
Somos o exemplo deles
8 —Todos os dias, as crianças seguem o exemplo dos adultos responsáveis. Para elas, o comportamento que veem é a definição do que é normal e certo
Muitos pais e mães já viveram uma cena, talvez sem perceber a sua dimensão. A criança, com três ou quatro anos, pega um telefone de brinquedo, coloca-o junto ao ouvido e fala com alguém imaginário. Fala com pressa, usa um tom levemente irritado, gesticula com a mão livre. De onde veio essa cena? Não veio da televisão, de um livro, de uma escola. Veio de casa. Veio de nós. Do nosso exemplo.
Essa pequena cena cotidiana contém uma verdade que a psicologia do desenvolvimento confirmou ao longo de décadas: as crianças aprendem, antes de tudo, por observação ou imitação. Segundo Jean Piaget, o desenvolvimento infantil é construído ativamente pela criança a partir de suas interações com o mundo, pela forma como ela o assimila ou a ele se acomoda. Isto é, como se adapta, em um contexto de trocas e referências. E o mundo mais imediato, mais presente, mais constante na vida de uma criança pequena, somos nós, os adultos com quem se relacionam diariamente — pais, mães, irmãos, avós, cuidadores.
Não se trata de uma influência ocasional. Trata-se de uma presença contínua, modeladora, que vai muito além das palavras que pronunciamos. A criança não aprende apenas o que ensinamos intencionalmente; ela aprende, sobretudo, com o nosso comportamento. E aprende pelo modo como imagina a situação, como a representa e lhe dá significado. Por esse meio, a criança aprende como tratamos o outro, como lidamos com as emoções, como reagimos à frustração, como expressamos a raiva, como nos consolamos, como nos relacionamos com o próprio corpo, com a comida, com o dinheiro, com o tempo, com o uso das telas. Somos, querendo ou não, um espelho permanente para elas.
Por isso, o comportamento dos adultos responsáveis é, para a criança pequena, a definição do que é normal, do que é certo. Ela ainda não tem critérios independentes para julgar. Ela interage com as pessoas e coisas do mundo de uma forma indiferenciada. Ainda não sabe diferenciar, considerar o contexto, relativizar. O que vê em casa é o mundo. E o que o mundo faz, ela aprenderá a fazer também.
O fato de ser assim traz-nos muita responsabilidade e, quem sabe, algum desconforto. Não somos perfeitos. Temos nossos momentos de impaciência, nossas respostas intempestivas, nossas formas nem sempre saudáveis de lidar com o estresse. O problema não está em sermos imperfeitos; o problema está em sermos imperfeitos diante deles sem refletirmos sobre isso.
Consideremos, por exemplo, a violência ou o abuso (verbal, físico, sexual). Consideremos a violência física, a violência cotidiana: os gritos, as ameaças, a porta batida com força, o palavrão solto, o comentário cruel sobre outra pessoa, o olhar de desprezo dirigido ao parceiro durante uma discussão, as expressões de nojo, repulsa, menosprezo. Para nós, adultos, esses episódios podem parecer banais — válvulas de escape, momentos passageiros, situações que "não foram para valer". Para a criança que observa, porém, esses momentos são aulas. Aulas sobre como se comportar quando se está com raiva. Aulas sobre como se relacionar com quem se ama. Aulas que ficarão registradas muito mais fundo do que qualquer sermão que venhamos a dar depois.
Albert Bandura, psicólogo norte-americano, demonstrou nos anos 1960 aquilo que hoje nos parece óbvio, mas que à época era revolucionário: crianças que assistem a comportamentos agressivos tendem a reproduzi-los. Não porque sejam violentas por natureza, mas porque aprendem que aquela é uma forma legítima de agir. A aprendizagem por observação — o que Bandura chamou de modelagem — é um dos mecanismos mais poderosos do desenvolvimento humano. E ela não tem botão de desligar.
Pensemos, agora, no lado contrário: esse mesmo mecanismo que pode nos preocupar é também uma grande fonte de possibilidades. Se a criança aprende o que observa, então cada gesto generoso nosso também é ensinado. Cada vez que pedimos desculpas depois de um erro, estamos mostrando que reconhecer falhas é um sinal de força, não de fraqueza. Cada vez que cuidamos de alguém com ternura, estamos ensinando o que é o cuidado. Cada vez que lemos, que nos emocionamos com uma história, que curiosamente nos debruçamos sobre uma questão difícil, estamos plantando sementes.
Os filhos não precisam de pais perfeitos. Precisam de pais presentes e honestos. Honestos consigo mesmos e, quando possível e adequado à idade, honestos também com as crianças. "Errei, me descontrolei, estou tentando melhorar" — essa frase, dita com sinceridade, vale mais do que qualquer discurso sobre virtude. Ela mostra que os adultos também aprendem, que a vida é um processo, que errar é humano e o que importa é o que se faz depois do erro.
Há uma dimensão coletiva nessa responsabilidade que não devemos ignorar. Somos exemplos não apenas em casa, mas também nos espaços públicos onde as crianças nos acompanham: na fila do supermercado, na rua, no trânsito, nas redes sociais que elas eventualmente já acessam. O que fazemos quando achamos que ninguém está olhando — ou quando supomos que a criança "ainda é muito pequena para entender" — também compõe o repertório que ela está silenciosamente construindo.
"Faça o que eu digo, não faça o que eu faço" é talvez o enunciado mais ingênuo que existe. As crianças aprendem exatamente o contrário: fazem o que veem, o que as sensibiliza, não apenas o que ouvem. Se dizemos a elas que mentir é errado e elas nos ouvem mentir ao telefone para nos livrar de um compromisso chato, qual das duas mensagens ficará? A verbal, cuidadosamente elaborada? Ou a vivida, concreta, encarnada?
Isso não significa que devemos nos paralisar diante de cada gesto, como se estivéssemos sendo filmados permanentemente. Essa vigilância excessiva seria exaustiva e, paradoxalmente, também transmitida — ensinando às crianças a ansiedade e a autovigilância como modos de habitar o mundo. O que se pede é algo mais simples e mais profundo: reflexão. Uma disposição genuína de perguntar, de vez em quando, o que estamos ensinando com as nossas ações.
Vale a pena se perguntar ou reconhecer. Quando reajo com violência às frustrações, o que estou dizendo a meu filho sobre como lidar com o que não deu certo? Quando faço pouco das pessoas ao meu redor, o que estou ensinando sobre como se olha para o outro? Quando cuido do meu próprio corpo, descanso, estabeleço limites saudáveis, estou mostrando que a saúde importa e que se cuidar não é egoísmo.
Ser exemplo não é uma missão grandiosa que se cumpre em momentos solenes. É algo que acontece nos detalhes mais corriqueiros do dia a dia — na forma de dizer bom-dia, na paciência ou impaciência com a demora, na maneira de receber uma notícia ruim, na qualidade do silêncio que se guarda quando a situação pede serenidade. São nesses pequenos instantes que a criança está, de olhos bem abertos, aprendendo o que é ser gente.
Os filhos são, em grande parte, o que nós — adultos responsáveis por eles — lhes mostramos ser possível. Essa é uma responsabilidade que pesa, sim. Mas é também um convite. Um convite a nos tornarmos, para eles, a versão de nós mesmos que gostaríamos que eles fossem.
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Dr. Lino de Macedo
Professor Emérito pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Foi Presidente da Academia Paulista de Psicologia e integra a Cátedra de Educação Básica do IEA (USP). Professor Senior do Departamento de Ciências Sociais do Instituto Pensi.