
Vamos falar sobre o insuportável de ser dito? O abuso sexual de crianças e adolescentes
32 —Precisamos, como sociedade, trazer o tema do abuso sexual infantil à tona
O abuso sexual infantil é um tema muito difícil de ser falado e também de ser lido, mas, ainda assim, temos a obrigação de tocar nessa problemática.
Infelizmente, ainda hoje há um número imenso de crianças e jovens que sofrem esse tipo de crime e, em sua grande maioria, dentro de ambientes teoricamente seguros para si.
Os dados do Instituto Liberta deixam isso claro: 61,3% das vítimas são menores de 13 anos. 75% dos casos de estupro são contra crianças e adolescentes e, ainda, 76,5% dos casos acontecem dentro das próprias famílias.
O que isso quer dizer?
Primeiro, que a violência sexual vem do adulto que deveria ser a figura de cuidado. A confusão para a criança é imensa.
Como podemos auxiliar o sujeito a discernir o que é amor e o que é violência?
No filme A Cronologia das Águas [1], que teve sua estreia nos cinemas no dia 2 de abril de 2026, temos a oportunidade de ver marcados elementos fundamentais dessa problemática terrível.
O filme retrata a vida de Lídia, uma menina violentada sexualmente pelo próprio pai e que busca, ao longo de sua vida, dar conta de decifrar, compreender, se desvencilhar e elaborar o traumático dessa experiência.
A insuportabilidade do tema atravessa a película. Passamos mal ao acompanhar a jovem tentando dar conta de decifrar o que ocorreu com ela. Confusão interna, mal-estar e cisões são as formas como ela tenta lidar com o impossível: a decifração do que é violência e do que é amor.
Como dar conta de estar diante dessa figura paterna, ao mesmo tempo amorosa e horrorosa?
O abusador não é um monstro que vive na floresta. Ele, muitas vezes, é uma pessoa aparentemente legal, divertida, que ocupa lugares seguros no laço familiar.
Por isso, a confusão é tão grande dentro do aparato psíquico.
Não estamos diante do lobo mau; estamos diante de um sujeito comum, banal, ordinário, que, na surdina e no segredo, viola a intimidade de uma criança — geralmente com pedidos de cumplicidade e silêncio.
Crianças sofrem sem compreender do que sofrem.
A sexualidade de um adulto é violenta e invasiva para uma criança.
Precisamos, como sociedade, trazer esse tema à tona. Permitir que as crianças saibam reconhecer o mal que sofrem, sem falsas hipocrisias.
Nós, profissionais da saúde e do cuidado com a infância e a adolescência, temos a obrigação de nos manifestar contra esse horror não dito.
Para mais informações sobre o tema, acesse o site do Instituto Liberta:
liberta.org.br
[1] Um filme de origem: Estados Unidos, com direção de Kristen Stewart, lançado em 2025 no EUA. Apresentado no Brasil por Filmes da Estação.

Gabriela Malzyner
É psicóloga, psicanalista e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Coordenadora e docente do Núcleo de Infância e Adolescência do CEP e consultora do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares do Instituto PENSI.