
O recreio escolar para um crescimento saudável e sucesso acadêmico
1 —O recreio é uma pausa necessária na rotina das crianças, trazendo benefícios físicos, sociais, emocionais e cognitivos
A Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança (UNCRC) reconheceu a infância como “um período especial e protegido, no qual as crianças devem ter permissão para crescer, aprender, brincar, desenvolver-se e florescer com dignidade”. O Artigo 31 afirma: “Toda criança tem o direito ao repouso, ao lazer, ao brincar e a participar de atividades culturais e criativas... As crianças também precisam de lazer, definido como tempo e espaço sem obrigações, entretenimento ou estímulos, que elas podem escolher preencher de forma tão ativa ou passiva quanto desejarem.” ¹
O recreio infantil não é um luxo, mas sim uma parte essencial do processo de aprendizagem, crescimento e saúde dos alunos em todas as idades. Além disso, está diretamente relacionado ao sucesso acadêmico.
Essa é a essência do que a Academia Americana de Pediatria (AAP) recomenda em sua declaração de política recentemente revisada, "O Papel Crucial do Recreio na Escola", e publicada em um artigo de junho de 2026 na revista Pediatrics.
A AAP observa que nem todos os alunos têm recreio diário na escola, apesar de estudos recentes mostrarem que o tempo livre durante o recreio é exatamente o que eles precisam para processar e reter com eficácia as informações recém-adquiridas em sala de aula.
"O recreio deve ser diferente à medida que as crianças crescem, mas continua sendo essencial para alunos do ensino fundamental e do ensino médio, quando passam do parquinho para experiências mais sociais", disse Robert Murray, um dos principais autores da declaração de política do Conselho de Saúde Escolar da AAP. "Pesquisas mostram que pausas nas aulas ajudam alunos de todas as idades a se recuperar, a se concentrar melhor e a lidar com o estresse quando retornam aos estudos."
A declaração de política revisada da AAP cita os estudos mais recentes em neurofisiologia da aprendizagem, saúde do adolescente, desenvolvimento socioemocional, habilidades executivas e o papel do envolvimento com os pares e das brincadeiras para o bem-estar.
Recreio: a pausa necessária
"Como adultos, sabemos os benefícios de fazer uma pausa para o café, socializar com os colegas ou dar uma pequena caminhada no trabalho quando nos sentimos cansados, estressados ou improdutivos durante o expediente", disse Catherine Ramstetter, PhD, outra das principais autoras da declaração de política.
Então, por que questionaríamos a mesma necessidade entre crianças e adolescentes? Sabemos que o recreio contribui para a capacidade das crianças de aprender e reter novas informações, além de ajudá-las a lidar com relacionamentos sociais e a construir autoconfiança.
A política recomenda que o recreio seja protegido como tempo pessoal, nunca sendo negado por motivos acadêmicos ou punitivos. O recreio deve incluir uma ampla gama de atividades e ambientes, desde brincadeiras físicas até interação social, em espaços internos ou externos, e com durações variadas.
Pesquisas recentes sobre a neurociência da aprendizagem enfatizam a importância de pausas regulares após períodos intensos de ensino. Brincadeiras fisicamente ativas durante o recreio também podem auxiliar na retenção da memória. Estudos revisados indicam que múltiplos intervalos com um mínimo de 20 minutos diários são ideais para que os alunos obtenham todos os benefícios cognitivos, físicos e sociais do recreio. No mínimo, o recreio deve ocorrer com frequência e duração suficientes, oferecendo uma variedade de opções aos alunos, a fim de mitigar o estresse e permitir que eles recuperem o foco antes de retomar as aulas. O valor acadêmico do recreio pode ser reforçado pela inclusão desse tempo como tempo letivo.
Conclusões
- Os pediatras naturalmente se aliam a pais, professores, administradores, enfermeiros e psicólogos na proteção do recreio diário, especialmente para alunos de minorias e aqueles em escolas com poucos recursos, que são os que menos têm acesso aos benefícios de um recreio de qualidade.
- Os pediatras devem enfatizar o seguinte: um recreio de qualidade restabelece o equilíbrio mental e a concentração, uma necessidade de todos os alunos, do jardim de infância ao ensino médio, todos os dias. Como tal, o recreio deve ser um período protegido na rotina diária e ser considerado um momento pessoal do aluno. O recreio não deve ser negado por razões acadêmicas ou punitivas. Devem existir leis que protejam o acesso igualitário ao recreio diário. Também devemos educar os pais para que defendam os benefícios do recreio para todas as crianças e adolescentes.
- O recreio não se resume apenas à atividade física. Inúmeras pesquisas comprovam os benefícios físicos, sociais, emocionais e cognitivos dos intervalos para o recreio. No mínimo, o recreio deve ocorrer com frequência e duração suficientes para reduzir o estresse e permitir que os alunos recuperem o foco antes de retomarem as aulas.
- O recreio é mais do que uma pausa nas aulas. É um processo que exige avaliação, planejamento e acompanhamento, além de monitores treinados, criando assim um espaço seguro e adaptado para alcançar a visão da escola em relação à saúde, educação e bem-estar dos alunos. O planejamento e a escolha dos locais para o recreio devem garantir a inclusão de todos os alunos, independentemente de seus desafios físicos, mentais ou comportamentais.
- O recreio e a educação física oferecem contribuições únicas e complementares para uma formação completa. A educação física é uma disciplina acadêmica destinada a aprimorar as habilidades motoras e a desenvolver o apreço por esportes e jogos, beneficiando a saúde e a atividade física ao longo da vida. Ela não é intercambiável com o recreio. Somente o recreio (principalmente o recreio livre) proporciona os benefícios criativos, sociais e emocionais da brincadeira, que fomentam a aquisição de habilidades para a vida toda, incluindo comunicação, negociação, resolução de problemas e autorregulação.
Como se vê, nossas escolas públicas e mesmo as privadas estão muito distantes do que preconizam essas políticas. Pelo que eu sei, nossos recreios são um momento de escape dos alunos, que até pouco tempo atrás pegavam seus celulares e se conectavam. Mas não acredito que tenha nenhum planejamento ou intenção mais nobre.
Fontes:
Pediatrics (2026) 157 jun 2026
Academia Americana de Pediatria (Copyright © 2026)
From the American Academy of Pediatrics| Policy Statement| May 11 2026
The Crucial Role of Recess in School: Policy Statement Free
Robert Murray, MD, FAAPCorresponding Author; Catherine Ramstetter, PhDCorresponding Author; Daniel Woolridge, MD, MPH, MS; Charlene Woodham Brickman, PhD; Council on School Health
Saiba mais:
Dr. José Luiz Setúbal
(CRM-SP 42.740) Médico Pediatra formado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com especialização na Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduação em Gestão na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Pai de Bia, Gá e Olavo. Avô de Tomás, David e Benjamim.