
Refeições em família: por que comer junto é tão importante?
3 —Refeições em família podem ser uma oportunidade para a criança aprender pelo exemplo, conhecer novos alimentos, desenvolver autonomia, ter curiosidade, conversar e criar vínculos
Em meio à rotina cada vez mais corrida, conseguir sentar-se à mesa com as crianças virou um desafio e, para muitos, deixou de ser prioridade. Mas as refeições compartilhadas trazem inúmeros benefícios, proporcionando momentos de conexão, convivência, aprendizado e construção de hábitos alimentares.
A ciência tem encontrado uma associação positiva entre a maior frequência de refeições em família e diferentes aspectos da saúde física, emocional e social não só de crianças e adolescentes, mas também de adultos. Os benefícios estão relacionados não apenas ao fato de comer junto, mas também ao que acontece nesse momento, como a oportunidade de conversar, o exemplo para as crianças, além da possibilidade de conhecer diferentes alimentos e participar de uma rotina familiar.
Refeições em família estão associadas a uma alimentação mais equilibrada
Existem evidências de que uma maior frequência do comer junto proporciona melhor aceitação de alimentos como frutas e legumes. Além disso, a maior disponibilidade de alimentos preparados em casa contribui para menor consumo de ultraprocessados.
Isso não significa que uma refeição vai transformar automaticamente a alimentação do seu filho, pois temos outros fatores de influência, mas aumentará a chance de futuras mudanças.
A criança aprende observando!
Na infância temos uma janela de oportunidades para construção dos hábitos alimentares.
A hora da refeição é uma delas, em que a criança observa adultos e outras crianças. A presença de familiares experimentando diferentes alimentos, novas preparações e demonstrando prazer em comer aumenta as oportunidades de aprendizagem e de aceitação futura. O exemplo dos adultos é uma das formas mais naturais de ensinar.
O ambiente da refeição importa
A forma como a família se relaciona durante a refeição faz diferença. Refeições em um ambiente agradável, com conversa e interação, sem cobranças, são muito diferentes das refeições marcadas por pressão para comer, brigas, ameaças ou negociações constantes.
Estabelecer uma regra de que "todos precisam comer juntos" não é suficiente. A qualidade da interação durante a refeição é tão importante quanto a frequência.
Benefícios para os cuidadores
Não só as crianças e adolescentes se beneficiam dessa prática. As refeições em família podem funcionar como um momento de conexão, permitindo conversar sobre o dia, perceber como a criança está e estabelecer uma rotina de convivência.
Uma maior frequência de refeições familiares está associada a melhores indicadores de funcionamento familiar, autoestima e melhores padrões alimentares de toda a família.
E quando a criança é seletiva?
Em famílias de crianças com dificuldades alimentares, alguns cuidados merecem atenção.
As refeições em família não devem representar o momento para obrigar a criança comer, insistir ou transformar a mesa em um campo de batalha. Uma criança pode participar da refeição mesmo que coma pouco, recuse determinado alimento ou não experimente tudo o que foi servido.
Um dos objetivos de estar junto é oferecer oportunidades regulares de contato com os alimentos num ambiente tranquilo. A criança pode só observar, sentir cheiros e texturas, tocar nos alimentos e, gradualmente, ampliar sua familiaridade com eles.
Em alguns casos, é necessária uma avaliação especializada, para identificar possíveis repercussões nutricionais, comportamentais e familiares, com modificações individualizadas para cada caso.
Qual a frequência recomendada?
Não temos uma frequência universal determinada, mas sabemos que pelo menos três refeições por semana já mostram impacto positivo. Na prática, e diante de todos os desafios que as famílias vivem, vale investir na frequência possível e manter constância!
Algumas dicas para tornar esse momento possível e positivo:
Organizar momentos da semana para sentar-se à mesa juntos, em vez de cada um fazer sua refeição em um local e horário diferente.
Oferecer alimentos variados e permitir que a criança observe os demais comendo.
Evitar pressão, chantagem ou ameaças para que a criança coma.
Conversar sobre assuntos não relacionados à comida ou aparência, e aproveitar o momento para interação familiar.
Reduzir distrações, especialmente telas, favorecendo a conversa e a conexão.
Permitir que a criança participe de pequenas tarefas relacionadas à refeição, de acordo com sua idade.
Respeitar os sinais de fome e saciedade da criança.
Lembrar que uma refeição não precisa ser perfeita para ser boa.
Priorizar refeições preparadas em casa.
Bibliografia:
- Maximino et al. Behavioral and Environmental Aspects Associated with Childhood Feeding Difficulties: Study with Control Group. Int J Nutrol 2020;
- Maximino et al. Breakfast nutrient profile and food sources among children with feeding difficulties. Demetra. 2022;
- Callie L. Brown et al Eating Family Meals Together at Home. JAMA Pediatrics May 2024;
- Natalie D. Muth et al. The Role of the Pediatrician in the Promotion of Healthy, Active Living. PEDIATRICS Volume 153, number 3, March 2024

Dra. Michelli Rodrigues
Pediatra e Infectologista Pediátrica, com mestrado pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira/ Fiocruz. É médica assistente do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (CENDA) do Instituto PENSI. Sem conflitos de interesse.