
Sobre obesidade e desnutrição
187 —O recente trabalho produzido pela Unicef, “Alimentando o lucro: como os ambientes alimentares estão falhando com as crianças”, contou com dados de mais de 190 países. O documento revelou que a prevalência de desnutrição entre crianças de 5 a 19 anos caiu desde 2000, de quase 13% para 9,2%. Por outro lado, as taxas de obesidade aumentaram de 3% para 9,4%.
Este estudo mostra que, pela primeira vez, o número de crianças obesas sobrepuja o de desnutridos. É notícia velha no nosso país.
Já há mais de 25 anos, sabemos que as taxas de crianças com desnutrição no Brasil estavam caindo, enquanto o número de crianças com excesso de peso e obesidade só crescia.
Para entender este fenômeno conhecido nos meios científicos como transição nutricional, precisamos entender que programas adequados de combate à fome, de acesso a recursos de saúde, campanhas de aleitamento e de vacinação, foram o marco determinante para a queda de crianças com baixo peso.
No entanto, o aumento de crianças com excesso de peso (que ocorre em todo o mundo), tem causas mais complexas que não envolvem apenas a alimentação. Uma série de fatores é associada a este aumento de peso.
A obesidade é uma doença genética e metabólica que é modificada de certa forma pelo estilo de vida que levamos (atividade física e alimentos que consumimos).
O sedentarismo, ou a falta de atividade física, é um dos fatores. A alimentação inadequada, com consumo de produtos não adequados à idade ou consumidos com frequência maior do que o recomendado, é outro aspecto importante. O estudo da Unicef condena a indústria de alimentos por fornecer alimentos não adequados ou de baixo valor nutricional. Apresenta também aspectos de que a indústria dificulta o desenvolvimento de leis e programas que poderiam melhorar a alimentação da criança. O que importa é que a culpa da obesidade não pode ser devida apenas por um fator.
Famílias que chamamos obesogênicas, ou que tem comportamento que favorece o excesso de peso, por terem hábitos alimentares inadequados ou por apresentarem maiores índices de sedentarismo, favorecem a ocorrência de crianças com excesso de peso.
Em um estudo realizado por um grupo de pesquisadores internacionais, o Instituto Pensi colaborou com o braço brasileiro deste projeto, que analisou adolescentes e adultos latino-americanos em amostras representativas de 8 países (o estudo ELANS).
Os adolescentes brasileiros de 15 a 19 anos apresentavam quase 80% de inatividade, medida por acelerômetro – estudo EBANS, ou estudo brasileiro de alimentação, nutrição e saúde. Mesmo não apresentando maior ingestão alimentar que outros países, os resultados mostraram mais de 40% destes adolescentes com excesso de peso.
Em crianças, estudos nacionais mostram que já temos mais de 30% dos menores de 10 anos com excesso de peso. O Observatório FIESP de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) na Infância reúne dados sobre a SAN de crianças de zero a 10 anos residentes no Estado de São Paulo. É uma plataforma com dados atualizados, organizados e integrados a partir de fontes públicas. Foi desenvolvido pelo CONSOCIAL – Conselho de Responsabilidade Social da Fiesp, com apoio técnico do Instituto Pensi, UNICEF Brasil e SindHosp.
Os dados deste observatório mostram que já temos mais de 27% de crianças com excesso de peso, quase 5% de crianças com obesidade, enquanto os dados de baixo peso estão ao redor de 3%.
Dados do SAN observados no site https://alimentarfuturo.fiesp.com.br/observatorio-painel.html dia 01 de outubro de 2025.
Está na hora de agirmos, de forma integrada, com apoio das autoridades de saúde e educação, municipais, estaduais e federais. Há necessidade de regulação da alimentação nas escolas e creches, programas para que a indústria reduza ainda mais a produção de produtos com quantidades inadequadas de sal, açúcar e gorduras trans. A educação deve se iniciar em casa, passando para o sistema escolar e o ambiente de forma geral. Os alimentos saudáveis devem ser apoiados em detrimento de uma alimentação com excesso de produtos inadequados. Escolas não são locais de venda e consumo de alimentos processados, mas não podem ser espaços onde alimentos caseiros ou sem controle possam ser utilizados, sem verificações de segurança.
O estudo NutriBrasil Infância, que realizamos em escolas públicas e privadas de todo o país, verificou que o lanche escolar matinal, com maior presença de frutas, era melhor que o do período da tarde, com maior frequência de salgados, embutidos e massas de má qualidade.
Rótulos de alimentos que sejam entendidos e facilmente utilizados pela população alvo e campanhas contínuas de incentivo ao aleitamento materno e à alimentação mais saudável devem ser ações feitas em conjunto com medidas que incrementem a atividade física, desde a casa.
Melhorias de segurança, calçadas adequadas, parques infantis, quadras na comunidade, quadras nas escolas e professores treinados têm de ser adotados para o incentivo à atividade física.
Portanto, para combater o aumento de excesso de peso, precisamos de medidas contínuas de educação e que sejam avaliadas a cada passo.
Saiba mais:

Dr. Mauro Fisberg
Pediatra e Nutrólogo (CRM 28119 RQE 3935 E 37146). Coordenador do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (CENDA) do Instituto PENSI. Professor Associado Doutor - Aposentado Sênior do Setor de Medicina do Adolescente - Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina (Unifesp). Membro do Corpo de Orientadores Pós-Graduação em Pediatria e Ciências Aplicadas a Pediatria (Unifesp).