sendo inteligente: ela descobriu uma estratégia que funciona. O ponto, porém, é que cabe aos pais e cuidadores observar esse padrão com cuidado. Responder a toda demanda imediatamente pode, com o tempo, dificultar o desenvolvimento da tolerância à frustração e da autonomia emocional da criança.
Isso não significa ignorar o choro — muito pelo contrário. Significa estar atento ao contexto: distinguir o choro de necessidade real do choro como estratégia aprendida, e responder a cada um de forma adequada. Essa sensibilidade é um dos aspectos mais exigentes — e mais importantes — da parentalidade.
O que o comportamento repetitivo nos ensina
Nos dois casos, a repetição é aprendizagem. No primeiro, a criança repete pelo prazer de explorar e descobrir. No segundo, repete porque aprendeu que certos comportamentos produzem resultados. Em ambos, ela está exercendo sua inteligência.
Compreender isso nos convida a olhar para as crianças com mais paciência — e com mais curiosidade. Quando uma criança insiste, repete, pede de novo, ela não está sendo difícil. Ela está, à sua maneira, aprendendo como o mundo funciona. E nos lembrando, talvez, de algo que nós, adultos, às vezes esquecemos: que repetir, quando feito com sentido, é uma das formas mais ricas de aprender e se desenvolver.

Dr. Lino de Macedo
Professor Emérito pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Foi Presidente da Academia Paulista de Psicologia e integra a Cátedra de Educação Básica do IEA (USP). Professor Senior do Departamento de Ciências Sociais do Instituto Pensi.