As crenças da criança hospitalizada, na perspectiva de Piaget
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As crenças da criança hospitalizada, na perspectiva de Piaget

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O brincar no hospital revela as crenças que a criança já tem sobre os procedimentos que irá vivenciar e abre caminhos para formar novas percepções

O que uma criança pensa quando vê a agulha se aproximar? O que ela sente quando é levada para dentro de uma máquina de ressonância magnética, sozinha? Essas reações, por mais que pareçam espontâneas, não nascem do nada — elas são organizadas por crenças. E é justamente sobre a natureza dessas crenças que Jean Piaget, no seu método clínico, nos oferece uma distinção preciosa, capaz de iluminar o trabalho de quem cuida de crianças em contexto de saúde.

Piaget identificou três tipos de crença. A primeira é a crença induzida — aquela que vem de fora para dentro, implantada no sujeito por um agente externo: a propaganda, a mídia social, o comentário de um adulto, a fala de outra criança. Não é uma crença que o sujeito constrói; é uma crença que lhe é oferecida e que ele acaba por absorver.

A segunda é a crença desencadeada. Aqui o mecanismo é mais sutil e, por isso mesmo, mais interessante. Existe, no sujeito, algo já preparado, uma disposição latente, pronta para emergir — mas essa disposição precisa de um gatilho externo para se manifestar. O estímulo não cria a crença do nada; ele a desperta, ele a libera. Daí o nome: desencadeada é aquilo que estava acorrentado, à espera do fator que o solte.

A terceira, enfim, é a crença espontânea. Ao contrário das duas anteriores, ela nasce de dentro para fora. É a crença que a criança constrói por conta própria, que ela pratica, em que ela acredita e que ela supõe verdadeira, sem que um agente externo a tenha implantado ou desencadeado.

Convém não tomar, porém, essas três formas como categorias estanques, como se cada crença nascesse já classificada e permanecesse fixa em sua origem. Na prática, elas se entrecruzam, e o mais instigante é observar como uma pode se converter na outra. Uma crença que nasceu induzida — implantada de fora, por um comentário, por uma imagem, por uma fala de terceiros — pode, ao ser repetidamente praticada em situações que a desencadeiam, ir se tornando cada vez mais própria, até que a criança passe a senti-la como espontânea, como algo que nasceu dela mesma e que lhe pertence. Há, portanto, um percurso possível: da indução à repetição desencadeada, e desta à apropriação espontânea. Compreender esse percurso é tão importante quanto distinguir as três formas entre si, pois é ele que permite perguntar, diante de uma criança: será que aquilo que ela expressa é, de fato, um pensamento seu, fruto de uma elaboração própria? Ou será que ela apenas repete, com suas próprias palavras, uma crença importada de fora, sem que tenha havido reflexão ou assimilação genuína?

Por que essa distinção — e essa integração — importam tanto? Porque hoje sabemos, com respaldo de uma vasta literatura, que aquilo que fazemos, sentimos e pensamos está longe de ser uma resposta direta e mecânica a um estímulo. Entre o estímulo e a resposta há sempre uma mediação — e essa mediação é feita de crenças, valores, atitudes, modos de compreender e de imaginar o mundo. O comportamento, em suma, não é uma reação ao estímulo puro; é uma reação ao sentido que a crença atribui a esse estímulo, e esse sentido carrega, muitas vezes, a marca de sua própria história: induzido, desencadeado, apropriado.

A crença no contexto hospitalar

Essa compreensão ganha um peso particular quando pensamos no profissional de saúde diante da criança hospitalizada. Observar o comportamento não basta. É preciso perguntar: que crença está por trás dessa reação, e qual é o seu percurso? A criança que se debate diante da coleta de sangue, será que está reagindo à dor ou à crença de que aquilo vai lhe fazer muito mal — crença que talvez tenha nascido induzida por um comentário mal colocado, foi depois desencadeada por situações semelhantes e hoje já se apresenta como algo que a própria criança sente como seu, como uma certeza pessoal e não mais como um eco de outra voz? A criança que se apavora diante do túnel da ressonância, o que ela acredita que vai acontecer ali dentro, e de onde veio essa crença?

E é aqui que o brincar se revela um recurso precioso. No brincar, e sobretudo no brincar de faz de conta, a criança expressa aquilo em que acredita, aquilo que teme, aquilo que deseja compreender — e o faz de um modo que, justamente por parecer espontâneo, corre o risco de ser lido como se sempre tivesse sido espontâneo. Ao encenar a situação médica com bonecos, com uma seringa de brinquedo, com um médico imaginário, a criança não está apenas se distraindo — ela está revelando, e ao mesmo tempo elaborando, a crença que organiza sua experiência da doença e do tratamento. Para o profissional de saúde atento, essa cena lúdica é uma janela dupla: nela se lê não só o tipo de crença que a criança projetou, encarnou, encenou no brinquedo, mas também, com um pouco mais de escuta, os indícios de sua origem — se aquilo que ela repete são palavras de um adulto, se é uma reação a um episódio específico que a marcou, ou se é já uma elaboração verdadeiramente sua.

É precisamente nesse ponto que o Programa Child Life, praticado no Sabará Hospital Infantil, oferece uma contribuição especial. Por meio do brincar preparatório, por exemplo, o especialista em Child Life não apenas observa as crenças que a criança tem sobre os procedimentos que vai receber — identificando se são induzidas, desencadeadas ou espontâneas, e acompanhando como uma se transforma na outra —, mas também se vale desse mesmo brincar para oferecer à criança uma oportunidade de compreender o que está por vir. Ao brincar antecipadamente com os materiais e as etapas de um procedimento, a criança deixa de ser mera destinatária de crenças alheias e passa a construir, ela própria, uma compreensão mais realista e menos ameaçadora daquilo que vai enfrentar. O brincar, nesse sentido, cumpre uma função dupla e, ao mesmo tempo, articulada: revela a crença que já existe, com a história que a formou, e abre caminho para que uma nova crença — nascida agora de uma experiência antecipada e compreendida — venha a se tornar, com o tempo, verdadeiramente espontânea.

Reconhecer essas três formas de crença, portanto, não é um exercício de classificação distante da prática clínica. É, ao contrário, uma ferramenta indispensável para quem deseja compreender — e não apenas controlar — o comportamento da criança hospitalizada: compreender não só o que ela crê, mas o caminho pelo qual essa crença chegou a ser sua.

Dr. Lino de Macedo

Dr. Lino de Macedo

Professor Emérito pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Foi Presidente da Academia Paulista de Psicologia e integra a Cátedra de Educação Básica do IEA (USP). Professor Senior do Departamento de Ciências Sociais do Instituto Pensi.

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