
Ácido folínico e autismo: o que a ciência já sabe sobre essa possível terapia
3621 —O ácido folínico é uma forma ativa da vitamina B9 (folato). Diferente do ácido fólico comum, o folínico já está “pronto” para ser usado pelas células, participando de processos fundamentais como a síntese de DNA, o funcionamento adequado do sistema nervoso e a produção de neurotransmissores. Ele atua como uma ponte entre o metabolismo dos folatos e a metilação, um mecanismo essencial para regular a expressão gênica e a comunicação entre neurônios.
A ideia de usar o ácido folínico no autismo nasceu da observação de que algumas crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresentavam alterações no transporte de folato para o cérebro, mesmo com níveis normais dessa vitamina no sangue. Em muitos desses casos, identificaram-se autoanticorpos contra o receptor de folato alfa (FRAA). Essas proteínas do sistema imune (os autoanticorpos) bloqueiam a passagem do folato do sangue para o sistema nervoso central, levando à chamada deficiência cerebral de folato.
Pesquisadores, liderados principalmente pelo grupo do Dr. Richard Frye, começaram a investigar se a suplementação com ácido folínico, que atravessa de forma mais eficiente a barreira hematoencefálica, poderia corrigir essa deficiência e melhorar sintomas relacionados ao autismo, em especial os ligados à linguagem e à comunicação.
O estudo mais influente, publicado em 2016 no Molecular Psychiatry, foi um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, que avaliou 48 crianças com TEA e atraso de linguagem. O grupo que recebeu ácido folínico por 12 semanas apresentou melhoras significativas na comunicação verbal, especialmente entre aquelas com anticorpos FRAA positivos. Outros trabalhos e revisões subsequentes reforçaram esse achado, sugerindo que o ácido folínico pode beneficiar um subgrupo específico de crianças autistas, particularmente as que possuem deficiência cerebral de folato ou marcadores imunológicos relacionados. Ainda assim, os autores ressaltam que não se trata de uma cura, mas de uma possível abordagem complementar.
Apesar dos resultados animadores, é importante ter cautela. Os estudos até agora contaram com amostras pequenas, períodos de tratamento curtos e poucos grupos independentes reproduzindo os achados. Além disso, não se sabe se os efeitos observados são duradouros ou se dependem de características genéticas e metabólicas específicas. Outro ponto crítico é que o teste para detectar os autoanticorpos do receptor de folato ainda não está amplamente disponível, o que dificulta selecionar com precisão os pacientes que mais poderiam se beneficiar. Também há dúvidas sobre a dose ideal, a segurança do uso prolongado e o impacto real sobre diferentes domínios do desenvolvimento.
Referências:
https://doi.org/10.1016/j.spen.2020.100835
https://doi.org/10.1038/mp.2016.168
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Dr. Ricardo Watanabe
Ricardo Alexandre Sato Watanabe (CRM 162870 / RQE 678271). Formado pela Universidade Federal de São Paulo, atua como Neuropediatra no Instituto PENSI e Hospital Infantil Sabará.