Ajudando as crianças a prosperarem em um mundo digital
Blog Saúde Infantil

Ajudando as crianças a prosperarem em um mundo digital

61

A Assembleia Nacional da França aprovou no final de janeiro o projeto de lei que proíbe o acesso às redes sociais por menores de 15 anos e veta o uso de celulares nas escolas. Essa é uma notícia que leremos com uma frequência cada vez maior nos jornais. A Austrália já fez a mesma coisa, o Brasil também proíbe o celular nas escolas e a União Europeia e vários estados americanos estudam limitar o acesso de menores de 16 anos às redes sociais.

Os receios em relação às crianças e as telas existem desde a década de 1950, quando a televisão surgiu como uma nova e empolgante forma de passar o tempo. Cansei de ouvir meus avós e depois, com a evolução das telas, meus pais e amigos dizerem para as crianças que aquilo iria derreter os cérebros.

Mas o mundo digital de hoje é muito mais complexo. Não se trata apenas de "tempo de tela". A mídia digital está em toda parte — celulares, tablets, TVs, aplicativos, jogos e até ferramentas de inteligência artificial estão integradas à vida familiar. É um ecossistema digital completo que molda a forma como as crianças aprendem, brincam e se conectam.

Telas e dispositivos conectados podem oferecer benefícios importantes para os jovens, incluindo oportunidades educacionais, sociais e criativas. No entanto, muitas plataformas são projetadas para manter os usuários engajados pelo maior tempo possível e influenciar seu comportamento. Recursos como reprodução automática, rolagem infinita e anúncios direcionados não são desenvolvidos pensando no bem-estar das crianças. Esses "designs baseados em engajamento" competem pela atenção e podem prejudicar o sono, as brincadeiras e o tempo em família. De alguma forma, eles favorecem à adicção.

Como pediatra, reconheço os aspectos positivos, mas continuo preocupado com a forma como a mídia digital afeta o desenvolvimento, a saúde, a segurança e o bem-estar das crianças. 

As preocupações com as redes sociais, o bullying online e o tempo excessivo gasto em frente às telas ainda persistem. Mas há um novo entendimento de que o mundo digital é maior do que essas questões. Todos nós — incluindo as crianças — passamos tempo em um ecossistema digital que inclui:

  • TV e filmes
  • Mídias sociais
  • Jogos online
  • Assistentes digitais
  • Smartphones
  • Aplicativos e ferramentas digitais
  • Inteligência artificial (IA)
  • Podcasts e programas online

Nossos empregadores, escolas, times esportivos, grupos comunitários e muitos outros exigem que acessemos a internet diversas vezes ao dia. Fazemos parte do ecossistema digital, e é por isso que navegar nele com segurança é tão importante — principalmente para as crianças.

 

E quais são os perigos específicos para as crianças?

As mídias digitais se tornaram uma forma de pessoas e empresas obterem lucro. Devido ao modelo de negócios que impulsiona as empresas, há mais incentivo para:

  1. Manter as crianças entretidas com as telas por mais tempo com algoritmos que entendem e moldam os desejos das crianças, rolagem infinita e recompensas que as mantêm jogando.
  2. Coletar mais dados e informações das crianças com conteúdo curto e atraente que permita descobrir rapidamente suas preferências.
  3. Incentivá-las a comprar e experimentar produtos interessantes.
  4. Uso do marketing para se tornar mais popular, mais atraente ou mais bem-sucedido.

 

Sob essa perspectiva, não é difícil entender por que os aplicativos recompensariam as crianças apenas por fazerem login — ou por que algoritmos seriam projetados para mantê-las navegando por horas a fio.

Os pais veem os malefícios diretamente quando as crianças não conseguem dormir, não conseguem se concentrar ou não conseguem se afastar das telas. Mas, para compreender plenamente os riscos, é útil observar o que revelam os estudos sociais e científicos.

 

Primeira infância (0-5 anos)

Bebês com menos de 18 meses aprendem melhor por meio de interações no mundo real. O uso excessivo de telas sozinhos pode afetar o desenvolvimento da linguagem e das habilidades sociais, por exemplo. Os resultados dependem de quantas horas por dia as crianças passam em mídias digitais e de como os adultos usam as telas para acalmá-las ou entretê-las. Mas o uso indevido de mídias digitais pode causar:

  • Atrasos no desenvolvimento da linguagem, do pensamento, das habilidades sociais e da motricidade fina
  • Sono não saudável
  • Menos tempo dedicado ao aprendizado com seus entes queridos, à leitura, à movimentação e à exploração — tudo isso necessário para um crescimento saudável
  • Mais explosões de raiva
  • Menos oportunidades para desenvolver paciência e autocontrole.

 

Crianças em idade escolar (6 a 12 anos)

Neste grupo, o uso indevido de mídias digitais foi associado a:

  • Sono não saudável
  • Desempenho escolar inferior
  • Controle de atenção mais fraco
  • Dificuldade com a linguagem e a cognição (pensamento)
  • Visão debilitada em crianças que já apresentam problemas de visão
  • Falta de exercícios saudáveis
  • Menos tempo gasto com amigos e familiares
  • Exposição a alimentos ricos em calorias
  • Maior risco de ganho de peso e problemas de saúde relacionados, como doenças cardíacas.

 

Adolescentes (13-18 anos)

Os efeitos variam e mais estudos são necessários, mas os adolescentes podem sofrer efeitos nocivos de algoritmos ou recursos de design digital que incentivam o uso compulsivo. Esses algoritmos e designs também podem expô-los a conteúdo inadequado que promove automutilação ou distúrbios alimentares, por exemplo.

Os efeitos negativos podem incluir:

  • Perda de sono
  • Pressão negativa dos colegas
  • Menos exercícios e movimentos saudáveis
  • Menos tempo com a família, amigos e comunidade.

 

Esses resultados podem levar a dificuldades escolares, depressão e ansiedade. Adolescentes que passam horas e horas online também enfrentam sérios riscos de assédio sexual, ataques racistas e discurso de ódio baseado em religião, classe social, aparência, tamanho do corpo e muito mais.

 

Como podemos proteger nossos filhos dos perigos digitais?

Nem sempre é fácil para as famílias estabelecerem limites saudáveis ​​para o uso de mídias digitais e isso não é apenas uma questão parental. Muitas famílias enfrentam grandes desafios, como longas jornadas de trabalho, falta de creches ou poucos lugares seguros para as crianças brincarem. Essas pressões tornam mais difícil evitar as telas. É por isso que as soluções precisam ir além das escolhas individuais.

Proteger as crianças online não é algo que os pais possam fazer sozinhos. Criar um mundo digital mais saudável exige trabalho em equipe. Famílias, profissionais de saúde, educadores, empresas de tecnologia e legisladores têm um papel a desempenhar na construção de um ecossistema digital que priorize o bem-estar das crianças.

Os profissionais de saúde devem assumir um papel ativo na triagem de sintomas de saúde digital, oferecendo apoio à criança e à família e tratamento sempre que necessário.

Os líderes políticos devem aprovar leis que especifiquem as responsabilidades das empresas de tecnologia, mídia e conteúdo na proteção da saúde infantil.

Os fabricantes de dispositivos, plataformas e sistemas digitais devem adotar um design centrado na criança, que previna danos a crianças e adolescentes. Isso é semelhante aos padrões de segurança aplicados a cadeirinhas de carro, trampolins, bicicletas e inúmeros outros produtos usados ​​por crianças.

Educadores, desde a pré-escola até o ensino superior, podem servir de modelo para o uso saudável da tecnologia digital. Portais online seguros e salas de aula virtuais podem indicar experiências digitais positivas que expandem e enriquecem a vida das crianças.

Confira estas sugestões para iniciar uma conversa, elaboradas pelo Centro de Excelência em Mídias Sociais e Juventude da AAP:

Crie um Plano de Mídia Familiar, defina limites em relação à mídia digital que se adaptem à rotina e aos valores da sua família.

Conversem frequentemente. Discutam anúncios, influenciadores e privacidade. Ajudem as crianças a identificar estratégias de marketing e a manter informações pessoais em segurança.

Procure conteúdo de qualidade que priorize as crianças. Histórias que exemplificam habilidades socioemocionais, auxiliam em matérias escolares como leitura e matemática e incentivam o brincar livre são todas benéficas.

Assista e brinque junto com seus filhos. Essa é a melhor maneira de saber o que eles estão consumindo e como estão reagindo. Ter um tablet compartilhado pela família, em vez de tablets separados para cada um, pode incentivar a interação entre os dois.

Adie o uso de tablets pessoais. Dispositivos compartilhados incentivam o uso conjunto e facilitam o monitoramento do conteúdo.

Pense bem antes de dar o primeiro celular para as crianças. Os estudos não apontam uma idade específica que seja segura, mas considere a compreensão que seu filho tem do mundo digital. 

Seja um exemplo de hábitos digitais saudáveis. As crianças observam o que fazemos. Guarde o seu celular durante as refeições e na hora de dormir. As crianças copiam o que veem. 

Use o controle parental. Monitorar os hábitos digitais da família pode ajudar a estabelecer limites que mantenham o equilíbrio para todos. Combinado com o seu Plano de Mídia Familiar, isso torna a saúde digital um objetivo compartilhado.

 

Fontes:

 

Saiba mais:

Dr. José Luiz Setúbal

Dr. José Luiz Setúbal

(CRM-SP 42.740) Médico Pediatra formado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com especialização na Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduação em Gestão na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Pai de Bia, Gá e Olavo. Avô de Tomás, David e Benjamim.

#mídias digitais #redes sociais #mídia digital #telas