O que você quer ser quando crescer?
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O que você quer ser quando crescer?

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Por muitos anos, essa era uma das primeiras perguntas que os adultos faziam às crianças: “O que você quer ser quando crescer?”


Estava contida nela a ideia de que a criança ainda não era nada; era um projeto de sujeito em seu vir a ser adulto. Estaria na sociedade para caber nos ideais da vida adulta e naquilo que, socialmente, continha valor.

Por muito tempo, fiz um trabalho interno para não incorrer nesse mesmo equívoco e não tomar a criança como um produto inacabado. Mas eis que essa criança, pronta em seu tempo presente, passa a ficar soterrada pelas exigências sociais.

Se ela não tem mais a dimensão do “o que você vai ser quando crescer”, tudo precisa acontecer no hoje, no agora, no tempo presente.

A criança não pode mais sonhar com o momento em que será uma grande nadadora. Para ser nadadora no futuro, terá que passar por provas classificatórias, treinos incessantes, demandas infinitas de campeonatos, pertencer a equipes competitivas. O tempo do amanhã se dá no hoje.

Vemos, então, crianças extenuadas, exaustas e perdidas.

Na ideia — importante — de que o sujeito já nasce sendo, perdemos o tempo da construção.
Do que quero vir a ser, que ainda não sou.

A aceleração tecnológica também contribui imensamente para essa problemática. O tempo de esperar se achatou. O tempo de maturação inexiste. No tempo eterno do hoje, não encontramos elementos no mundo que nos lancem para a frente… e a frente é sempre um lugar desconhecido e, por isso, precisa ser revestido de investimento e de muita esperança.

Para que possamos acompanhar nossas crianças e jovens em seus processos de vir a ser (não sujeitos, pois isso já o são), mas sim em suas aspirações, desejos, transformações e potencialidades, precisamos devolver a eles e a nós mesmos essa pergunta tão fundamental, que nos acompanha ao longo de toda a vida e nos permite sonhar.

 

E você? O que quer ser quando crescer?

Gabriela Malzyner

Gabriela Malzyner

É psicóloga, psicanalista e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Coordenadora e docente do Núcleo de Infância e Adolescência do CEP e consultora do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares do Instituto PENSI.

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