A necessidade de um ponto de vista mais agressivo para a prevenção da obesidade infantil
Blog Saúde Infantil

A necessidade de um ponto de vista mais agressivo para a prevenção da obesidade infantil

22

O combate à obesidade infantil exige bom senso, responsabilidade social e uma rede de apoio que envolva família, escola e profissionais de saúde

 

A obesidade em crianças e adolescentes consolidou-se como um dos principais desafios de saúde pública no Brasil, com estatísticas indicando que aproximadamente uma em cada quatro crianças ou adolescentes entre 5 e 19 anos apresenta excesso de peso. A conscientização é urgente pois o excesso de peso iniciado precocemente tende a persistir na vida adulta, aumentando o risco de doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão e complicações psicossociais, como baixa autoestima e depressão. Além disso, a pandemia de COVID-19 evidenciou que a obesidade é um fator de risco significativo para o agravamento de doenças infecciosas.

O perigo das soluções imediatas e técnicas restritivas

Um dos novos problemas enfrentados no manejo da obesidade é a busca por "fórmulas mágicas" e a aplicação de técnicas excessivamente restritivas. A imposição de dietas rígidas e extremamente restritivas não é recomendada, pois pode prejudicar o crescimento físico e atuar como gatilho para o desenvolvimento de transtornos alimentares.

Da mesma forma, o uso de medicamentos para emagrecimento deve ser estritamente limitado na população pediátrica. Drogas antiobesidade são contraindicadas para crianças e adolescentes menores de 16 anos que tenham apenas excesso de peso (sobrepeso), mas não obesidade, e só devem ser prescritas em casos de obesidade severa com comorbidades, após falha nas mudanças de estilo de vida e sob rigorosa supervisão médica.

O aumento do sedentarismo e o impacto digital

O estilo de vida moderno, caracterizado pela rápida urbanização e digitalização, reduziu drasticamente as oportunidades de atividade física. Estima-se que o sedentarismo afete 7 em cada 10 escolares brasileiros. O uso excessivo de telas (televisão, tablets e celulares) é um dos principais vilões ligados à obesidade infantil, não apenas pela inatividade física, mas porque a exposição a propagandas de alimentos ultraprocessados influencia negativamente as escolhas alimentares. Durante o isolamento social, a falta de rotina e o confinamento agravaram esse cenário, levando a uma ingestão alimentar compensatória e à ausência quase total de gasto energético.

A prevenção da obesidade infantil no núcleo familiar

As famílias desempenham um papel fundamental na prevenção, que deve começar idealmente desde o período pré-natal e os primeiros dois anos de vida, conhecidos como os "1.000 dias". Estratégias preventivas eficazes incluem:

  • Estilos parentais: evitar comportamentos controladores ou permissivos demais; o ideal é que os pais sejam responsivos, estabelecendo limites, mas respeitando os sinais de saciedade da criança.
  • Ambiente alimentar: promover o compartilhamento das refeições em família, em um ambiente tranquilo e com a televisão desligada.
  • Hábitos práticos: estimular o aleitamento materno (que reduz o risco de obesidade em até 30%), evitar o consumo de alimentos ultraprocessados e bebidas adoçadas, e garantir o consumo diário de frutas, legumes e verduras.
  • Atividade física: incentivar brincadeiras ativas e limitar o tempo de tela a, no máximo, duas horas por dia para crianças maiores de 2 anos, sendo que para menores de 2 anos o uso de telas não é recomendado.
  • Mudanças graduais: o tratamento e a prevenção devem focar em mudanças pequenas e permanentes, evitando metas irreais que geram frustração.

As famílias podem observar os seguintes sinais e fatores de risco:

  • Fatores pré-natais e de nascimento: o risco pode ser identificado pelo peso da mãe antes da gestação e pelo ganho de peso excessivo durante a gravidez. Além disso, tanto o baixo peso quanto o peso elevado ao nascer são indicadores que exigem atenção redobrada.
  • Histórico familiar: a genética e o ambiente compartilhado são determinantes. Se ambos os pais são obesos, o risco da criança ser obesa é de 80%; se apenas um dos genitores for obeso, o risco é de 50%, caindo para 9% quando nenhum dos pais apresenta a condição.
  • Padrões de crescimento no primeiro ano: o rápido ganho de peso nos primeiros meses de vida é um sinal de alerta importante. Crianças com ganho de peso acelerado no primeiro ano de vida têm chances significativamente maiores de desenvolver obesidade na primeira infância.
  • Práticas de alimentação precoce: a ausência ou o curto período de aleitamento materno, o desmame precoce e a introdução de alimentos complementares inadequados (como alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar e gordura) antes dos seis meses aumentam a suscetibilidade ao ganho de peso desmedido.
  • Mitos culturais: as famílias devem estar alertas para a crença equivocada de que um "bebê gordinho é um bebê saudável". Muitas vezes, a busca por ajuda especializada só ocorre anos depois que um familiar ou o pediatra aponta o excesso de peso, o que retarda a intervenção.
  • Comportamento e estilo de vida: o aumento do sedentarismo e o uso excessivo de telas (televisão, tablets e celulares) são sinais precoces de um ambiente obesogênico. A exposição a propagandas de alimentos de alta densidade energética também influencia negativamente os pedidos e escolhas alimentares das crianças.
  • Acompanhamento técnico: embora a percepção familiar seja vital, a ferramenta definitiva para o diagnóstico individual de obesidade infantil é o monitoramento do Índice de Massa Corporal (IMC) para a idade e o acompanhamento das curvas de crescimento em consultas de rotina com o pediatra.

A conscientização deve romper o tabu de que a "criança gordinha é saudável", entendendo que o combate à obesidade infantil exige bom senso, responsabilidade social e uma rede de apoio que envolva família, escola e profissionais de saúde.

Dr. Mauro Fisberg

Dr. Mauro Fisberg

Pediatra e Nutrólogo (CRM 28119 RQE 3935 E 37146). Coordenador do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (CENDA) do Instituto PENSI. Professor Associado Doutor - Aposentado Sênior do Setor de Medicina do Adolescente - Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina (Unifesp). Membro do Corpo de Orientadores Pós-Graduação em Pediatria e Ciências Aplicadas a Pediatria (Unifesp).

#obesidade #Dia da Conscientização contra a Obesidade Mórbida Infantil #nutrição infantil #nutrição #alimentação