O bebê e sua mamadeira
Humanização

O bebê e sua mamadeira

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Mamar, mamar, mamar é tudo que um bebê necessita e gosta de fazer no primeiro ano de sua vida, que desejamos longa, saudável, feliz e digna. Além da mama da mamãe, dos dedos e outras partes de seu corpo e de outros objetos, ele mama a mamadeira. E como mama! Como ela é tão especial e presente, vou propor, apoiado em Piaget[ 1] , dois problemas a serem colocados para seu bebê muitas vezes, se ele e você curtirem a brincadeira. Os problemas servem também para observar e compartilhar com a criança algo que nos acompanhará - como desafio - a vida toda: temos necessidade de conhecer as coisas, os objetos e as pessoas que são importantes para nós, que fazem parte de nossa experiência. E conhecer, nesse caso, significa superar a indiferenciação, em favor da diferenciação e integração. O que é isso? A criança ganha vida na barriga da mamãe, é uma parte, pode-se dizer assim, de seu corpo, está tão vinculada a ela que uma e outra são pura continuidade ou indiferenciação, pois não se distinguem. Depois que nasce, a criança é uma e a mamãe é outra, são duas pessoas, não importa se uma é grande e a outra é pequena. Mas a indiferenciação ou continuidade continua: respiram o mesmo ar, olham-se diretamente quando há luz, e mamar, mamãe e mama ou mamadeira são para o bebê uma coisa só. Reconhecer mamãe e mamadeira como coisas separadas da criança são, pois, duas grandes conquistas ou conhecimentos. E o fato é que isso acontece muito lentamente a partir do sexto ou sétimo mês de vida. Os problemas a serem propostos te permitirão constatar isso! Mas, por favor, não os utilizem como teste ou forma de julgar seu filho ou filha. Considerem-nos como primeiras formas de brincadeiras de esconde-esconde, que tanto deliciam as crianças a partir do oitavo mês de vida. Primeiro problema. Seu filho ou filha faminto está com a mamadeira cheia de leite. Você esconde a mamadeira totalmente da visão dele ou dela. E, em seguida, volta a apresentar a mamadeira. O que acontece? Como a criança reage? Por suas reações, dá para imaginar que a mamadeira longe de seus olhos, e apesar da fome, continuou existindo para ela, ou é como se tivesse desaparecido? Segundo problema. Desta vez, você esconde a mamadeira com leite de seu filho faminto apenas parcialmente, ou seja, parte dela é visível para a criança e parte, invisível. Você pode colocar o problema de um modo mais fácil ou mais difícil. No modo fácil, esconde a metade inferior da mamadeira, deixando visível a parte superior, mais importante, que é o bico. No modo mais difícil, faz o contrário, ou seja, é só o fundo que fica visível. Como a criança reage diante destas situações? Ela chora, observa, busca recuperar a mamadeira? O que faz? Duas observações. Primeira: pesquisas indicam que muitas crianças necessitam de todo o seu primeiro ano de vida para resolverem bem essas duas situações, ou seja, recuperarem, por si mesmas, o objeto escondido. Por que isso é tão difícil para elas? É que demora muito tempo para aprendermos a ver com os “olhos" de dentro de nós, os olhos da imaginação. É como se só existissem os “olhos" da percepção. Segunda: Superar, pouco a pouco, a indiferenciação - algo só existe se em contato direto, visual, comigo - abre o caminho da diferenciação, conquista que só alcançaremos, para certas coisas, a partir dos sete anos. Por igual, a diferenciação abre o caminho para a integração, ou seja, para aquelas situações em que o outro e as coisas, estão lá fora, mas também dentro de nós, e podem se expressar como conhecimento, amor e respeito, e podem organizar nossa vida de um jeito ou outro. É para esse futuro que o presente de seu filho ou filha precisa ser bem cuidado. Leia também: O cuidar de si na criança pequena [ 1] Jean Piaget, A construção do real na criança. São Paulo: Ática, 1967. p. 48-50. Atualizado em 15 de julho de 2024
Dr. Lino de Macedo

Dr. Lino de Macedo

Professor Emérito pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Foi Presidente da Academia Paulista de Psicologia e integra a Cátedra de Educação Básica do IEA (USP). Professor Senior do Departamento de Ciências Sociais do Instituto Pensi.

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