
Gerson, o domador de leões
228 —Era uma vez um menino que não tinha nada. Não tinha mãe, não tinha pai, não tinha irmãos, mas tinha um sonho; ser domador de leões. Na verdade, tinha mãe, quatro irmãos, e sabe lá onde estava o pai. A mãe era esquizofrênica, como a avó. Os irmãos foram adotados, mas ninguém quis o Gerson, era meio esquisito, queria ser domador de leões, na Paraíba?!
Gerson tinha apenas 10 anos quando foi detido pela polícia rodoviária e levado para os órgãos competentes, onde foi feito o diagnóstico de distúrbio mental. De lá para cá, teve 16 intercorrências com a polícia, inclusive uma quando tentou ir para a África, conhecer seus amados leões, pendurado num trem de pouso de um avião.
Num domingo, então com 19 anos, Gerson saiu de casa disposto a domar a leoa Leona. Foi ao zoológico, entrou em sua jaula e lá encontrou finalmente o sossego. Leona o matou.
Segundo o diretor do presídio onde Gerson ficou, Edmilson Alves, o rapaz foi encaminhado para o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) por decisão judicial, mas fugiu de lá. “Era uma situação muito delicada.”
Já a conselheira tutelar Verônica Oliveira relembra, ainda, as dificuldades que ele tinha no ambiente familiar. “Eu conheci a criança destituída do poder familiar da mãe, impedida de ser adotada como os outros quatro irmãos. Ele só queria voltar a ser filho da sua mãe, que é esquizofrênica e não tinha condições de cuidado. Sua avó também com transtornos mentais. Mas a sociedade, sem conhecer sua história, preferiu jogá-lo na jaula dos leões”.
A Prefeitura de João Pessoa lamentou a morte de Gerson em nota, e disse que o caso está sob investigação. O Parque Arruda Câmara está fechado desde a ocorrência, e assim continuará até a conclusão das investigações, e a leoa Leona não será sacrificada. “Em nenhum momento foi considerada a possibilidade de eutanásia. A Leona está saudável e nunca ofereceu perigo”.
Realmente a menos culpada da história toda é a Leona. Culpados somos nós, uma sociedade que não sabe cuidar de suas crianças e permite que uma criança com uma doença psiquiátrica, desamparada, fique sem atendimento médico, de serviço social, totalmente abandonada e tratada como bandida.
Tudo acontece porque não temos uma assistência social e uma assistência de saúde mental adequada. A rede de saúde básica não está preparada para atender a saúde mental e os conselhos tutelares não são capacitados para lidar com situações extremas.
O acompanhamento de crianças no CAPS deve ser individualizado, com o envolvimento da família e de uma equipe multiprofissional, através de um Plano Terapêutico Singular (PTS), construído a partir da escuta da criança e de sua rede de apoio. O acompanhamento inclui diversas atividades, como atendimentos individuais, grupos terapêuticos, oficinas lúdicas, atividades de lazer e, quando necessário, o acompanhamento de outros serviços da rede de saúde e assistência social.
Num mundo ideal, o atendimento do CAPS seria assim:
I- Acolhimento inicial
1. Acolhimento e escuta: a criança (preferencialmente acompanhada por um responsável, conforme orienta a Secretaria de Saúde do Distrito Federal) é recebida sem agendamento prévio, para uma escuta inicial que identifica suas necessidades.
2. Avaliação biopsicossocial: a equipe avalia o contexto biopsicossocial da criança, considerando fatores de risco e proteção que influenciam sua saúde mental.
3. Construção do plano: a partir da avaliação, é elaborado o Plano Terapêutico Singular (PTS), que detalha os objetivos e as estratégias de cuidado.
II- Acompanhamento contínuo
1. Atendimentos e atividades: o acompanhamento se baseia em atendimentos individuais, grupos terapêuticos e atividades coletivas, que podem incluir oficinas de arte, música, caminhada, culinária, entre outras.
2. Trabalho em equipe: a equipe multiprofissional trabalha de forma integrada e compartilhada, garantindo a continuidade e a qualidade do cuidado.
3. Envolvimento da família: o trabalho com a família é essencial, ajudando a lidar com tensões e a construir um ambiente de cuidado mais positivo.
4. Atividades lúdicas: para crianças, o foco é no brincar e na interação, utilizando o lúdico como ferramenta terapêutica e de desenvolvimento.
5. Protagonismo da criança: a criança e o adolescente são sujeitos ativos no seu tratamento, sendo incentivados a participar das decisões sobre seu plano terapêutico.
III- Redirecionamento e alta
1. Articulação em rede: se necessário, o CAPS articula o cuidado com outros serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), como a Atenção Básica à Saúde (UBS), para complementar o tratamento.
2. Encaminhamento corresponsável: a responsabilidade do encaminhamento é compartilhada, com o acompanhamento do caso até a sua inclusão em outro serviço, garantindo que a transição seja suave.
3. Critério de alta: a alta é planejada e realizada quando o usuário atinge os objetivos do PTS, com o apoio da rede de serviços para a manutenção do bem-estar.
Infelizmente, estamos muito longe disso em qualquer lugar do Brasil, e com as questões sobre Saúde Mental aumentando, casos como o do Gerson serão cada vez mais comuns. Precisamos nos movimentar como sociedade e exigir dos nossos governantes providências mais sérias e urgentes em relação a isso. Em 2026, teremos eleições, será uma oportunidade de ouvi-los, pelo menos para que façam promessas, que sabemos que não irão cumprir.
Nós fazemos nosso papel, eles precisam fazer o deles.
Fontes:
Esquizofrenia e desejo de domar leões na África
Centros de Atenção Psicossocial
Atenção psicossocial a crianças e adolescentes no SUS
Saiba mais:
A importância da saúde mental nas escolas: dicas para pais, cuidadores e educadores
Atendimento de saúde mental nas emergências pediátricas
Infância e emoções: um alerta sobre o bem-estar de nossas crianças e adolescentes
Dr. José Luiz Setúbal
(CRM-SP 42.740) Médico Pediatra formado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com especialização na Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduação em Gestão na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Pai de Bia, Gá e Olavo. Avô de Tomás, David e Benjamim.