Sangramentos e manchas roxas na infância: quando devo me preocupar?
Blog Saúde Infantil

Sangramentos e manchas roxas na infância: quando devo me preocupar?

36

Pequenos traumas fazem parte do desenvolvimento motor e das atividades cotidianas. É importante prestar atenção em sangramentos recorrentes e desproporcionais

Sangramentos, hematomas e manchas roxas são situações comuns na infância e frequentemente geram medo e preocupação nas famílias. A boa notícia é que, na maior parte das vezes, esses achados estão relacionados às atividades do dia a dia, às brincadeiras e ao comportamento ativo próprio das crianças em fase de crescimento. Ainda assim, é importante saber diferenciar o que é esperado do que pode indicar a necessidade de investigação médica.

O primeiro passo é avaliar se o sangramento é compatível com a situação que o provocou, ou seja, se está de acordo com o tipo e a intensidade do trauma relatado. Crianças saudáveis podem apresentar episódios ocasionais de sangramento sem que isso signifique, necessariamente, um problema na coagulação. 

 

Manchas roxas e sangramentos

Na fase pré-escolar e escolar, por exemplo, é muito frequente observar manchas roxas em áreas mais expostas a traumas, como joelhos e pernas, especialmente abaixo dos joelhos. Essas marcas geralmente são consequência das brincadeiras, quedas e atividades do dia a dia. Já hematomas em locais menos expostos, como costas, nádegas e abdome, merecem maior atenção. 

Em bebês que ainda não engatinham ou não andam, manchas roxas são incomuns e devem sempre ser avaliadas com cuidado.

 

Como realizamos a avaliação médica dos sangramentos?

A avaliação médica inicia-se com uma história detalhada, com ênfase na caracterização dos episódios hemorrágicos (tipo, frequência, duração, intensidade e fatores desencadeantes), bem como na investigação de antecedentes pessoais relevantes. 

Devem ser exploradas situações que representem desafio hemostático, ou seja, qualquer situação que exponha o indivíduo ao risco de sangramento e exija ativação eficiente dos mecanismos de coagulação, como traumas, ferimentos, procedimentos invasivos, cirurgias prévias, extrações dentárias, vacinação e intercorrências neonatais. 

A história familiar de sangramentos, transfusões, diagnósticos prévios de coagulopatias ou óbitos por causas hemorrágicas também deve ser cuidadosamente investigada.

O exame físico minucioso complementa a avaliação, incluindo inspeção da pele e mucosas em busca de petéquias, equimoses, hematomas, sangramentos ativos ou sinais de doença sistêmica associada, além da avaliação de articulações e órgãos.

Considera-se sangramento fora do padrão aquele que se apresenta de forma desproporcional ao trauma desencadeante, com intensidade aumentada, recorrência elevada ou duração prolongada para o contexto clínico. A presença de sangramento espontâneo ou em locais atípicos também deve elevar o grau de suspeição.

Diante de achados sugestivos de distúrbio da hemostasia, está indicada investigação laboratorial direcionada. Os exames podem incluir hemograma completo com contagem de plaquetas, testes de coagulação (como tempo de protrombina (TP) e tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPa), dosagem de fibrinogênio e, quando indicado, estudos específicos para doenças hemorrágicas hereditárias ou adquiridas. 

A investigação complementar tem como objetivo confirmar ou excluir distúrbios da coagulação ou outras condições associadas, orientando a conduta terapêutica e o seguimento clínico adequados.

 

O que fazer diante de um sangramento?

Diante de um episódio de sangramento, o mais importante é manter a calma. A maioria dos sangramentos leves pode ser controlada em casa com medidas simples.

De forma geral, as medidas iniciais para controle de sangramentos incluem:

  1. Identificar corretamente a fonte do sangramento:
    Após uma limpeza cuidadosa da área com água corrente, é importante visualizar o local exato do sangramento. Isso permite direcionar melhor as medidas de contenção.

  2. Realizar compressão direta:
    A compressão direta é a medida mais importante e eficaz. Deve-se aplicar pressão firme e contínua sobre o local com gaze ou compressa, mantendo a pressão por alguns minutos sem interromper para checar se o sangramento cessou. Essa pressão ajuda os vasos lesionados a se fecharem e favorece a formação do coágulo.

  3. Aplicar compressa gelada local
    O uso de compressas frias ou gelo auxilia no controle do sangramento, pois provoca vasoconstrição (contração dos vasos sanguíneos), reduzindo o fluxo de sangue na região.

  4. Elevar o membro afetado, quando possível
    Se o sangramento for em braço ou perna, manter o membro elevado pode ajudar a diminuir o fluxo sanguíneo local, contribuindo para o controle.

No entanto, sangramentos intensos, que não cessam após compressão adequada, ou associados a sintomas como tontura, palidez ou fraqueza, exigem avaliação médica imediata.

Os sangramentos na infância podem se manifestar de diferentes formas. Embora o mecanismo seja o mesmo, cada situação apresenta particularidades na conduta inicial.

 

Nos casos de cortes superficiais na pele:

  • Realizar compressão direta com gaze ou compressa por 5 a 10 minutos contínuos, sem interromper antes desse período para verificar se houve cessação do sangramento, pois a interrupção precoce pode desfazer o coágulo em formação. 

  • A elevação do membro deve ser mantida durante a compressão. Está indicada avaliação médica quando o sangramento persiste após 10 a 15 minutos de compressão contínua, quando a lesão é profunda, extensa ou apresenta sinais sugestivos de infecção, como vermelhidão progressiva, dor intensa, secreção ou febre.

 

No caso de hematomas:

Os hematomas são causados pelo extravasamento de sangue sob a pele e devem ser avaliados conforme o trauma relatado e o local onde surgiram, já que algumas regiões do corpo exigem maior atenção.

  • Aplicação de compressa fria por 10 a 15 minutos, duas a três vezes ao dia, nas primeiras 24 a 48 horas após o trauma, com o objetivo de reduzir extravasamento sanguíneo e edema local. Após esse período, compressas mornas podem ser utilizadas para estimular a reabsorção do sangue acumulado. 

  • Devem ser valorizados hematomas extensos, muito dolorosos, que aumentam progressivamente de tamanho, surgem sem história de trauma compatível ou aparecem em locais pouco habituais.

 

A avaliação médica imediata é necessária diante de sinais de alerta, como:

  • Trauma craniano associado a sonolência, vômitos ou alteração do comportamento

  • Dor intensa e edema importante em articulações

  • Sangramento persistente ou de difícil controle

  • Sintomas sistêmicos como palidez acentuada, fraqueza, tontura ou mal-estar geral

 

A adoção dessas medidas iniciais é fundamental, mas a presença de sinais de gravidade deve sempre motivar avaliação médica para investigação adequada e definição da conduta.

 

Distúrbios hemorrágicos

O diagnóstico de um distúrbio hemorrágico na infância pode ser desafiador, uma vez que muitas crianças ainda não foram expostas a situações que representem maior desafio hemostático, como cirurgias ou traumas de maior impacto. Por esse motivo, uma anamnese detalhada, exame físico criterioso e, quando indicado, investigação laboratorial direcionada são fundamentais para uma avaliação adequada.

Na presença de dúvidas, a avaliação médica é sempre recomendada. O reconhecimento precoce de alterações da hemostasia permite orientação apropriada, definição de conduta e maior segurança para a criança e sua família.

Dra. Priscila Grizante

Dra. Priscila Grizante

Mestre em Pediatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Membro do comitê de Pediatria da Sociedade Brasileira de Hemostasia e Trombose (SBTH), Membro do comitê de Pediatria da Sociedade Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH). Especialista em Pediatria pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e em Hematologia Pediátrica pela Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH). Hematologista Pediátrica no Hospital Infantil Sabará e pesquisadora pelo Instituto Pensi.

#sangramento #sangramentos #primeiros socorros #emergência #pediatria #traumas