
Novas recomendações da SBNI: o que realmente funciona no tratamento do autismo?
218 —A Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) divulgou novas recomendações sobre diagnóstico e tratamento do Transtorno do Espectro Autista (TEA). O documento não é um consenso, mas sim um direcionamento técnico, criado porque, nos últimos anos, surgiu uma quantidade enorme de desinformação sobre autismo e terapias supostamente “milagrosas”.
Estive presente no 20° Congresso Brasileiro de Neurologia Infantil, que ocorreu no final de novembro, para saber a opinião e o parecer dos autores sobre a atualização deste importante documento.
O objetivo é orientar médicos e famílias e proteger crianças de intervenções sem eficácia científica.
Diagnóstico: cuidadoso, clínico e baseado em experiência
Ainda não existe marcador biológico capaz de diagnosticar TEA.
O diagnóstico continua sendo essencialmente clínico, feito por profissional com treinamento, experiência e prática contínua.
É fundamental avaliar diagnósticos diferenciais, especialmente situações ambientais (como exposição excessiva às telas) e condições médicas ou de desenvolvimento que podem simular sinais de TEA.
Exames complementares não confirmam autismo — eles apenas ajudam em casos específicos.
Intervenção: o que realmente tem evidência?
As recomendações se baseiam nas duas maiores revisões científicas internacionais sobre autismo:
Frank Porter Graham Institute (FPG/UNC)
Essas instituições analisam centenas de estudos e classificam as intervenções de acordo com o nível de evidência.
Terapias com evidência consolidada:
ABA (Análise do Comportamento Aplicada), em abordagens estruturadas ou naturalísticas
Fonoaudiologia
Terapia Ocupacional com Integração Sensorial
Intervenções educacionais estruturadas
Musicoterapia e Integração sensorial, agora incluídos como nova prática com evidência emergente.
Ponto essencial dos autores:
Não existe receita de bolo.
A intervenção deve ser precoce, individualizada e ajustada periodicamente.
Intensidade e carga horária: o que a SBNI sugere
A recomendação não define números rígidos. O que orienta é:
O médico pode fazer uma sugestão inicial.
A carga horária final deve ser construída junto com a equipe terapêutica, após avaliação específica de cada área.
Reavaliações periódicas são essenciais, pois as necessidades da criança mudam ao longo do tempo.
O que NÃO tem evidência e precisa ficar claro
Um dos motivos centrais da publicação foi proteger as crianças de terapias sem comprovação, muitas delas caras, invasivas ou arriscadas.
Sem evidência ou não recomendados:
Dieta sem glúten ou sem caseína (sem condição médica associada)
Ômega-3
Reposição de vitaminas (sem evidência de deficiência)
Ozonioterapia
Câmaras hiperbáricas
Transplante fecal
Quelantes
Florais, óleos essenciais
Psicanálise como tratamento principal do TEA
Células-tronco
Imunoglobulina sem indicação
Corticoides
Protocolos de desintoxicação
Essas abordagens não mostraram benefício e podem atrasar intervenções efetivas.
Algumas intervenções geram expectativas, mas ainda carecem de evidências robustas:
Canabidiol (CBD)
Neuroestimulação (tDCS / TMS)
Ácido folínico
Os estudos são pequenos, heterogêneos ou inconclusivos. Podem ser considerados apenas caso a caso, com consentimento informado, e sempre com transparência sobre suas limitações.
O novo documento da SBNI busca:
Dar orientação técnica confiável em meio a uma onda de desinformação;
Reforçar o que funciona e o que não funciona;
Estabelecer prudência ética na indicação de terapias;
Proteger crianças de tratamentos duvidosos;
Lembrar que cada criança é única e precisa de um plano individual, revisado ao longo do tempo.
E, sobretudo:
Reafirma nossa responsabilidade, como médicos neuropediatras, de garantir que cada decisão tomada seja baseada em evidência, ética e compromisso com o desenvolvimento da criança.
Leia também: Ácido folínico e autismo: o que a ciência já sabe sobre essa possível terapia

Dr. Ricardo Watanabe
Ricardo Alexandre Sato Watanabe (CRM 162870 / RQE 678271). Formado pela Universidade Federal de São Paulo, atua como Neuropediatra no Instituto PENSI e Hospital Infantil Sabará.