De quem é a brincadeira? O que Piaget tem a nos dizer sobre telas e brinquedos
Blog Saúde Infantil

De quem é a brincadeira? O que Piaget tem a nos dizer sobre telas e brinquedos

0

É importante garantir tempo e espaço suficientes para a brincadeira em que é a própria criança quem manda, decide e cria

Duas crianças, duas cenas de igual entusiasmo. Numa sala, um menino transforma uma caixa de papelão em nave espacial — ele decide o destino, os personagens, o perigo, o final. Na sala ao lado, uma menina joga em um tablet um aplicativo educativo: toca a tela, escolhe entre personagens, avança de fase, é recompensada a cada acerto. As duas crianças estão brincando? Sim. Mas será que estão fazendo a mesma coisa, do ponto de vista do que suas mentes estão construindo? A teoria de Jean Piaget nos ajuda a responder que não — e a diferença não é sutil.

O que Piaget chamava de "brincar"

Para Piaget, todo comportamento inteligente resulta do equilíbrio entre dois processos complementares: assimilação e acomodação. Assimilar é incorporar o mundo aos esquemas que já temos — dobrar a realidade às nossas próprias estruturas. Acomodar é o inverso: ajustar nossos esquemas às exigências que o mundo nos impõe. Aprender a andar de bicicleta, por exemplo, exige que o corpo se acomode ao equilíbrio físico do objeto; já brincar de ser um super-herói exige o oposto — que a criança dobre a realidade ao seu enredo, sem se preocupar em ajustar-se a nada externo.

Foi o próprio Piaget quem definiu o brincar, tecnicamente, como a atividade em que predomina a assimilação sobre a acomodação. Isso não significa que a acomodação desapareça — a criança ainda precisa lidar com as propriedades físicas dos objetos com que brinca —, mas o brincar genuíno é aquele em que é a criança quem decide, organiza e comanda a experiência.

Quando é a criança quem manda: o brinquedo tradicional

Volte à cena da caixa de papelão. O menino não está seguindo um roteiro: ele o inventa, item por item, segundo suas próprias necessidades emocionais e cognitivas do momento. É esse domínio assimilativo — a criança impondo sua lógica ao mundo, e não o contrário — que Piaget considerava fundamental para o desenvolvimento: é brincando desse jeito que a criança processa experiências, testa papéis, resolve simbolicamente conflitos que na vida real ainda não sabe resolver.

Quando é a tela quem manda: o brincar digital

Agora volte à menina com o tablet. Ela também escolhe — entre personagens, entre fases, entre caminhos dentro de um menu. Mas o tema já está definido, os personagens já têm nome e história, o tempo de cada fase já foi calculado por um designer, e as regras do jogo não são negociáveis: ela pode se adaptar a elas, não modificá-las. Em termos piagetianos, o predomínio, aqui, tende a ser da acomodação: é a criança quem se ajusta ao mundo que a tela lhe oferece, e não o mundo que se ajusta a ela.

Uma ressalva necessária: o que importa não é o suporte 

É importante fazer uma ressalva, para não simplificarmos demais. O que desloca o equilíbrio entre assimilação e acomodação não é a tela em si, mas o grau de estrutura que a atividade impõe. Existem jogos digitais mais abertos — de construção livre, por exemplo — em que a criança ainda decide bastante coisa, preservando espaço assimilativo mesmo na tela. E existe brincar "tradicional" tão dirigido por um adulto ansioso para ensinar algo que a criança mal tem chance de decidir qualquer coisa — nesse caso, é o brinquedo físico que se torna predominantemente acomodativo. O critério que importa, portanto, não é o suporte — tela ou objeto —, mas quem, de fato, está no comando da brincadeira.

Por que essa diferença importa

Por que ela merece nossa atenção? Porque é justamente na experiência assimilativa — quando a criança comanda, decide, inventa — que ela constrói, ativamente, suas próprias estruturas de pensamento, sua autonomia, sua capacidade de significar o mundo à sua maneira. Uma infância feita só de experiências acomodativas — mesmo agradáveis, mesmo educativas — priva a criança de um exercício insubstituível: o de ser autora, e não apenas usuária, de sua própria experiência.

Isso não significa banir telas nem demonizar jogos digitais — seria simplista e, convenhamos, pouco realista no mundo em que vivemos. Significa, sim, reconhecer que cabe aos adultos que cuidam e educam crianças pequenas — pais, professores, cuidadores — uma responsabilidade concreta: garantir, na rotina da criança, tempo e espaço suficientes para o brincar assimilativo, aquele em que é ela quem manda, decide e cria, sem que um roteiro externo decida por ela.

A responsabilidade dos adultos: mediar e mobilizar a brincadeira

Na prática, essa responsabilidade se exerce de duas formas. Às vezes, como mediador — entrando na brincadeira, aceitando o convite da criança para dentro do seu enredo. Às vezes, como mobilizador — organizando o tempo, o espaço e os materiais para que o brincar assimilativo aconteça, mesmo sem a presença direta do adulto na cena. As duas posturas, juntas, sustentam aquilo que talvez seja um dos recursos mais valiosos da infância: o direito de a criança, ao menos parte do tempo, mandar na própria brincadeira.

Uma pergunta para levar para casa

Volte, uma última vez, às duas cenas do início. Não se trata de dizer qual criança está "brincando melhor" — as duas estão engajadas, as duas estão aprendendo algo. Trata-se de perguntar, como adultos responsáveis por elas: quanto de cada experiência, ao longo do dia, ao longo da semana, estamos garantindo a cada uma? É essa pergunta — não uma proibição, não um veredito — que vale a pena levarmos para casa, para o hospital ou para a sala de aula.

Dr. Lino de Macedo

Dr. Lino de Macedo

Professor Emérito pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Foi Presidente da Academia Paulista de Psicologia e integra a Cátedra de Educação Básica do IEA (USP). Professor Senior do Departamento de Ciências Sociais do Instituto Pensi.

#brincar #brincadeira #Desenvolvimento Infantil #telas