
Intoxicado. De quê?
49 —Intoxicado e inflamado são termos muito usados no vocabulário sobre nutrição, ao menos nas redes sociais.
A dimensão daquilo que não pode ser comido, pois se não aumentará a inflamação do corpo, ou aquele outro alimento que não deve ser consumido de forma alguma, pois causa intoxicação — são alardeados aos montes e seguem sempre com a mesma sugestão: é necessário eliminá-los do cardápio, fundamental fazer um “detox”.
São esses os jargões facilmente encontrados, de forma manifesta, por profissionais com condutas muitas vezes duvidosas, mas que prometem ganhos quase milagrosos para o corpo.
Basta tirarmos a coitada da batata da mesa, ou, por que não, o terrível macarrão? — Que a Liga dos Vilões estará derrotada!
A dimensão da ironia já está posta e o absurdo da equação, também.
Propagar desintoxicação ou até mesmo desinflação por meio do meio que mais nos intoxica e nos inflama parece, no mínimo, curioso; e aqui, não falo da comida — obviamente —, mas sim das redes sociais.
Sabe-se que o consumo de “digitais” está fortemente associado a níveis elevados de depressão e ansiedade na nossa sociedade.
Quando vejo alguém propagando na rede social o detox, o único que me parece realmente fundamental é o detox daquele veículo de informação.
Da propagação incessante de conteúdos que encharcam a todos nós de forma excessiva e violenta.
Hoje, deletei meu Instagram.
Entendi que o excesso das redes, somado ao excesso de demandas do mundo, multiplicado pela aceleração do tempo tecnológico, contribui de forma muito eficaz para o adoecimento do humano.
E você, o que tem feito, verdadeiramente, para se desintoxicar?

Gabriela Malzyner
É psicóloga, psicanalista e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Coordenadora e docente do Núcleo de Infância e Adolescência do CEP e consultora do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares do Instituto PENSI.