
“Tecnoferência”, um desafio para o convívio familiar
114 —A “tecnoferência” é uma nova forma de convivência entre as pessoas que vivem em uma mesma casa, em especial os pais e os filhos. É esse comportamento que verificaram Brandon T. McDaniel e Sarah M. Coyne no artigo “'Technoference': The Interference of Technology in Couple Relationships and Implications for Women's Personal and Relational Well-being” ("Tecnoferência": A Interferência da Tecnologia em Relacionamentos de Casais e Implicações para o Bem-Estar Pessoal e Relacional das Mulheres”) publicado em 2016, na revista científica Psychology of Popular Media Culture. Segundo eles, interações face a face, tão importantes para a comunicação e a vida social, ficam prejudicadas, isto é, interrompidas ou substituídas pelo uso do celular, tablet ou computador, quando, em casa, as pessoas estão “juntas” umas com as outras.
Para os autores, há três prejuízos principais: 1) na qualidade e quantidade das relações entre pais e filhos, 2) idem, nos relacionamentos do casal, e 3) na coparentalidade (menos cooperação dos pais no cuidado dos filhos). Em outros termos, os pais, em casa, prestam mais atenção nos celulares do que nos filhos.
Brandon T. McDaniel criou escalas de medição para o estudo da tecnoferência. Uma delas é a “Technology Device Interference Scale” (“Escala de Interferência de Dispositivos de Tecnologia”). Por intermédio dela, o autor verificou a frequência de interrupção dos dispositivos eletrônicos no cotidiano da casa. Por exemplo, com que frequência um adulto interrompe a conversa para verificar o celular? As pessoas utilizam este dispositivo durante as refeições? Como uma pessoa se sente ao verificar que o outro está mais focado no dispositivo do que na conversa?
Com este tipo de pergunta, o autor verifica o quanto as interrupções afetam a satisfação com o relacionamento, os níveis de conflito e o bem-estar geral do casal.
Em 2017, a socióloga e psicanalista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Sherry Turkle publicou o livro “Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other” (Juntos Sozinhos: Por Que Esperamos Mais da Tecnologia e Menos Uns dos Outros). Sua ideia principal é que a tecnologia digital nos conecta a uma rede de muitas pessoas e informações. Ao mesmo tempo, e paradoxalmente, essa tecnologia pode nos isolar uns dos outros, mesmo que presentes num mesmo mundo físico. É o que pode acontecer no interior das casas. Os membros familiares estão lá, mas cada qual atento ao seu celular e indiferente ao outro que está à sua volta. Quando é assim, estamos trocando a convivência real pela ilusão que nos vincula às redes sociais e às informações incessantes que os eventos do mundo estão a nos comunicar.
Sendo assim, criamos a ilusão da companhia, pois estamos juntos e, ao mesmo tempo, grudados nas telas. Interagimos com os que estão próximos apenas superficialmente. Esta situação nos afasta da consideração da perspectiva do outro, ou seja, da relação empática, tão fundamental nos contatos humanos. A resultante é um “estar presente, mas ausente”, pois imerso nas atenções provocadas pelo mundo digital.
Consideremos, agora, uma pesquisa realizada no Brasil pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br).
Pelos dados apresentados nos gráficos, desde cedo, as crianças estão interagindo cada vez mais com os aparelhos eletrônicos. Esse fato contraria o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que limitam o uso de telas por crianças pequenas.
É importante lembrarmos o quanto a observação do comportamento dos adultos, que são referência para as crianças, afeta o comportamento delas. Elas os imitam da forma como conseguem, imaginam que o que fazem é significativo e que vale a pena ser copiado. Se os pais passam tanto tempo grudados no celular ou no computador, aquela atitude deve ser muito importante para eles, pensam.
Atenção: não estamos aqui a defender uma “tecnofobia”. A cultura digital veio para ficar e será cada vez mais nosso modo de vida. O desafio é aprender a regular o seu uso. Tomar consciência do que estamos ganhando ou perdendo com isso. É recuperar o equilíbrio, não esquecer o valor de outras formas de comunicação entre as pessoas. Daí a importância de se criar zonas ou momentos livres de tecnologia. De garantir espaços e momentos em que convivemos sem a mediação dela. O momento das refeições, por exemplo, é precioso como experiência disso. A hora de dormir também é outra. Vale a pena definir horários para verificar mensagens. Desativar notificações. Ter em conta que o modo como o adulto disciplina o uso do celular ou do computador é uma referência importante para seus filhos.
É bom conversar com eles sobre esse assunto. Fazer combinados. Aprender a se beneficiar com os novos recursos possibilitados pela cultura digital e, ao mesmo tempo, se proteger dos usos que nos fazem mal e são má influência para as pessoas a quem tanto queremos. São novos desafios adaptativos que estamos enfrentando.
Leia também: Consequências das crianças buscando a companhia de Inteligência Artificial

Dr. Lino de Macedo
Professor Emérito pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Foi Presidente da Academia Paulista de Psicologia e integra a Cátedra de Educação Básica do IEA (USP). Professor Senior do Departamento de Ciências Sociais do Instituto Pensi.