Refeições em família: por que comer junto é tão importante?
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Refeições em família: por que comer junto é tão importante?

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Refeições em família podem ser uma oportunidade para a criança aprender pelo exemplo, conhecer novos alimentos, desenvolver autonomia, ter curiosidade, conversar e criar vínculos

Em meio à rotina cada vez mais corrida, conseguir sentar-se à mesa com as crianças virou um desafio e, para muitos, deixou de ser prioridade. Mas as refeições compartilhadas trazem inúmeros benefícios, proporcionando momentos de conexão, convivência, aprendizado e construção de hábitos alimentares.

A ciência tem encontrado uma associação positiva entre a maior frequência de refeições em família e diferentes aspectos da saúde física, emocional e social não só de crianças e adolescentes, mas também de adultos. Os benefícios estão relacionados não apenas ao fato de comer junto, mas também ao que acontece nesse momento, como a oportunidade de conversar, o exemplo para as crianças, além da possibilidade de conhecer diferentes alimentos e participar de uma rotina familiar.

Refeições em família estão associadas a uma alimentação mais equilibrada

Existem evidências de que uma maior frequência do comer junto proporciona melhor aceitação de alimentos como frutas e legumes. Além disso, a maior disponibilidade de alimentos preparados em casa contribui para menor consumo de ultraprocessados.

Isso não significa que uma refeição vai transformar automaticamente a alimentação do seu filho, pois temos outros fatores de influência, mas aumentará a chance de futuras mudanças.

A criança aprende observando!

Na infância temos uma janela de oportunidades para construção dos hábitos alimentares.

A hora da refeição é uma delas, em que a criança observa adultos e outras crianças. A presença de familiares experimentando diferentes alimentos, novas preparações e demonstrando prazer em comer aumenta as oportunidades de aprendizagem e de aceitação futura. O exemplo dos adultos é uma das formas mais naturais de ensinar.

O ambiente da refeição importa

A forma como a família se relaciona durante a refeição faz diferença. Refeições em um ambiente agradável, com conversa e interação, sem cobranças, são muito diferentes das refeições marcadas por pressão para comer, brigas, ameaças ou negociações constantes.

Estabelecer uma regra de que "todos precisam comer juntos" não é suficiente. A qualidade da interação durante a refeição é tão importante quanto a frequência.

Benefícios para os cuidadores

Não só as crianças e adolescentes se beneficiam dessa prática. As refeições em família podem funcionar como um momento de conexão, permitindo conversar sobre o dia, perceber como a criança está e estabelecer uma rotina de convivência.

Uma maior frequência de refeições familiares está associada a melhores indicadores de funcionamento familiar, autoestima e melhores padrões alimentares de toda a família.

E quando a criança é seletiva?

Em famílias de crianças com dificuldades alimentares, alguns cuidados merecem atenção.

As refeições em família não devem representar o momento para obrigar a criança comer, insistir ou transformar a mesa em um campo de batalha. Uma criança pode participar da refeição mesmo que coma pouco, recuse determinado alimento ou não experimente tudo o que foi servido.

Um dos objetivos de estar junto é oferecer oportunidades regulares de contato com os alimentos num ambiente tranquilo. A criança pode só observar, sentir cheiros e texturas, tocar nos alimentos e, gradualmente, ampliar sua familiaridade com eles.

Em alguns casos, é necessária uma avaliação especializada, para identificar possíveis repercussões nutricionais, comportamentais e familiares, com modificações individualizadas para cada caso.

Qual a frequência recomendada?

Não temos uma frequência universal determinada, mas sabemos que pelo menos três refeições por semana já mostram impacto positivo. Na prática, e diante de todos os desafios que as famílias vivem, vale investir na frequência possível e manter constância!

Algumas dicas para tornar esse momento possível e positivo:

  • Organizar momentos da semana para sentar-se à mesa juntos, em vez de cada um fazer sua refeição em um local e horário diferente.

  • Oferecer alimentos variados e permitir que a criança observe os demais comendo.

  • Evitar pressão, chantagem ou ameaças para que a criança coma.

  • Conversar sobre assuntos não relacionados à comida ou aparência, e aproveitar o momento para interação familiar.

  • Reduzir distrações, especialmente telas, favorecendo a conversa e a conexão.

  • Permitir que a criança participe de pequenas tarefas relacionadas à refeição, de acordo com sua idade.

  • Respeitar os sinais de fome e saciedade da criança.

  • Lembrar que uma refeição não precisa ser perfeita para ser boa.

  • Priorizar refeições preparadas em casa. 

Bibliografia:

- Maximino et al. Behavioral and Environmental Aspects Associated with Childhood Feeding Difficulties: Study with Control Group. Int J Nutrol 2020;

- Maximino et al. Breakfast nutrient profile and food sources among children with feeding difficulties. Demetra. 2022;

- Callie L. Brown et al Eating Family Meals Together at Home. JAMA Pediatrics May 2024;

- Natalie D. Muth et al. The Role of the Pediatrician in the Promotion of Healthy, Active Living. PEDIATRICS Volume 153, number 3, March 2024

 

Dra. Michelli Rodrigues

Dra. Michelli Rodrigues

Pediatra e Infectologista Pediátrica, com mestrado pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira/ Fiocruz. É médica assistente do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (CENDA) do Instituto PENSI. Sem conflitos de interesse.

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