Escolas, linguagem positiva e o exemplo francês: um comentário sobre as novas diretrizes PASAFE da OPAS/OEA
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Escolas, linguagem positiva e o exemplo francês: um comentário sobre as novas diretrizes PASAFE da OPAS/OEA

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As Políticas de Alimentação Saudável e Atividade Física em Ambientes Escolares oferecem ferramentas – mas é importante que se dê menos ênfase à proibição e mais ênfase à educação

As diretrizes regionais sobre políticas de alimentação saudável e atividade física em ambientes escolares (PASAFE), lançadas conjuntamente pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e pela Organização dos Estados Americanos (OEA) em julho de 2026, chegam num momento de inegável urgência epidemiológica.

A sigla PASAFE — de Políticas de Alimentação Saudável e Atividade Física em Ambientes Escolares — designa um roteiro técnico destinado a apoiar os países das Américas no desenho, na implementação, no monitoramento e na avaliação de políticas escolares voltadas a melhorar a alimentação e a promover a atividade física entre crianças e adolescentes. Na região, mais de 30% das crianças e adolescentes de cinco a 19 anos vivem com sobrepeso, e a prevalência de obesidade nesse grupo triplicou nas últimas três décadas, passando de 5,6% em 1990 para 16,9% em 2022.

O documento acerta ao reafirmar a escola como espaço privilegiado de formação de hábitos e ao reconhecer que saúde e educação são inseparáveis. Sobre esse ponto há consenso, e ele merece ser celebrado. Permito-me, contudo, um comentário de natureza construtiva quanto ao equilíbrio entre as duas grandes famílias de estratégias que o documento contempla: de um lado, medidas de regulação do ambiente — restringir a disponibilidade, a promoção e a publicidade de produtos ultraprocessados e bebidas açucaradas nos ambientes escolares; de outro, medidas de educação e promoção — favorecer o acesso a alimentos nutritivos e impulsionar a atividade física por meios diversos.

Ambas são legítimas e necessárias. Minha ponderação, amadurecida ao longo de décadas de prática clínica e de pesquisa em nutrologia pediátrica, é que a ênfase discursiva e política tende a recair sobre o eixo restritivo, quando a evidência sugere que o eixo educativo, sensorial e afetivo produz mudanças mais duradouras — porque atua sobre o desejo, e não apenas sobre a disponibilidade.

O que o modelo francês nos ensina

Vale observar a experiência das Classes du Goût francesas, o método sensorial idealizado por Jacques Puisais e hoje difundido internacionalmente sob a designação SAPERE (1). Trata-se de um programa que, em vez de proibir, educa o paladar: as crianças são convidadas a cheirar, tocar, observar e provar alimentos desconhecidos, desenvolvendo repertório sensorial e reduzindo a neofobia alimentar. As avaliações desse modelo demonstraram redução significativa da neofobia e aumento da disposição para experimentar alimentos novos, com efeitos que persistiram meses após o término das aulas (2).

A lição de fundo é epistemologicamente relevante: os hábitos alimentares são, em boa medida, formas de aprendizado implícito, e por isso resistem a intervenções fundamentadas apenas na argumentação racional ou na proibição. Dizer à criança que o ultraprocessado "faz mal" tem efeito limitado sobre um comportamento movido por desejo, familiaridade e prazer. Oferecer-lhe a experiência sensorial repetida e positiva de uma fruta, uma hortaliça, um sabor novo — esse é o mecanismo que efetivamente reconfigura preferências. O modelo francês privilegia menor intervenção proibitiva e maior investimento educativo, e há aí um caminho que a América Latina pode adaptar com proveito.

Linguagem positiva, não restritiva

Esse princípio ressoa diretamente com aquilo que venho defendendo, ao lado de colegas, em nossa produção sobre dificuldades alimentares e nutrologia pediátrica (3). Na abordagem consolidada da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Associação Brasileira de Nutrologia, a divisão de responsabilidades é clara: aos cuidadores — e, por extensão, à escola — cabe definir onde, quando e o quê se oferece; à criança cabe decidir quanto comer. A coerção alimentar é contraproducente: quanto maior a pressão para comer, maior a recusa. O mesmo raciocínio se aplica ao ambiente escolar.

Uma política construída predominantemente sobre a gramática da proibição corre o risco de reproduzir, em escala coletiva, o erro que combatemos na clínica individual — o de transformar o alimento em campo de disputa e o comer em obrigação. Uma linguagem positiva, que apresenta, convida, valoriza e celebra o alimento saudável, tende a ser mais eficaz e menos iatrogênica do que uma linguagem centrada no interdito. Não se trata de opor os dois eixos, mas de calibrar sua proporção. As pesquisas que conduzi com colaboradores sobre o padrão de lanches e o consumo entre refeições de escolares brasileiros de 7 a 11 anos (4), bem como o acúmulo consolidado na literatura de nutrologia pediátrica (3), apontam consistentemente que a formação do repertório alimentar depende mais da oferta reiterada e prazerosa de alimentos adequados do que da simples remoção dos inadequados.

Atividade física: ampliar horizontes para além da aula de Educação Física

A escola tem papel formativo que vai muito além das práticas corporais isoladas, constituindo espaço privilegiado para o desenvolvimento de uma consciência crítica sobre o movimento e a vida ativa. A Educação Física, quando bem conduzida, fortalece habilidades cognitivas, motoras, sociais e emocionais dos alunos. Ainda assim, convém ponderar um risco: o de confinar toda a promoção da atividade física ao estreito espaço da aula formal — modelo que, em muitos contextos, à semelhança do que se observa nos Estados Unidos, se mostra pouco aproveitável.

O caminho mais promissor é o da ampliação, e ele depende de apoio institucional das autoridades educacionais e sanitárias, sem o qual a intersetorialidade preconizada pela PASAFE não se sustenta. Recomenda-se, nesse sentido: valorizar atividades fora do período escolar, que multiplicam as oportunidades de movimento sem sobrecarregar a grade curricular; privilegiar propostas menos competitivas e mais inclusivas, que acolham crianças com diferentes níveis de habilidade e evitem o afastamento precoce daquelas menos aptas; e integrar o transporte ativo e a vida ativa na comunidade escolar. Trata-se, uma vez mais, de privilegiar o convite e a inclusão sobre a obrigação — de fazer da atividade física uma experiência prazerosa e acessível a todos, e não um exercício seletivo restrito aos já habilidosos.

Alimentação saudável e atividade física: o papel dos pais

Os pais e responsáveis não podem adotar uma postura passiva, reagindo apenas após o problema se estabelecer. A introdução de hábitos saudáveis deve ser precoce e parte do processo educativo. Uso de alimentos naturais, culturalmente aceitáveis, disponíveis e com custo acessível, é parte do processo natural da introdução de alimentação complementar e durante toda a infância. O exemplo da atividade física deve começar por técnicas de recreação, atividades de iniciação desportiva, limites e educação, para depois pensarmos no esporte competitivo e remunerativo. Os pais são o modelo de estilo de vida e devem incutir hábitos adequados em seus filhos. Mas, para isto, necessitam de apoio, treinamento, educação e, especialmente, recursos econômicos adequados.

Um convite ao equilíbrio, com menor radicalização política

Há, por fim, uma dimensão que merece prudência. O debate sobre ultraprocessados e o ambiente alimentar escolar adquiriu, na região, uma tonalidade por vezes excessivamente política e polarizada, na qual a regulação passa a ser tratada como fim em si mesma, e não como uma das várias ferramentas. A restrição da publicidade dirigida a crianças e a qualificação da oferta em cantinas são medidas defensáveis e apoiadas por evidências (5, 6) — não as contesto. Sustento apenas que elas rendem mais quando inseridas num projeto pedagógico mais amplo, cujo centro de gravidade seja a educação alimentar e sensorial, e não o controle. O professor, quando adequadamente capacitado, é agente de influência mais poderoso e mais duradouro do que qualquer proibição afixada no muro da cantina.

As diretrizes PASAFE oferecem ferramentas baseadas nas melhores evidências científicas disponíveis para criar ambientes escolares que facilitem escolhas mais saudáveis. Que os países da região, ao traduzi-las em políticas nacionais, saibam pesar bem a balança: menos ênfase no que se proíbe, mais investimento no que se ensina, se experimenta e se aprende a apreciar. A criança que descobre com prazer o sabor de um alimento saudável não precisa ser proibida de outro — ela já terá, por educação e por gosto, aprendido a escolher.

Referências

1. Puisais J, Pierre C. Le goût et l'enfant. Paris: Flammarion; 1987.

2. Reverdy C, Chesnel F, Schlich P, Köster EP, Lange C. Effect of sensory education on willingness to taste novel food in children. Appetite. 2008;51(1):156-65.

3. Nogueira-de-Almeida CA, Mello ED, organizadores. Nutrologia pediátrica: prática baseada em evidências. 2ª ed. Barueri: Manole; 2021.

4. Fisberg M, Previdelli AN, Del'Arco APWT, Tosatti AB, Nogueira-de-Almeida CA. Between meal snacks and food habits in schooler brazilian children from 7 to 11 years old: national representative sample survey. Int J Nutrol. 2016;9(4):225-36.

5. Organização Pan-Americana da Saúde; Organização dos Estados Americanos. Lineamientos regionales sobre políticas de alimentación saludable y actividad física en entornos escolares (PASAFE). Washington, DC: OPAS; 2026.

6. Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de lanches saudáveis: promovendo a alimentação saudável. 3ª ed. rev. ampl. Rio de Janeiro: SBP; 2022.

Dr. Mauro Fisberg

Dr. Mauro Fisberg

Pediatra e Nutrólogo (CRM 28119 RQE 3935 E 37146). Coordenador do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (CENDA) do Instituto PENSI. Professor Associado Doutor - Aposentado Sênior do Setor de Medicina do Adolescente - Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina (Unifesp). Membro do Corpo de Orientadores Pós-Graduação em Pediatria e Ciências Aplicadas a Pediatria (Unifesp).

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