
Seu filho sofre com gases?
0 —Gases podem causar desconforto para as crianças, mas nem sempre representam um sinal de alerta. Veja quais são as possíveis causas e o que fazer
Os gases são produzidos principalmente durante a digestão dos alimentos e quando engolimos ar ao comer, beber, conversar ou mascar chiclete.
Dependendo da quantidade de gás produzida e da sensibilidade de cada indivíduo, eles podem provocar desconforto, distensão (barriga estufada), arrotos e flatulência.
Crianças e adolescentes podem apresentar episódios de excesso de gases, sem que seja um alerta para alguma doença. Ainda assim, quando os gases são frequentes e causam dor, distensão abdominal ou interferem nas atividades do dia a dia, é importante buscar ajuda e investigar a causa.
Quais as possíveis causas dos gases?
Uma causa relativamente comum é a aerofagia, que acontece quando a criança engole uma quantidade maior de ar do que o habitual. Isso pode ocorrer ao comer muito rápido, conversar durante as refeições, mascar chiclete ou beber líquidos com canudo. Os principais sintomas são arrotos frequentes, distensão abdominal e excesso de gases.
Outra condição que pode afetar adolescentes e crianças em idade escolar é a síndrome do intestino irritável (SII), um distúrbio funcional do intestino, no qual alguns alimentos podem desencadear sintomas, aumentando a produção de gases com consequente distensão e dor abdominal. Além da alimentação, situações de estresse e ansiedade também influenciam os sintomas. Manter um diário alimentar e identificar possíveis gatilhos, com orientação médica, pode ser útil. Nestes casos, estratégias como atividade física regular, terapia cognitivo-comportamental e técnicas de relaxamento podem contribuir para o controle dos sintomas.
Em crianças maiores e adolescentes, outra possibilidade é a intolerância à lactose, que ocorre quando o organismo produz pouca lactase, enzima responsável por digerir o açúcar do leite. Como consequência, podem surgir gases, distensão abdominal, dor e diarreia após o consumo de leite e derivados.
É importante não confundir a intolerância à lactose com a alergia à proteína do leite de vaca. São condições diferentes, com causas distintas. A alergia é mais comum nos primeiros anos de vida e envolve uma reação do sistema imunológico, enquanto a intolerância está relacionada à dificuldade em digerir a lactose.
Qual a influência da alimentação nos gases?
Não existe uma lista de alimentos que deva ser evitada ou restrita por todas as crianças. Por isso, antes de fazer qualquer restrição alimentar, o ideal é conversar com o pediatra e/ou com um nutricionista. Dietas restritivas desnecessárias podem comprometer a ingestão de nutrientes importantes para o crescimento e o desenvolvimento.
Em alguns casos, alimentos ricos em carboidratos fermentáveis, por exemplo, podem aumentar a produção de gases, mas isso não significa que devem ser retirados da alimentação sem orientação profissional.
Além disso, bebidas gaseificadas, produtos ultraprocessados e alimentos com adoçantes artificiais podem favorecer o desconforto intestinal em algumas crianças e adolescentes.
O que pode ajudar?
Medidas simples que costumam aliviar os sintomas:
• Comer devagar e mastigar bem os alimentos.
• Evitar mascar chiclete.
• Reduzir o consumo de bebidas gaseificadas.
• Priorizar a água como principal bebida para hidratação.
• Praticar atividade física regularmente, que ajuda no funcionamento do intestino.
• Fazer uma massagem suave no abdome quando houver desconforto ou aplicar calor no local, como uma bolsa de água morna.
Quando procurar o pediatra?
Na maioria das vezes, os gases são um incômodo passageiro. No entanto, é importante buscar ajuda quando:
• Os sintomas são frequentes ou persistentes;
• A dor abdominal é intensa ou recorrente;
• Os gases vêm acompanhados de diarreia ou constipação persistentes;
• Há perda de peso ou dificuldade para ganhar peso;
• Existe sangue nas fezes;
• Presença de outras queixas, como febre, vômitos ou despertares noturnos pela dor.
Nem todo excesso de gases significa doença e não há indicação de fazer restrições alimentares sem acompanhamento profissional. Identificar a causa é o primeiro passo para escolher o tratamento adequado e garantir que seu filho cresça de forma saudável.

Dra. Michelli Rodrigues
Pediatra e Infectologista Pediátrica, com mestrado pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira/ Fiocruz. É médica assistente do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (CENDA) do Instituto PENSI. Sem conflitos de interesse.