
97º Diálogos de Bioética debate os limites da intervenção parental no plano de cuidado da equipe multidisciplinar
0 —Caso clínico apresentado por especialistas discutiu tomada de decisão compartilhada, conflitos entre equipe e familiares e os desafios éticos para garantir o melhor interesse da criança em contextos de alta complexidade assistencial.
A 97ª edição dos Diálogos de Bioética do Instituto Pensi reuniu, no dia 22 de julho, profissionais de diferentes áreas para refletir sobre os desafios éticos relacionados à participação das famílias nas decisões clínicas de crianças com condições graves e internações prolongadas.
A partir da apresentação de um caso clínico real, o encontro abordou temas como tomada de decisão compartilhada, comunicação entre equipe e familiares, segurança do paciente e os limites da intervenção parental no plano de cuidado elaborado pela equipe multidisciplinar. O evento foi conduzido pela médica intensivista Adriana Adda, pela fisioterapeuta intensivista Cássia Salgado, pela enfermeira líder Cintia Lopes, pela psicóloga Milena Nazário e pela cirurgiã de via aérea Saramira Bohadana, profissionais do Sabará Hospital Infantil.
Decisões clínicas em cenários de alta complexidade
O caso apresentado retratou a trajetória de uma criança com uma condição congênita grave, diagnosticada ainda durante a gestação, que exigiu cuidados intensivos desde o nascimento. Ao longo da internação, o paciente foi submetido a diversas intervenções de alta complexidade, incluindo suporte com ECMO, cirurgia para correção da agenesia do diafragma direito, hemodiálise, ventilação mecânica prolongada e, posteriormente, traqueostomia, diante das sucessivas dificuldades para retirada do suporte ventilatório.
As especialistas destacaram que situações como essa exigem avaliações contínuas sobre riscos, benefícios e objetivos do tratamento, além de uma atuação integrada da equipe multiprofissional para garantir um cuidado seguro, ético e centrado nas necessidades da criança.
Os limites da intervenção parental
Um dos principais temas discutidos foi o papel da família na tomada de decisões durante a internação. O caso evidenciou momentos de divergência entre os responsáveis e a equipe assistencial em relação à realização de procedimentos, além de situações envolvendo interferências externas no plano terapêutico, gravações não autorizadas e diferentes entendimentos sobre a condução do tratamento.
A discussão reforçou que a participação ativa da família é um princípio fundamental da assistência pediátrica, mas destacou que essa atuação precisa ocorrer em diálogo permanente com a equipe de saúde e dentro dos limites necessários para garantir a segurança do paciente.
Quando as escolhas dos responsáveis entram em conflito com as recomendações técnicas, torna-se essencial recorrer à comunicação, à mediação e aos princípios da Bioética para buscar soluções que preservem o melhor interesse da criança.
Comunicação, confiança e atuação multiprofissional
Outro aspecto abordado foi a importância da construção de vínculos de confiança entre profissionais e familiares ao longo da internação. As palestrantes ressaltaram que uma comunicação transparente, baseada na escuta qualificada, no acolhimento e no compartilhamento de informações, favorece a tomada de decisões mais seguras e reduz conflitos em momentos de elevada carga emocional.
O encontro também evidenciou o papel da equipe multiprofissional na condução desses processos, integrando diferentes perspectivas técnicas e humanas para oferecer um cuidado que considere tanto as necessidades clínicas quanto os aspectos emocionais e familiares envolvidos.
Ao final, a discussão reforçou que os dilemas éticos relacionados à intervenção parental exigem equilíbrio entre o respeito à autonomia da família, a responsabilidade técnica dos profissionais e o compromisso permanente com o melhor interesse da criança. A Bioética, nesse contexto, apresenta-se como um instrumento fundamental para orientar decisões complexas e fortalecer uma assistência ética, humanizada e centrada no paciente.
