
Como observar a autoestima da criança
50 —Uma autoestima infantil fragilizada compromete a aprendizagem, a capacidade de enfrentar desafios, a construção de vínculos e o bem-estar psicológico ao longo da vida.
Mas como saber se uma criança está desenvolvendo autoestima saudável ou se está em sofrimento? Alguns indicadores são particularmente relevantes:
Reação a erros e desafios: Como a criança responde quando comete um erro ou enfrenta uma dificuldade? Persiste ou desiste imediatamente? Pede ajuda de modo adequado ou se fecha? Aceita o erro como parte natural do aprendizado ou se desorganiza emocionalmente?
Verbalizações sobre si mesma: Preste atenção a frases de autodesvalorização: "Não sei nada", "Sou burro", "Ninguém gosta de mim", "Sou doente demais para fazer isso". Estas frases revelam crenças negativas que a criança está construindo sobre si mesma.
Expressão de satisfação: A criança demonstra prazer diante de conquistas? Mostra orgulho quando domina uma habilidade? Ou suas realizações passam despercebidas até por ela mesma?
Sinais de sofrimento psíquico: Isolamento social, agressividade frequente, choro excessivo, regressão comportamental (voltar a fazer xixi na cama, falar como bebê), autolesão, queixas somáticas frequentes (dores de cabeça, barriga) sem causa médica identificável – todos estes podem ser sinais de que a autoestima está comprometida.
A voz da própria criança
Além de observar, precisamos criar oportunidades para que a própria criança expresse seus sentimentos. Perguntas abertas e genuinamente interessadas podem abrir portas importantes:
"O que você acha que faz bem?" permite à criança identificar suas forças.
"O que é mais difícil para você na escola (ou no hospital)?" ajuda a identificar fontes de sofrimento.
"Como você se sente quando está na escola, no hospital, em casa?" oferece à criança espaço para nomear e compartilhar suas emoções.
É importante fazer estas perguntas em momentos de tranquilidade, não apenas em crises, e genuinamente ouvir as respostas sem julgamento ou pressa para resolver tudo imediatamente.
Conhecendo o contexto: redes de apoio e circunstâncias
Para compreender verdadeiramente a situação de autoestima de uma criança, precisamos conhecer seu contexto mais amplo:
Composição familiar: Com quem a criança mora? Quem são as principais figuras de apoio emocional? Existem relações conflituosas ou instáveis que podem estar afetando a criança?
Rotina: Como é o dia a dia da criança? Há equilíbrio entre escola, tratamentos (se aplicável), lazer, responsabilidades? Há tempo para brincar e para ser simplesmente criança?
Eventos significativos recentes: A criança passou por situações desafiadoras como mudança de casa, separação dos pais, luto, conflitos familiares intensos, dificuldades financeiras significativas? Estas experiências têm impacto profundo na autoestima.
Recursos disponíveis: A família tem tempo, acesso a serviços de apoio, transporte, rede social? A ausência destes recursos pode tornar muito mais difícil o apoio à construção da autoestima.
Identificando forças: uma abordagem baseada em potenciais
Tão importante quanto identificar dificuldades é mapear as forças da criança. Quais são suas habilidades? Criatividade, empatia, liderança, capacidades esportivas, habilidades manuais, artísticas ou tecnológicas? Quais são seus interesses marcantes? Que temas, atividades, jogos, esportes, músicas ou conteúdos digitais a fascinam? Em que situações ela se mostra mais motivada e confiante?
Estas informações não são mero conhecimento geral – são recursos concretos para intervenções que fortaleçam a autoestima. Quando conectamos aprendizagens ou desafios com as forças e interesses da criança, multiplicamos as chances de experiências bem-sucedidas.
O investimento mais importante
A construção da autoestima infantil não é tarefa simples nem rápida. Exige presença, sensibilidade, conhecimento e, sobretudo, compromisso genuíno com o bem-estar da criança. As crenças que uma criança desenvolve sobre si mesma nos primeiros anos de vida – crenças apoiadas em suas experiências e nos julgamentos dos adultos significativos – a acompanharão por toda a vida, influenciando suas escolhas, relacionamentos e possibilidades de realização.
Como pais, educadores e profissionais de saúde, temos a responsabilidade e o privilégio de contribuir para esta construção. Cada interação importa: um olhar encorajador, uma palavra de reconhecimento, uma escuta genuína, uma oportunidade de autonomia, um desafio adequado às possibilidades da criança. São nestes momentos cotidianos, aparentemente pequenos, que se constrói ou se destrói a autoestima.
Especialmente quando trabalhamos com crianças que enfrentam desafios significativos – seja por estarem hospitalizadas, por terem dificuldades de aprendizagem, ou por viverem em contextos de vulnerabilidade – nosso compromisso com o fortalecimento da autoestima torna-se ainda mais crucial. Estas crianças precisam de nós para não apenas sobreviverem às suas dificuldades, mas para desenvolverem um senso robusto de competência, pertencimento e valor pessoal que as sustente ao longo da vida.
O convite que fica é para um olhar mais atento, uma escuta mais profunda, uma presença mais genuína. Nossas crianças merecem crescer acreditando em seu valor, em sua capacidade, em seu direito de ocupar lugar no mundo. E nós, adultos, somos os primeiros e mais importantes construtores desta crença fundamental.
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Dr. Lino de Macedo
Professor Emérito pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Foi Presidente da Academia Paulista de Psicologia e integra a Cátedra de Educação Básica do IEA (USP). Professor Senior do Departamento de Ciências Sociais do Instituto Pensi.