
Aspiração de corpo estranho em crianças: um alerta para os pais e cuidadores
4 —Conheça quais são os sintomas da aspiração de corpo estranho e o que fazer se acontecer
O engasgo é uma situação comum em crianças e, às vezes, pode resultar em tosse persistente e súbita, falta de ar e até risco de vida. Por isso, é importante entender a diferença entre ingestão e aspiração de corpo estranho, reconhecer os sintomas e adotar medidas de prevenção.
Aspiração ou ingestão: qual a diferença?
Aspiração de CE (corpo estranho) é quando o corpo estranho passa pela primeira barreira das vias aéreas e segue pela traqueia, brônquios e pulmões. Cerca de 60% dos corpos estranhos que entram nas vias aéreas se alojam no pulmão direito, podendo causar pneumonia.
Ingestão de CE (corpo estranho) é quando o objeto segue pelo esôfago, estômago e intestinos, podendo até ser eliminado espontaneamente.
Tanto na ingestão quanto na aspiração de corpo estranho, é importante haver avaliação médica especializada, pois cada situação exige condutas bem diferentes.
Em que idade o risco é maior?
Cerca de 80% dos casos ocorrem em crianças com menos de 3 anos, com pico entre 1 e 2 anos, especialmente quando começam a andar e a explorar o ambiente ao seu redor. Nessa fase, elas conseguem pegar pequenos objetos e levá-los à boca, mas ainda não mastigam de forma efetiva, podendo aspirar ou ingerir alguns alimentos e até pequenos objetos.
Os pais também precisam ficar atentos quando irmãos mais velhos brincam de dar comida na boca do bebê.
Que tipo de alimentos ou objetos causam mais engasgos nas crianças?
Alimentos como pipoca, amendoim, milho e feijão estão entre os mais comuns, assim como pedaços de brinquedos, brinquedos sem certificação de qualidade para a faixa etária, enfeites, miçangas etc.
Em crianças maiores, objetos como tampinhas de caneta, clipes, moedas, baterias, brincos e balas também representam risco.
Alguns objetos necessitam de atenção especial, pois estão relacionados a maior chance de obstrução total das vias aéreas, como bolinhas, brinquedos com superfícies arredondadas e lisas e balões, que podem ser difíceis de retirar e causar asfixia e morte.
Suspeitas de aspiração ou ingestão de baterias e pilhas, em geral, exigem retirada imediata devido à ação corrosiva que esses objetos exercem.
Objetos pontiagudos, como alfinetes e grampos, podem causar perfurações nos tecidos ao redor.
Mas quando suspeitar de aspiração de corpo estranho?
Deve-se suspeitar de aspiração de corpo estranho em crianças menores de 3 anos, previamente hígidas, que apresentam crise de tosse súbita, falta de ar e desconforto para respirar, mas que depois se acalmam e parecem bem. Às vezes, elas estavam comendo ou brincando sozinhas ou com outras crianças.
Também é importante suspeitar quando a criança, dias após um episódio de engasgo aparentemente resolvido, passa a apresentar tosse recorrente, febre e cansaço.
Outra situação de alerta é quando crianças , após um episódio de engasgo, recebem diagnóstico de pneumonia, iniciam o tratamento correto, mas não melhoram como seria esperado.
Quais são as consequências da aspiração de corpo estranho?
A complicação aguda mais grave é a asfixia, causada pela obstrução total das vias aéreas. Nesses casos, manobras de desengasgo e ressuscitação devem ser empregadas imediatamente.
Porém, na aspiração de corpo estranho, a história de engasgo às vezes pode passar despercebida ou ser minimizada, porque a criança apresenta uma crise de tosse súbita em cerca de 90% dos casos e, depois que ela passa, o desconforto respiratório diminui, levando os pais a acreditarem que o problema foi resolvido.
Isso leva à procura por atendimento médico tardiamente, muitas vezes apenas quando a criança começa a apresentar febre, tosse recorrente e falta de ar, decorrentes de inflamação e infecção pulmonar, resultando em pneumonia e até necrose pulmonar.
É possível retirar o CE do pulmão?
A retirada do corpo estranho das vias aéreas exige maior cuidado e é mais complexa, dependendo do tipo de objeto, da localização e do tempo em que ele permanece alojado.
Somente 10% dos corpos estranhos são radiopacos, ou seja, aparecem no raio X. Um raio X normal não exclui o diagnóstico de aspiração de corpo estranho no início do quadro.
Materiais orgânicos, como alimentos, não são visualizados no raio X simples, o que dificulta o diagnóstico e exige, além da avaliação clínica, outros exames complementares. Depois de algum tempo, podem causar inflamação e infecção local e até se desfazer, tornando sua retirada impossível.
Já pequenos objetos inorgânicos, como brinquedos, causam menos inflamação e devem ser retirados com segurança por meio de um procedimento chamado broncoscopia, realizado em serviços de saúde especializados, como o Sabará Hospital Infantil.
Dicas para a prevenção da aspiração de CE em pediatria
É fundamental ter atenção nos momentos das refeições das crianças, especialmente das menores de 3 anos.
- Procure um local calmo e evite oferecer comida à criança quando ela estiver brincando, correndo ou fazendo outra atividade.
- Procure evitar oferecer alimentos como pipoca, milho, amendoim e outras castanhas, além de alimentos cortados em pedaços muito pequenos, passíveis de causar engasgo e aspiração.
- Ofereça um pedaço de comida de cada vez.
- Evite brinquedos com peças pequenas, bolinhas e balões, e mantenha atenção aos brinquedos dos irmãos mais velhos.
Na suspeita de aspiração de CE, procure ajuda especializada com seu pediatra.
Bibliografia:
- National Safety Council Injury Facts. Home and Community Overview: Introduction. Disponível em: https://injuryfacts.nsc.org/home-and-community/home-and-community-overview/introduction/ (acessado em 22 maio 2026).
- Foreign Body Aspiration. In: Caring for the Hospitalized Child: A Handbook of Inpatient Pediatrics. AAP. Disponível em: https://publications.aap.org/aapbooks (acessado em 20 maio 2026).
- Chapin MM et al. Nonfatal Choking on Food Among Children 14 Years or Younger in the United States, 2001-2009. Pediatrics. 2013;132(2):275-281.

Dra. Heloisa Ionemoto
Formada em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Fez Residência Médica em Pediatria no Instituto da Criança na Faculdade de Medicina da USP. Tem Mestrado em Medicina pela Universidade de São Paulo. Possui Título de Especialista em Terapia Intensiva Pediátrica. Fez MBA em Gestão em Saúde pelo IBMEC-Insper. Atualmente é gerente médica da Educação Continuada do Instituto Pensi.