Nem tudo, nem nada: como ajudar a criança a aprender a escolher
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Nem tudo, nem nada: como ajudar a criança a aprender a escolher

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A criança quer usar uma roupa diferente ou um corte de cabelo inusitado. Entre a permissividade e a proibição, há um caminho mais interessante: ajudá-la a aprender a escolher

 

A menina de oito anos chega da escola decidida: quer raspar um lado da cabeça e pintar o cabelo de azul. O irmão de cinco insiste em ir ao supermercado vestido de super-herói, capa incluída. Diante de pedidos assim, muitos pais se veem divididos entre dois receios. Se proibirem, não estarão sufocando a autonomia que tanto desejam ver crescer nos filhos? Se permitirem, não estarão entregando a uma criança uma decisão para a qual ela ainda não tem maturidade? Deixar tudo ou não deixar nada: seria essa, de fato, a escolha que cabe aos pais?

A proposta deste texto é mostrar que esse dilema é, em boa medida, falso. Entre a permissividade e a proibição, há um caminho mais interessante e mais trabalhoso, que consiste em ensinar a escolher. Para percorrê-lo, convém começar por uma pergunta simples, mas nem sempre bem respondida: o que é, afinal, autonomia?

O que é autonomia?

No uso cotidiano, autonomia costuma ser confundida com fazer o que se quer. A própria palavra, porém, sugere outra coisa. De origem grega, ela une auto (a si mesmo) e nomos (lei, regra): ser autônomo é ser capaz de dar-se a própria regra, isto é, de governar-se. Autonomia, portanto, não é ausência de regras, mas uma relação diferente com elas. A pessoa autônoma não obedece apenas porque alguém mandou, nem desobedece apenas porque quer; ela compreende as razões de uma regra, considera o ponto de vista dos outros e as consequências de seus atos, e decide a partir disso.

Jean Piaget, ao estudar o desenvolvimento moral, observou que a criança pequena vive as regras como algo que vem de fora, imposto por quem tem autoridade sobre ela. Respeita-as por obediência a alguém mais velho ou mais forte, numa moral que Piaget chamou de heterônoma, isto é, regida pela lei de outro. A autonomia não surge espontaneamente com a idade; ela se constrói nas relações de cooperação e de respeito mútuo, nas trocas em que a criança é escutada, pode argumentar, negociar e perceber que as regras são acordos que tornam possível a vida em comum. Que tipo de relação, então, estamos oferecendo aos nossos filhos quando se trata de escolher?

Não por acaso, Piaget estudou essa passagem observando crianças jogando bolinhas de gude. Os jogos com regras são um verdadeiro laboratório da autonomia. Neles, a criança aprende que não pode fazer só o que quer, pois o jogo só existe porque todos aceitam as mesmas regras; mas aprende também que essas regras podem ser discutidas, combinadas e até modificadas, desde que haja acordo entre os jogadores. Quem já viu um grupo de crianças interromper uma partida para decidir se uma jogada vale ou não sabe o quanto se aprende ali sobre escolher, argumentar e conviver.

Vale acrescentar que a autonomia tem duas faces que caminham juntas. Uma é a independência: a criança faz por si mesma, escolhe, experimenta, assume. A outra é o pertencimento: aquilo que ela faz a insere num grupo, numa família, numa turma, numa cultura. Independência sem pertencimento tende ao isolamento ou ao capricho; pertencimento sem independência tende à submissão. Educar para a autonomia é cuidar das duas faces ao mesmo tempo.

A maturidade vem antes ou depois da escolha?

"Ela ainda não tem maturidade para decidir isso." A frase é frequente e, muitas vezes, verdadeira. Mas ela esconde uma armadilha. Se a maturidade para escolher fosse condição prévia para que a criança pudesse escolher, como alguém chegaria a tornar-se maduro? A maturidade não é algo que se recebe pronto num aniversário qualquer; ela se forma justamente no exercício de fazer escolhas, avaliar seus efeitos, errar, reconsiderar e aprender a escolher de novo.

Pensemos em como uma criança aprende a andar de bicicleta. O adulto pode segurar o banco, dar conselhos, correr ao lado, mas não pode transmitir o equilíbrio por palavras. O equilíbrio é algo que a própria criança constrói, oscilando, quase caindo, corrigindo o movimento, até encontrar uma coordenação que nenhuma explicação lhe daria. Ninguém espera que ela esteja "madura" para andar sem ajuda antes de subir na bicicleta, e ninguém a solta sozinha numa descida no primeiro dia.

Com as escolhas, acontece algo parecido. O papel do adulto não é decidir no lugar da criança nem abandoná-la diante de decisões que ela não pode sustentar, mas ajustar o tamanho da escolha ao tamanho da criança, para que ela encontre, pela própria ação, o seu equilíbrio.

Uma autoridade que explica

O que acontece quando os pais deixam tudo? À primeira vista, a criança parece livre. Na prática, ela fica sozinha diante de decisões cujas consequências ainda não consegue antecipar, e a ausência de limites pode ser vivida mais como desamparo do que como liberdade. E quando os pais não deixam nada? A criança aprende a obedecer, mas não necessariamente a compreender. Ao crescer, corre o risco de continuar precisando de alguém que decida por ela, ou de romper com as regras justamente quando a obediência deixar de ser possível.

Entre esses dois extremos está o que se poderia chamar de uma autoridade que explica, que é o lado adulto da cooperação. Os pais continuam sendo responsáveis por definir uma moldura, isto é, por distinguir o que é negociável do que não é. Dentro dessa moldura, porém, oferecem alternativas, escutam argumentos, explicam suas razões e aceitam que a criança pense diferente deles. Não se trata de abrir mão da autoridade, mas de exercê-la num clima de respeito mútuo, de um modo que ensina, em vez de apenas impor.

Como saber o que pode ser negociado?

Não há uma lista pronta que sirva para todas as famílias, mas algumas perguntas ajudam os pais a pensar. A primeira é se a escolha é reversível. Um corte de cabelo cresce de novo, uma roupa estranha dura um dia; uma tatuagem ou um piercing, não. Quanto mais reversível a consequência, maior pode ser a margem da criança. A segunda é se há risco à saúde ou à segurança. A criança pode escolher qual casaco vai usar num dia frio, mas não se vai usar casaco; pode escolher a fruta do lanche, mas não substituir todas as refeições por doces.

A terceira pergunta é se a escolha afeta outras pessoas ou esbarra em regras de contextos que não dependem da família, como o uniforme da escola ou os costumes de uma cerimônia. A quarta é se a criança consegue compreender as consequências do que escolhe e arcar com elas.

E há uma quinta pergunta, talvez a mais delicada, que os pais fazem a si mesmos: o que me incomoda nessa escolha é um cuidado com meu filho ou é o meu gosto, o meu receio do julgamento dos outros? Muitos conflitos em torno de roupas e aparência dizem mais sobre a estética ou a vergonha dos adultos do que sobre qualquer prejuízo real para a criança. Reconhecer isso não obriga a ceder, mas torna a conversa mais honesta.

O cabelo azul como oportunidade de conversa

Voltemos à menina que deseja raspar um lado da cabeça e pintar o cabelo de azul. Antes do sim ou do não, que tal perguntar por que ela quer esse corte? Muitas vezes a resposta revela as duas faces da autonomia de que falamos. Há o desejo de afirmar algo de si, de ser diferente, de ser vista; e há, quase sempre, o desejo de pertencer: parecer com uma amiga, com uma cantora, com um grupo que ela admira. Compreender o que está em jogo muda a natureza da conversa.

Dessa conversa podem surgir soluções intermediárias: uma mecha colorida com tinta que sai na lavagem, a experiência adiada para as férias, uma consulta às regras da escola feita com a criança. Pode ser que os pais concluam que a mudança é possível e, então, se ela se arrepender, terá aprendido algo com um custo pequeno, pois cabelo cresce. Pode ser também que os pais digam não. Ainda assim, a criança que foi escutada e recebeu uma explicação aprende algo muito diferente da criança cujo pedido foi simplesmente descartado. Não é isso, afinal, que desejamos ensinar: que os desejos podem ser ditos, pensados e negociados?

O tamanho da escolha em cada idade

As idades a seguir são aproximadas, pois cada criança tem seu ritmo, mas ajudam a ajustar o tamanho das escolhas. Por volta dos dois e três anos, o famoso "não" costuma ser uma das primeiras afirmações de si. Nessa fase, perguntas abertas como "o que você quer vestir?" podem mais angustiar do que libertar. Funcionam melhor escolhas entre duas opções concretas, ambas aceitáveis para os pais: a camiseta azul ou a vermelha, o banho antes ou depois do jantar.

Entre os quatro e os seis anos, as preferências tornam-se intensas e o mundo da fantasia, que se expressa no faz de conta, ocupa um lugar central. Ir ao supermercado vestido de super-herói não prejudica ninguém e expressa algo importante da vida imaginativa da criança. As escolhas podem se ampliar, desde que envolvam poucas alternativas e consequências próximas, que a criança consiga perceber.

A partir dos seis ou sete anos, e sobretudo na idade escolar, a criança torna-se cada vez mais capaz de considerar outros pontos de vista e de antecipar algumas consequências. Nos jogos com colegas, começa a praticar a cooperação e, pouco a pouco, passa a compreender as regras como acordos que podem ser discutidos. É uma fase muito favorável para negociar, para participar da construção de combinados familiares e para assumir os efeitos de pequenas escolhas: quem decidiu deixar a lição de casa para o fim do dia aprende algo que nenhuma bronca ensinaria.

Nessa idade, a criança também passa a pedir justificativas para as regras dos adultos. Não seria esse pedido um sinal de que a autonomia está em construção, e não de desrespeito?

O que o hospital nos ensina

Pode parecer estranho, mas o ambiente hospitalar oferece uma lição preciosa sobre esse tema. No Programa Child Life do Sabará Hospital Infantil, que acompanha crianças hospitalizadas, as profissionais lidam o tempo todo com situações que não são negociáveis: o exame precisa ser feito, a medicação precisa ser tomada. Nem por isso a criança é tratada como alguém sem voz. Ela pode escolher em qual braço será feita a coleta, qual curativo prefere, quem vai segurar sua mão, se quer olhar ou desviar o olhar.

Além disso, ela brinca. E, ao brincar, pratica a liberdade de sonhar e de assimilar o que está vivendo, isto é, de dar sentido à experiência segundo seus recursos afetivos e cognitivos. Esse espaço de escolha e de brincadeira favorece o que a psicologia chama de coping, ou seja, os modos pelos quais enfrentamos situações difíceis.

A mesma lógica vale em casa. Não se negocia se é preciso escovar os dentes, mas a criança pode escolher a escova, a música que acompanha a escovação ou se começa pelos dentes de cima ou de baixo. Escolher, mesmo dentro de limites que não foram definidos por nós, é uma maneira de sentir-se sujeito da própria vida.

Aprender a escolher

Deixar ou não deixar a criança escolher? Talvez essa seja uma pergunta mal formulada. Uma pergunta mais fecunda seria: como posso ajudar meu filho a aprender a escolher? A resposta não cabe numa regra única, mas passa por alguns gestos: oferecer escolhas do tamanho que a criança pode sustentar, explicar os limites em vez de apenas impô-los, escutar as razões dela, aceitar que ela vai errar e permanecer por perto quando isso acontecer. A autonomia não é algo que os pais concedem ou proíbem. É algo que se constrói, dia após dia, na relação entre a criança e os adultos que cuidam dela.

Dr. Lino de Macedo

Dr. Lino de Macedo

Professor Emérito pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Foi Presidente da Academia Paulista de Psicologia e integra a Cátedra de Educação Básica do IEA (USP). Professor Senior do Departamento de Ciências Sociais do Instituto Pensi.

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