
Calçado infantil: como escolher o certo
6 —O calçado certo protege o pé da criança sem atrapalhar o seu desenvolvimento natural. Ele não “corrige” o pé nem molda o arco: sua função é proteger, dar estabilidade e permitir que a criança ande, corra e brinque com segurança.
O pé infantil cresce rápido, é mais macio e ainda está formando seus ossos. Um sapato apertado, frouxo ou instável pode causar bolhas, unhas encravadas, dor, quedas e cansaço nas pernas. Por isso, vale saber o que observar na hora da compra.
Um lembrete importante: o pé plano (“pé chato”) é normal nos primeiros anos de vida, e sapatos ortopédicos ou botinhas não são necessários para a maioria das crianças. Na maior parte dos casos, um bom calçado comum é tudo de que a criança precisa.
Anatomia do calçado: conheça cada parte
Antes de comprar, vale conhecer as partes do calçado. Cada uma tem uma função na proteção e na estabilidade do pé.

Por dentro, o calçado é formado por camadas que se encaixam:

Parte | Função |
|---|---|
Cabedal | Parte de cima que envolve o pé; deve ser macio e respirável |
Língua e colarinho | Acolchoados, protegem o peito do pé e o tornozelo do atrito |
Fechamento | Velcro, cadarço (inclusive elástico) ou fivela que prendem o pé no lugar |
Biqueira | Reforço na ponta que protege os dedos de batidas |
Contraforte | Peça firme escondida no calcanhar que dá estabilidade |
Palmilha | Forro interno macio sobre o qual o pé se apoia |
Entressola | Espuma que amortece o impacto do calcanhar à ponta |
Solado | Borracha em contato com o chão, com ranhuras antiderrapantes |
As características de um bom calçado infantil
Um bom calçado infantil reúne quatro pontos principais: tamanho certo, amortecimento em toda a sola, contraforte firme e solado antiderrapante. Os demais itens completam o conforto e a segurança.
1. Tamanho adequado
Deixe uma folga de cerca de 1 cm (a largura do polegar de um adulto) entre o dedo mais longo e a ponta do calçado.
A frente deve ser larga e alta o suficiente para os dedos se mexerem sem ficarem espremidos. Prefira bico arredondado ou quadrado, nunca fino.
Não compre muito maior “para durar mais”: o pé escorrega dentro do sapato, a criança tropeça e surgem bolhas.
2. Amortecimento em toda a sola
A entressola (camada entre a palmilha e o solado) deve amortecer do calcanhar à ponta, não só no calcanhar.
Ela absorve o impacto de pular e correr e protege contra pedras e superfícies irregulares.
Amortecimento não é sinal de sola “mole demais”: a sola deve ser macia ao pisar, mas firme o bastante para não deformar.
3. Contraforte reforçado
O contraforte é a peça rígida que envolve o calcanhar, por dentro da parte de trás do calçado.
Ele mantém o calcanhar no lugar e dá estabilidade ao tornozelo.
Teste: aperte a parte de trás com o polegar. Ela deve resistir e voltar ao formato, sem amassar.
4. Solado antiderrapante
O solado deve ser de borracha, com ranhuras ou desenhos que dêem aderência.
Solas lisas, de couro ou plástico duro, aumentam o risco de escorregões e quedas.
Prefira salto baixo: no máximo 2 cm para menores de 5 anos.
Outros pontos importantes
Item | O que procurar |
|---|---|
Flexibilidade | Dobra na altura dos dedos (onde o pé dobra), mas não no meio da sola |
Estabilidade | Ao torcer o calçado como um pano, ele resiste e quase não gira |
Fechamento | Cadarço, velcro ou fivela, que prendem o pé; evite modelos sem fecho |
Material | Couro ou tecido respirável, que deixa o pé ventilar |
Peso | Leve, para não cansar as pernas |
Interior | Sem costuras ou rebarbas que machuquem |
Como medir e testar o calçado na loja
Leve a criança junto e faça o teste com os dois pés calçados, de preferência no fim do dia, quando os pés estão um pouco mais inchados.
Meça os dois pés em pé, com a meia que a criança costuma usar. Se forem diferentes, escolha pelo maior.
Teste do polegar: com a criança em pé, aperte a ponta do calçado. Deve sobrar cerca de 1 cm à frente do dedo mais longo.
Teste da palmilha: se a palmilha sair, coloque o pé da criança sobre ela. Deve sobrar a mesma folga na frente e o pé não pode ultrapassar as laterais.
Teste do contraforte: aperte a parte de trás com o polegar. Ela deve ser firme e voltar ao formato.
Teste da dobra: dobre o calçado. Ele deve dobrar na altura dos dedos, e não no meio.
Teste da torção: segure pela frente e por trás e torça. Deve resistir.
Faça a criança andar e correr pela loja. O calcanhar não pode sair e ela não deve mancar nem reclamar.

O calçado infantil deve ser confortável desde o primeiro uso. Não existe “sapato que laceia” no pé de criança.
Com que frequência verificar o tamanho
Idade | Verificar o tamanho a cada |
|---|---|
Até 3 anos | 2 a 3 meses |
3 a 6 anos | 4 meses |
Acima de 6 anos | 4 a 6 meses |
Uso correto e erros comuns
Deixe a criança andar descalça em casa e em superfícies seguras, como grama e areia. Isso fortalece a musculatura dos pés.
Bebês que ainda não andam não precisam de sapato: meias ou sapatinhos macios para aquecer são suficientes.
Não use calçado herdado de irmãos ou primos. O sapato usado já se moldou ao pé de outra criança e o contraforte e a sola costumam estar gastos.
Abra o fecho para calçar e descalçar. Pisar na parte de trás amassa o contraforte e ele perde a função.
Use meias do tamanho certo, de algodão, sem costuras grossas.
Chinelos, sandálias sem tira no calcanhar e sapatilhas servem para momentos curtos, mas não para a escola, passeios longos ou esportes.
Troque o calçado quando ficar pequeno, quando a sola estiver lisa ou quando o contraforte amassar, mesmo que ainda pareça novo.
Quando procurar o ortopedista
Dor nos pés, nos tornozelos ou nas pernas que se repete ou atrapalha as brincadeiras.
Quedas frequentes, tropeções ou um jeito diferente de andar.
Calçado que gasta muito mais de um lado do que do outro.
Pé plano rígido, doloroso ou que só aparece em um dos pés.
Calos, feridas ou unhas encravadas que se repetem.
Na dúvida, leve o calçado que a criança mais usa à consulta. O desgaste da sola ajuda o médico a entender como ela pisa.

Wilson Lino Junior
Médico ortopedista e ortopedista pediátrico, formado pela Santa Casa de São Paulo, com ampla experiência no diagnóstico e tratamento de doenças ortopédicas em crianças e adolescentes. É mestre em Ortopedia e Traumatologia, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Ortopedia Pediátrica. Atua há anos em hospitais de referência, unindo conhecimento técnico, cuidado humanizado e excelência médica.