
Mais um ano se passou…
50 —Já pararam para pensar na velocidade do tempo?
Mais um ano se passou e, mais uma vez, o que escutamos de tudo e de todos — inclusive das crianças — é: “nossa, como esse ano voou”.
A sensação da aceleração do tempo permeia tudo e todos.
Cada vez mais rápido, cada vez mais agitado, cada vez mais corrido… vamos ficando soterrados por afazeres, compromissos e tantas urgências. Urgências criadas, inventadas, e ainda assim acreditadas.
Inventamos a urgência no tempo de assar. O ser humano moderno, sem tempo de esperar, encontra uma solução prática na cozinha: a air fryer. Agora ela resolve o tempo de cozimento em instantes. Aquilo que levaria uma hora para “a magia acontecer” leva apenas alguns minutos.
Muito antes da air fryer, o ser humano, cansado de aguardar o pão aquecer, inventou a torradeira. Agora, magicamente, o pão aquece e tosta num piscar de olhos. E vejam só: ele ainda pula! Alertando que está pronto para ser ingerido e saboreado.
Inventamos, como humanidade, tantas e tantas formas de apressar o tempo, que agora é o tempo que nos apressa.
Apressamos a carta: virou e-mail.
Apressamos a comunicação: virou mensagem.
Apressamos o caminho: virou avião.
Apressamos a leitura: virou emoji.
Apressamos o tempo de um filme: virou reels.
Apressamos, apressamos, apressamos…
Tanto, tanto, tanto que, se eu não estivesse com vontade de escrever este texto, o chat teria cuspido um maior que este em um minuto!
Mas apressamos tanto que não temos tempo para ser, para nos construirmos, lapidarmos e nos constituirmos.
Apressamos o tempo com os eletrodomésticos, com os eletrônicos, e esquecemos que nós, humanos, somos feitos de carne e osso.
Ainda não encontramos uma forma de fazer com que os processos da vida aconteçam no tempo da tecnologia.
Então, estamos sempre afobados, cansados e soterrados por facilitadores que nos prometem sempre a mesma coisa: “com isso, você ganhará tempo”.
Mas se o tempo é a única coisa que, de fato, temos na vida, como é que aquilo que deveria nos guardar tempo para sermos nos assola de elementos para que gastemos nosso tempo em ter?
E, assim, nos rouba justamente aquilo de que mais carecemos: tempo.
Mais um ano se passou…
Que no próximo possamos, juntos, cuidar daquilo que de fato merece atenção: nosso TEMPO.

Gabriela Malzyner
É psicóloga, psicanalista e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Coordenadora e docente do Núcleo de Infância e Adolescência do CEP e consultora do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares do Instituto PENSI.