Cerimônia em homenagem aos que partiram
Humanização

Cerimônia em homenagem aos que partiram

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Na placa de inauguração do Sabará Hospital Infantil, não existe nome de autoridades presentes. Além da data, existe somente uma frase:

“Onde houver amor pela arte da medicina também haverá amor pela humanidade” Hipócrates (460 a.C. a 370 a.C).

Talvez por isso, nós nos importamos tanto com a Humanização hospitalar no Sabará Hospital Infantil. Também, talvez por essa razão, escolhemos comemorar nossos 15 anos com um livro que se chama “Cuidar da Alma” e conta histórias de humanização do hospital e é dedicado a todos os seres humanos, pois somente eles seriam capazes de se emocionar com aqueles relatos.

Venho aqui relatar uma cerimônia que acontece todo final de ano, já há algum tempo. Não sei bem quem sugeriu e como foi que esse movimento começou. Parece-me que foi uma iniciativa da nossa equipe de cuidados paliativos.

Sei que, num determinado dia de dezembro, a equipe assistencial se reúne para homenagear as crianças que partiram naquele ano. É uma coisa singela, com pedras, silêncios, reflexões, sobretudo muito respeito.

Temos uma caixa de vidro onde são colocadas pedras brancas com o nome da criança que partiu, que se juntará às outras pedras que estão lá desde o início da iniciativa, numa espécie de MEMORIAL da instituição para essas crianças.

Fazem parte dessa cerimônia as pessoas que cuidaram das crianças e quem mais quiser. Geralmente estão lá os médicos, enfermeiras, as chid life specialists, psicólogas, fisioterapeutas, pessoal da limpeza, administrativo etc. Às vezes alguma família mais próxima de alguém é avisada e comparece, mas não é feito um convite formal.

As pessoas se manifestam fazendo reflexões de cada criança, lembrando histórias, e mostrando aprendizados, sentimentos. São colocados origamis, flores, e existe uma onda de grande energia, amor e confraternização. No Sabará Hospital Infantil, um hospital onde passam mais de 80 mil crianças por ano com doenças graves, muitas delas pelas nossas UTIs, morrem muito poucas, cerca de 20 ou 25 por ano. Algumas dentro do hospital, outras em casa, mas como são acompanhadas conosco, também entram nas homenagens.

Ali, naquele momento, a equipe presta uma homenagem aos pacientes aos quais dedicaram tanto amor, energia e empenho para que seus últimos momentos fossem os melhores possíveis.

Nas palavras deles, colocadas nas redes sociais:

 

“Hoje é dia de lembrar com amor.

Homenageamos todas as crianças que partiram cedo demais, mas que deixaram uma luz única no Mundo.

Cada sorriso, cada gesto de coragem, cada momento compartilhado... Tudo permanece vivo na memória de quem as amou e cuidou.

Que a sua memória siga inspirando força, empatia e a construção de um cuidado mais humano.

E que suas famílias sintam hoje um abraço cheio de acolhimento.

Para sempre lembradas. Para sempre amadas.”

 

Já ouvi muitas vezes que o profissional da saúde enxerga a morte como fracasso ou falha do seu tratamento. Atitudes como essa mostram como essa visão é totalmente errada. Nos empenhamos para CUIDAR dos nossos pacientes, sabendo das limitações do TRATAR. O que nos importa é fazer nosso trabalho o melhor possível e com o maior respeito para com o paciente e sua família, valorizando sua autonomia e suas vontades, dentro dos limites como instituição e como profissionais da saúde.

Essa é, talvez, a ação de humanização que eu acho mais linda e sensível que fazemos no hospital. Parabéns a todos que participam pela sensibilidade, amor e respeito que vocês têm aos seus pacientes. Continuem assim.

Muito orgulho do trabalho de vocês.

 

Saiba mais:

Dr. José Luiz Setúbal

Dr. José Luiz Setúbal

(CRM-SP 42.740) Médico Pediatra formado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com especialização na Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduação em Gestão na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Pai de Bia, Gá e Olavo. Avô de Tomás, David e Benjamim.

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