Telessaúde pode levar o teste da linguinha aonde o fonoaudiólogo não chega
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Telessaúde pode levar o teste da linguinha aonde o fonoaudiólogo não chega

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Estudo orientado pelo neonatologista Alan Araújo Vieira e conduzido pelas estudantes Flávia Nunes Benicio de Souza e Ana Cristina do Nascimento Morais, segundo lugar na categoria Estudantes do 5º Prêmio Pensi, mostra que vídeos captados na maternidade permitem identificar até 89 % dos casos de anquiloglossia em recém‑nascidos, aliviando a carência de especialistas fora dos grandes centros. Na imagem, Flávia, em Columbus, Ohio, onde passou um mês de intercâmbio após conquistar o prêmio. Foto: Arquivo pessoal

A anquiloglossia — popularmente chamada de língua presa — pode transformar o primeiro contato do recém‑nascido com o peito materno em uma disputa exaustiva. O frênulo encurtado limita a projeção da língua; o bebê perde vácuo, cansa cedo, a mãe sente dor e, não raro, desiste da amamentação nos primeiros dias. Para evitar esse desfecho, o Brasil incluiu o chamado teste da linguinha entre os exames neonatais obrigatórios. Na prática, porém, a promessa esbarra na falta de pessoal treinado.

“No Brasil, o teste da linguinha se tornou obrigatório por lei, no entanto, a formação de profissionais capacitados para a realização de tal teste não supre as necessidades do país, talvez apenas com profissionais em quantidade suficiente em grandes centros”, admite o neonatologista Alan Araújo Vieira, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Em visitas de campo, a equipe do professor encontrou maternidades que nunca aplicaram o protocolo, mesmo em cidades de porte médio. Foi diante desse vácuo que a fonoaudióloga Ana Cristina do Nascimento Morais, mestranda orientada por Vieira, ousou perguntar: e se o exame pudesse viajar em vez do especialista?

Do berçário à  tela

Entre setembro de 2021 e setembro de 2022, Ana Cristina filmou 165 recém‑nascidos a termo ainda nas primeiras 48 horas de vida. O procedimento exigia apenas um smartphone com boa câmera e conexão estável. Cada bebê passou por dois exames: o padrão‑ouro presencial, realizado no próprio berçário pela pesquisadora, e uma avaliação remota. Para esta segunda etapa, as imagens foram enviadas a dois profissionais experientes na aplicação dos protocolos para tal diagnóstico, que aplicaram, sem qualquer treinamento específico para analisar as imagens enviadas, os protocolos consagrados pelo Ministério da Saúde — o Bristol Tongue Assessment Tool e o TABBY. O desenho do estudo, segundo Vieira, buscava entender se imagens captadas à distância permitiriam um diagnóstico com alta sensibilidade. As gravações mostravam a fixação do frênulo lingual, elevação e protrusão da língua em poucos segundos, com imagens suficientes para a aplicação do protocolo. Dados de peso, idade e condição clínica completavam o conjunto analisado.

Os resultados animaram até os céticos. No exame presencial, a prevalência de anquiloglossia foi de 14,28 %. A leitura dos vídeos à distância registrou 12,38 % pelo avaliador externo 1 e 10,47 % de casos pelo avaliador externo 2. O ponto decisivo é a capacidade de identificar quem realmente tem o problema. A sensibilidade — proporção de verdadeiros positivos captados — alcançou 89,61 % com o avaliador 1 e 87,06 % com o avaliador 2. A especificidade, que mede a habilidade de descartar falsos positivos, foi de 64,08 % e 85,23 %, dependendo do observador. A concordância entre os avaliadores independentes apresentou Kappa de  0,48, classificada como moderada, enquanto a concordância do mesmo profissional consigo mesmo, em momentos distintos, chegou a 0,66, patamar considerado forte.

Para um teste que depende do olhar atento a um filete de mucosa em filmagem rápida, os índices surpreenderam a equipe. “O nosso artigo, de 2022 (ROP screening with the Pictor Plus camera: a telemedicine solution for developing countries), mostra que é possível que as imagens coletadas à distância possam ser avaliadas por profissionais com capacidade para fazer o diagnóstico e ter um nível de sensibilidade e especificidade altos”, comenta Vieira.

Do benefício imediato ao sistema público

A lógica de fluxo é simples. Se o vídeo revela frênulo dentro da normalidade, a família sai do hospital ou da unidade de saúde sem qualquer compromisso de retorno. Quando a imagem desperta dúvida ou aponta língua presa, a equipe avalia a amamentação e oferece todas as orientações pertinentes  necessárias, e encaminha para avaliação presencial. O balanço preliminar, baseado nos 165 casos, indica que metade dos deslocamentos em busca de confirmação se tornaria desnecessária. “Essa primeira triagem por telessaúde diminuiria, no mínimo, a necessidade de deslocamento do binômio mãe‑bebê em 50 %. Só isso já justificaria o investimento”, destaca o professor. O “investimento”, no caso, resume-se ao que já parece ubíquo até em regiões remotas: um smartphone e sinal de internet. Para o Sistema Único de Saúde, ainda às voltas com metas de aleitamento materno exclusivo e carência de profissionais, a proposta oferece um atalho viável: transportar o exame, não o especialista.

Nem tudo foi celebração imediata. O artigo científico, submetido a duas revistas britânicas de telehealth, recebeu recusas idênticas: o problema, alegaram os pareceristas, seria “pouco relevante no cenário internacional”. Vieira reagiu reenviando o manuscrito a uma revista da Fiocruz, cuja linha editorial dialoga diretamente com a realidade do SUS; os pesquisadores ainda aguardam o parecer da revista (até o fechamento desta reportagem). Paralelamente, a equipe desenha a segunda fase da investigação. O primeiro passo será oferecer treinamento estruturado aos avaliadores externos e medir se a sensibilidade aumenta. O segundo, será replicar o protocolo em maternidades de menor porte, para testar a robustez da ferramenta em condições menos controladas. Por fim, uma parceria com a Faculdade de Ciências Tecnológicas da UFF pretende alimentar um algoritmo de aprendizado de máquina com milhares de quadros rotulados manualmente. O objetivo, aqui, não é substituir o especialista, mas acelerar a triagem: o software apontaria de forma preliminar se o frênulo parece normal, limítrofe ou patológico, sempre com supervisão humana. “A medicina está mudando muito rapidamente e a inserção de novas tecnologias não só é desejável como extremamente necessária”, afirma Vieira, convencido de que a pesquisa clínica terá de caminhar ao lado do código de programação.

”Há pouco tempo nós fizemos uma outra pesquisa que foi publicada na revista da Academia Americana de Oftalmologia Pediátrica e teve uma repercussão muito boa”, recorda o professor, citando o trabalho  de 2022, no qual ele e equipe mostraram que a câmera Pictor Plus permite rastrear retinopatia da prematuridade à distância em países de renda média e baixa.

Equidade digital a um clique de distância

O Prêmio Pensi, focado em soluções infantis de impacto, viu na proposta um modelo realista: baixo custo, metodologia clara e resultado mensurável. Caso as etapas de validação se confirmem, hospitais que hoje falham em cumprir a lei poderiam oferecer triagem robusta em tempo recorde, tornando raros os casos em que a língua presa vence a batalha contra o aleitamento. A tecnologia não dispensa o acompanhamento cuidadoso da amamentação ou, quando necessário, a mão que corta o frênulo, mas ajuda a decidir a quem e quando ela se dirige. E enquanto acelera esse processo, devolve a mães e bebês o sossego de começar a vida fora do útero sem a sombra de uma dificuldade evitável.

Se a distância é o principal obstáculo, a tela pode ser a ponte — curta o bastante para caber na palma da mão e potente o suficiente para sustentar uma política pública que vem tendo dificuldades para ser plenamente aplicada desde o dia em que foi decretada.


Vieira, Alan Araújo; Souza, Flavia Nunes Benicio de; Morais, Ana Cristina do Nascimento; "O USO DA TELESSAÚDE PARA TRIAGEM DE ANQUILOGLOSSIA NO PERÍODO NEONATAL.", p. 26-27 . In: Anais do 7º Congresso Internacional Sabará-Pensi de Saúde Infantil. São Paulo: Blucher, 2024.


Por Rede Galápagos

Comunicação PENSI

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