
Saúde
Precisamos falar sobre os vírus respiratórios
20 —Vírus respiratórios na infância
Os vírus respiratórios em crianças menores de 2 anos causam uma doença chamada bronquiolite. A infecção provoca um processo inflamatório das vias aéreas inferiores que começa com sintomas de resfriado e evolui para tosse, aumento de secreção e desconforto respiratório. Estudos mostram que todas as crianças até os 24 meses terão, ao menos, um episódio de bronquiolite. No Brasil, temos, aproximadamente, um milhão de casos por ano. Desses, 100 mil necessitam de assistência hospitalar e 10 mil precisam de internação ou cuidados de terapia intensiva. Em linhas gerais, o dobro de crianças com bronquiolite evoluem de forma grave em comparação aos pacientes infectados pelo coronavírus. A bronquiolite é a doença que mais mata crianças menores de dois anos no mundo. Se há uma escassez de leitos de UTI e ventiladores para adultos, quando se trata da população pediátrica, que necessita de ventiladores especiais e espaços físicos adequados, a situação é ainda mais crítica. Testes de medicamentos e vacinas em crianças criam desafios técnicos e éticos ainda maiores do que nos adultos. O adoecimento de um bebê altera, de forma dramática, a dinâmica de toda a família e, em muitas vezes, de toda uma comunidade. Durante a sazonalidade, presenciamos nos hospitais públicos brasileiros cenas que não ficam muito distantes do dilema mostrado no clássico filme A Escolha de Sofia, que relataram os médicos italianos. E, ainda assim, tratamos essa condição como algo corriqueiro. “Depois de maio, melhora!”, “Nas férias de julho isso tudo acaba”. É um ciclo de aproximadamente quatro meses, que tem seu pico de 30 a 40 dias depois dos primeiros casos e que tende a melhorar quando as crianças já foram expostas e diminuem o contato social nas férias de inverno. No fim de agosto veremos uma nova onda de infecção, dessa vez mais branda porque teremos menos crianças suscetíveis e com uma proporção um pouco menor de casos graves. Soa familiar? Provavelmente você ouviu opiniões de vários especialistas falando do coronavírus usando a mesma linha de raciocínio. Ou seja: temos uma epidemia de bronquiolite todos os anos que é banalizada e negligenciada por governos e pela sociedade em geral. O impacto social e econômico gerado por essa condição é sabidamente relevante, porém pouco quantificado. A urgência e a gravidade da situação atual nos despertaram para a necessidade de pensarmos na saúde como um bem coletivo, de termos medidas de prevenção contra os vírus respiratórios e de explorarmos novas alternativas que permitam a democratização do acesso à saúde. Vamos nos permitir absorver e aprender com essa experiência para evitar a pequena tragédia que sofremos todos os anos: se seu filho estiver doente, não o deixe em contato com outras crianças; se você estiver doente, não visite crianças pequenas; não leve bebês a locais com aglomeração e, por favor, lave as mãos frequentemente. Saiba mais: Atualizado em 29 de janeiro de 2025
Dra. Daniella Bonfim
Médica infectologista pediátrica do Sabará Hospital Infantil
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