Novas recomendações da SBNI: o que realmente funciona no tratamento do autismo?
Saúde

Novas recomendações da SBNI: o que realmente funciona no tratamento do autismo?

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A Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) divulgou novas recomendações sobre diagnóstico e tratamento do Transtorno do Espectro Autista (TEA). O documento não é um consenso, mas sim um direcionamento técnico, criado porque, nos últimos anos, surgiu uma quantidade enorme de desinformação sobre autismo e terapias supostamente “milagrosas”.

Estive presente no 20° Congresso Brasileiro de Neurologia Infantil, que ocorreu no final de novembro, para saber a opinião e o parecer dos autores sobre a atualização deste importante documento.

O objetivo é orientar médicos e famílias e proteger crianças de intervenções sem eficácia científica.

 

Diagnóstico: cuidadoso, clínico e baseado em experiência

  • Ainda não existe marcador biológico capaz de diagnosticar TEA.

  • O diagnóstico continua sendo essencialmente clínico, feito por profissional com treinamento, experiência e prática contínua.

  • É fundamental avaliar diagnósticos diferenciais, especialmente situações ambientais (como exposição excessiva às telas) e condições médicas ou de desenvolvimento que podem simular sinais de TEA.

  • Exames complementares não confirmam autismo — eles apenas ajudam em casos específicos.

 

Intervenção: o que realmente tem evidência?


As recomendações se baseiam nas duas maiores revisões científicas internacionais sobre autismo:


National Autism Center (NAC)

Frank Porter Graham Institute (FPG/UNC)


Essas instituições analisam centenas de estudos e classificam as intervenções de acordo com o nível de evidência.


Terapias com evidência consolidada:

  • ABA (Análise do Comportamento Aplicada), em abordagens estruturadas ou naturalísticas

  • Fonoaudiologia

  • Terapia Ocupacional com Integração Sensorial

  • Intervenções educacionais estruturadas

  • Musicoterapia e Integração sensorial, agora incluídos como nova prática com evidência emergente.


Ponto essencial dos autores:


Não existe receita de bolo.

A intervenção deve ser precoce, individualizada e ajustada periodicamente.

Intensidade e carga horária: o que a SBNI sugere


A recomendação não define números rígidos. O que orienta é:

  • O médico pode fazer uma sugestão inicial.

  • A carga horária final deve ser construída junto com a equipe terapêutica, após avaliação específica de cada área.

  • Reavaliações periódicas são essenciais, pois as necessidades da criança mudam ao longo do tempo.


O que NÃO tem evidência e precisa ficar claro


Um dos motivos centrais da publicação foi proteger as crianças de terapias sem comprovação, muitas delas caras, invasivas ou arriscadas.

Sem evidência ou não recomendados:

  • Dieta sem glúten ou sem caseína (sem condição médica associada)

  • Ômega-3

  • Reposição de vitaminas (sem evidência de deficiência)

  • Ozonioterapia

  • Câmaras hiperbáricas

  • Transplante fecal

  • Quelantes

  • Florais, óleos essenciais

  • Psicanálise como tratamento principal do TEA

  • Células-tronco

  • Imunoglobulina sem indicação

  • Corticoides

  • Protocolos de desintoxicação


Essas abordagens não mostraram benefício e podem atrasar intervenções efetivas.

Algumas intervenções geram expectativas, mas ainda carecem de evidências robustas:

  • Canabidiol (CBD)

  • Neuroestimulação (tDCS / TMS)

  • Ácido folínico


Os estudos são pequenos, heterogêneos ou inconclusivos. Podem ser considerados apenas caso a caso, com consentimento informado, e sempre com transparência sobre suas limitações.


O novo documento da SBNI busca:

 

  • Dar orientação técnica confiável em meio a uma onda de desinformação;

  • Reforçar o que funciona e o que não funciona;

  • Estabelecer prudência ética na indicação de terapias;

  • Proteger crianças de tratamentos duvidosos;

  • Lembrar que cada criança é única e precisa de um plano individual, revisado ao longo do tempo.

E, sobretudo:


Reafirma nossa responsabilidade, como médicos neuropediatras, de garantir que cada decisão tomada seja baseada em evidência, ética e compromisso com o desenvolvimento da criança.

 

Leia também: Ácido folínico e autismo: o que a ciência já sabe sobre essa possível terapia

Dr. Ricardo Watanabe

Dr. Ricardo Watanabe

Ricardo Alexandre Sato Watanabe (CRM 162870 / RQE 678271). Formado pela Universidade Federal de São Paulo, atua como Neuropediatra no Instituto PENSI e Hospital Infantil Sabará.

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