MMS: O perigo das “curas milagrosas”
Saúde

MMS: O perigo das “curas milagrosas”

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Sem comprovação científica, método indica o uso de alvejante altamente corrosivo para tratar o TEA. As indefinições que cercam o TEA, a demora nos resultados das terapias em alguns casos e os contratempos inerentes a uma condição complexa como esta fazem muitos pais se iludirem com tratamentos sem comprovação científica que prometem uma “cura” extraordinária. A panaceia da moda é o MMS (solução mineral milagrosa, numa tradução livre do inglês), que seria o único “remédio” capaz de eliminar bactérias, vermes e metais pesados, tidos pelos defensores deste método como os reais responsáveis pelos sintomas do autismo. Os vídeos e sites que propagam (e vendem) esta “cura” explicam que o MMS é resultado da mistura de clorito de sódio e ácido cítrico. Juntos, estes elementos criam o dióxido de cloro, um alvejante altamente corrosivo utilizado em sistemas de tratamento de água e no branqueamento de madeira. O resultado da ingestão ou do uso via retal do MMS pode causar danos imediatos como vômito, diarreia, desidratação, prostração e irritação e lesão das mucosas, além do risco de desenvolver insuficiência renal, gastrites e úlceras graves. Em junho de 2018, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a fabricação, distribuição e comercialização do MMS para cura do autismo ou outras indicações para a saúde, enfatizando que o dióxido de cloro não é reconhecido como apropriado para fins terapêuticos. [ embed] https://www.youtube.com/watch?v=P0M45v6Artg&feature=youtu.be[ /embed] É importante destacar que não foi apenas a Anvisa que baniu o uso do MMS como medicamento. A agência norte-americana Food and Drug Administration (FDA), o Ministério da Saúde do Canadá e a Food Standards Agency do Reino Unido também alertaram sobre o perigo do MMS para a saúde humana nos últimos anos. A Association for Science in Autism Treatment destacou em um artigo sobre a substância que sequer foram realizados estudos sobre o uso médico do dióxido de cloro devido à elevada toxicidade do componente químico e ao grave risco à saúde dos participantes. Apesar de todo este esforço, a legião de defensores do MMS segue espalhando na internet depoimentos sobre os seus supostos benefícios. Náusea, vômito e diarreia são tidos como comprovação do bom funcionamento do método, enquanto a principal evidência de sucesso dos enemas (injeção de líquido pela via retal) é a expulsão de fragmentos de mucosa intestinal. Para os defensores da MMS, esses pedaços de intestino são na verdade vermes causadores dos sintomas do autismo. Tratamentos experimentais e alternativos sem base científica podem causar danos reais aos pacientes. Mas não são apenas pais desesperados que promovem a substância. O MMS tem três embaixadores que trazem um ar técnico para o discurso, mesmo sem apresentar nenhum estudo científico oficial, algo muito comum no mercado das “curas milagrosas”. Auto-intitulado descobridor do protocolo, Jim Humble alega que, além do autismo, ele pode tratar câncer, diabetes, esclerose múltipla, Parkinson, Alzheimer, HIV/AIDS, malária, entre muitas outras doenças. Criador da Genesis 2 Igreja da Saúde e da Cura, Humble já alegou ser um engenheiro aeroespacial (informação negada em 2008), e hoje se define como um deus da galáxia Andrômeda enviado para proteger e monitorar a Terra. Outros dois nomes à frente do método são a homeopata americana Kerri Rivera (que vive no México após uma condenação nos EUA por fazer alegações médicas infundadas sobre autismo) e o biofísico alemão Andreas Kalcker, que veio ao Brasil em 2015 divulgar o “tratamento”. O Autismo e Realidade nasceu da união de pais de crianças autistas com profissionais de saúde especializados em TEA para ampliar a divulgação de informações sobre o tema. Por isso, ficamos muito preocupados com a propagação de “curas milagrosas” sem nenhuma comprovação científica, como o MMS. Entendemos que soluções fáceis para uma condição complexa como o TEA podem ser atraentes e, por isso, achamos importante reforçar que tratamentos experimentais e alternativos sem base científica podem causar danos reais aos pacientes, além do desperdício de tempo e dinheiro. A FDA listou algumas dicas para ajudar a identificar declarações falsas ou enganosas sobre tratamentos de saúde. ● Suspeite de produtos que alegam tratar uma ampla gama de doenças; ● Depoimentos pessoais não são substitutos para evidências científicas; ● Poucas doenças ou condições podem ser tratadas rapidamente, por isso desconfie de qualquer terapia reivindicada como uma “solução rápida”; ● As chamadas “curas milagrosas”, que alegam avanços científicos ou contêm ingredientes secretos, são provavelmente uma farsa. Além disso, queremos acrescentar outras duas recomendações: ● Peça referências científicas sobre qualquer tratamento novo que for receitado. É o direito da pessoa com autismo e de seus responsáveis ter todas as informações que acharem necessárias para tomar uma decisão; ● Na dúvida, busque uma segunda opinião. Leia também: Tipos de suporte para ajudar pessoas com TEA Atualizado em 13 de janeiro de 2025

Joana Portolese

Neuropsicóloga e pesquisadora associada ao Autismo & Realidade. Coordenadora da equipe Multiprofissional do ambulatório de Autismo do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.

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