
Por que a autoestima infantil merece nossa atenção?
176 —Quando observamos uma criança enfrentando um desafio – seja amarrar o próprio sapato, resolver um problema matemático ou aproximar-se de um grupo de colegas – estamos diante de um momento crucial para sua autoestima. Como ela reagirá? Com confiança ou hesitação? Com perseverança ou desistência? O que determina essas diferentes posturas diante das dificuldades da vida?
A resposta a essas questões está profundamente conectada ao modo como a criança constrói sua autoestima, ou seja, o valor que ela atribui a si mesma. E aqui reside uma responsabilidade fundamental de pais e educadores: nos primeiros anos de vida, somos nós, adultos, os principais arquitetos dessa construção.
Compreendendo a autoestima: mais que simples confiança
Antes de avançarmos nas práticas, precisamos compreender o conceito em sua complexidade. Estima refere-se ao valor ou mérito que atribuímos a objetos, lugares, animais e pessoas. Apoia-se na crença de que eles são bons, queridos e precisam ser amados, protegidos, admirados, imitados. A autoestima, por sua vez, refere-se ao valor que atribuímos a nós mesmos. Trata-se, portanto, de uma crença subjetiva que envolve aspectos cognitivos e afetivos – isto é, o que pensamos e sentimos em relação a nós mesmos.
Mas aqui encontramos uma particularidade essencial da infância: crianças pequenas, com menos de seis anos, não possuem recursos cognitivos e afetivos suficientes para construírem, de modo autônomo, sua própria autoestima. Por quê? Do ponto de vista cognitivo, elas ainda não sabem julgar e valorizar, positiva ou negativamente, o que fazem ou pensam. Do ponto de vista afetivo, dependem fundamentalmente do que sentem e do que julgam as pessoas em quem confiam – principalmente seus pais e educadores.
O egocentrismo infantil e a indissociação entre ação e valor pessoal
Segundo a teoria de Jean Piaget, nos primeiros anos de vida – particularmente nos estádios sensório-motor (0 a 2 anos) e pré-operatório (2 a 6 anos) – a criança vive em um estado que o autor denominou "egocentrismo". Este conceito não tem conotação moral negativa; refere-se à impossibilidade cognitiva da criança de diferenciar e integrar seu ponto de vista do ponto de vista dos outros.
Esta característica do pensamento infantil tem uma implicação profunda para a construção da autoestima: a criança pequena não consegue separar sua ação do julgamento sobre essa ação, nem diferenciar esse julgamento de seu valor como pessoa. Em outras palavras, se um adulto critica duramente uma ação da criança, ela não interpreta como "fiz algo errado", mas sim como "sou errada", "sou má", "não sou amada".
Nós, adultos, podemos compreender que uma pessoa boa às vezes pratica ações inadequadas sem que isso a transforme em uma "má pessoa". Crianças pequenas ainda não possuem essa capacidade de diferenciação. Para elas, há uma equivalência entre fazer algo que os adultos desaprovam e ser alguém não-amado, incompetente, culpado. Daí a imensa responsabilidade que recai sobre nossos julgamentos e comentários cotidianos.
Os alicerces da autoestima: confiança, autonomia e iniciativa
Erik Erikson, psicanalista que estudou o desenvolvimento psicossocial, identificou três conquistas fundamentais para a primeira infância: a confiança básica (0-18 meses), a autonomia (18 meses-3 anos) e a iniciativa (3-6 anos). Estes sentimentos formam a base do que mais tarde se consolidará como autoestima propriamente dita.
A confiança básica constrói-se quando o bebê experimenta que suas necessidades são atendidas de modo consistente e amoroso. A autonomia desenvolve-se quando a criança percebe que pode fazer coisas por si mesma – vestir-se, comer, explorar – com o apoio encorajador dos adultos. A iniciativa manifesta-se quando a criança se sente livre para propor atividades, fazer perguntas, criar brincadeiras, sem medo excessivo de reprovação.
Estes sentimentos positivos opõem-se, segundo Erikson, aos de desconfiança, vergonha, dúvida e culpa. Quando predominam as experiências negativas – críticas constantes, comparações desfavoráveis, falta de reconhecimento, impaciência dos adultos – a criança pode desenvolver crenças profundas de inadequação que a acompanharão por muito tempo.
O temperamento como variável: introversão e extroversão
Precisamos, ainda, considerar um fator de ordem genética que influencia os processos de construção da autoestima: o temperamento. A psicóloga Stefanie Stahl, em seus estudos sobre autoestima (recomendo especialmente seus livros "Como fortalecer sua autoestima" e "Acolhendo sua criança interior"), destaca a importância de compreendermos as características de introversão e extroversão.
Pessoas extrovertidas geralmente são sociáveis, falantes, enérgicas, corajosas e audaciosas. Tendem a ser mais alegres e otimistas, buscando apoio social ativamente quando enfrentam problemas. Esta estratégia de buscar ajuda e falar sobre suas questões beneficia a autoestima, pois amplia as possibilidades de feedback positivo e suporte.
Pessoas introvertidas caracterizam-se como quietas, reflexivas e cuidadosas. Tendem a resolver problemas de modo mais solitário e são mais tímidas na interação com estranhos. Isto não significa, necessariamente, que tenham baixa autoestima – mas pode torná-las mais sensíveis em questões relacionadas ao valor pessoal, especialmente em contextos que valorizam predominantemente padrões extrovertidos de interação social.
Para pais e educadores, o importante é reconhecer e aceitar o temperamento da criança, sem tentar forçá-la a ser diferente do que é. Introversão e extroversão, como traços de personalidade, têm vantagens e desvantagens. O que importa é que ajudemos cada criança a florescer segundo suas características próprias, sem impor modelos únicos de como deveria ser.
Os quatro pilares da construção da autoestima
A autoestima infantil fortalece-se principalmente por meio de quatro recursos fundamentais:
Primeiro: interações afetivas positivas. O modo como olhamos, tocamos, falamos e estamos disponíveis para a criança tem valor inestimável. Todas as crianças precisam e merecem amor, educação e cuidado genuínos. Não se trata apenas de dizer "eu te amo", mas de demonstrar isso em gestos cotidianos – um olhar atento quando a criança nos conta algo, um abraço caloroso, tempo dedicado exclusivamente a ela, interesse verdadeiro por suas descobertas e preocupações.
Segundo: experiências de competência. O desenvolvimento da autonomia – isto é, do fazer, sentir e pensar por si mesma – expressa o senso de capacidade da criança. Segundo Piaget, a construção de esquemas (de ação, sociais, afetivos e cognitivos) é crucial para o desenvolvimento da autonomia e, por extensão, da autoestima. Quando a criança consegue realizar uma tarefa, resolver um problema ou dominar uma habilidade, ela experimenta o valioso sentimento de "ser capaz", de "ter mérito".
Terceiro: validação de sentimentos. É fundamental que reconheçamos e nomeemos as emoções da criança. Quando dizemos "vejo que você está frustrado porque não conseguiu montar a torre" ou "percebo que você ficou feliz com sua pintura", estamos ajudando a criança a desenvolver seu repertório emocional e a capacidade de comunicar o que sente. Invalidar emoções ("não é para chorar por isso", "isso não é motivo para ficar triste") pode ensinar à criança que seus sentimentos não importam, prejudicando sua autoestima.
Quarto: feedback realista e encorajador. Críticas excessivas, comparações negativas com outras crianças, elogios exagerados ou vazios ("você é o melhor do mundo!") não contribuem para uma autoestima saudável. O que ajuda é um feedback específico, honesto e construtivo: "vejo que você se esforçou muito neste desenho, especialmente nas cores que escolheu" é mais valioso que um genérico "que lindo!".
Autoestima em contextos desafiadores: hospital e escola
No contexto hospitalar
A criança hospitalizada enfrenta desafios imensos para sua autoestima. A doença que requer hospitalização configura um dano vivido como profundamente estressante pela criança e sua família. Estar hospitalizada, submeter-se a exames e tratamentos, é uma situação que pode ser vivida como extremamente ameaçadora. A criança perde o controle sobre si mesma, não pode ou não sabe o que farão com ela, tem medo de agulhas, sente dor e sofre por estar longe de casa e da escola.
Todas essas dimensões testam e fragilizam a autoestima. O adoecimento e a hospitalização aumentam significativamente o risco de tristeza, ansiedade e regressão comportamental. Pior ainda: a criança pode interpretar a doença como sinal de "fraqueza" ou mesmo de "castigo", o que prejudica profundamente o sentimento de valor pessoal.
É neste contexto que intervenções especializadas tornam-se fundamentais. As especialistas Child Life, como as que atuam no Sabará Hospital Infantil, criam espaços de expressão emocional por meio do brincar terapêutico (medical play). Estas intervenções contribuem para restaurar o senso de controle da criança, aliviar a ansiedade e fortalecer a autoestima, favorecendo sua adesão aos exames e tratamentos. O apoio e a presença constante dos pais, igualmente, são fundamentais neste processo.
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No contexto escolar
Na escola, crianças com dificuldades de aprendizagem ou de convivência enfrentam riscos significativos para sua autoestima. Se a criança é constantemente confrontada com tarefas que não consegue realizar, se é comparada negativamente com os colegas, se seus esforços não são reconhecidos, ela pode começar a construir crenças profundas sobre sua própria incompetência.
Isto é especialmente grave quando a criança sofre de algum transtorno de aprendizagem ou condição de saúde que afeta seu desempenho escolar. Proteger e restaurar a autoestima nestes casos não é apenas desejável – é absolutamente fundamental para o desenvolvimento integral da criança.
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Dr. Lino de Macedo
Professor Emérito pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Foi Presidente da Academia Paulista de Psicologia e integra a Cátedra de Educação Básica do IEA (USP). Professor Senior do Departamento de Ciências Sociais do Instituto Pensi.