
Gastrite em crianças: o que é, como identificar e tratar
0 —Criança pode ter gastrite, mas a maioria das dores abdominais crônicas na infância costuma ter outras causas
Gastrite é uma das suspeitas que mais preocupam os pais quando uma criança se queixa de dor de estômago. O termo se popularizou tanto que hoje funciona quase como sinônimo de qualquer desconforto abdominal. Porém, a explicação real para a maioria das dores abdominais crônicas em crianças e adolescentes costuma ser outra, e entendê-la muda completamente a forma de cuidar desses casos.
Existe gastrite em crianças e adolescentes?
Gastrite é a inflamação da mucosa do estômago, confirmada por endoscopia digestiva alta com biópsia. É a descrição de um achado de exame, não um sintoma ou um diagnóstico específico. Suas causas mais comuns na infância são a bactéria H. pylori, o uso de anti-inflamatórios e, mais raramente, condições autoimunes ou alérgicas (como a gastrite eosinofílica).
O que pouca gente sabe é que a gastrite vista na endoscopia e confirmada por biópsia costuma ser indolor. Quando causa sintomas, eles costumam ser inespecíficos: dor ou queimação no estômago, náusea, saciedade precoce. O quadro clínico é praticamente indistinguível de condições benignas e mais frequentes, como a Dispepsia Funcional. Por isso, o resultado da endoscopia não fecha o diagnóstico sozinho.
Quais as causas mais comuns de dor de estômago?
A maioria das dores abdominais crônicas na infância e adolescência não tem nenhuma lesão ou inflamação significativa associada. Elas fazem parte dos chamados Distúrbios da Interação Intestino-Cérebro (DGBI) — esse sim, um nome que já diz muito sobre o problema! O intestino e o cérebro trocam sinais o tempo todo; quando essa comunicação fica mais sensível, o sistema nervoso passa a lidar com o funcionamento fisiológico do intestino como se fosse uma verdadeira ameaça. É o que chamamos de hiperalgesia visceral. O DGBI que se manifesta com sintomas idênticos aos da gastrite é a Dispepsia Funcional.
Meu filho pode desenvolver “gastrite nervosa”?
O termo popular traduz uma experiência real: pais observam que a dor piora em época de provas, conflitos ou mudanças de rotina. Mas o estresse em si não causa inflamação no estômago, o que ele faz é modular o eixo intestino-cérebro, aumentando a sensibilidade a sinais que já existiam e reduzindo a capacidade da criança de lidar com esse incômodo.
Como a alimentação pode piorar os sintomas da gastrite
Na gastrite, a alimentação, assim como o estresse, não é a causa do problema. Mas, numa mucosa já inflamada, alimentos gordurosos ou fritos, ultraprocessados, refrigerantes, cafeína e temperos picantes podem, sim, agravar os sintomas.
Já nos DGBI, como na Dispepsia Funcional, a relação com a dieta é mais direta: é comum identificar alimentos gordurosos, picantes e ultraprocessados como gatilhos reais de dor e desconforto. Mas o comportamento alimentar importa tanto quanto o tipo de alimento: comer rápido demais e manter horários irregulares de refeição também pioram sintomas como dor de estômago e sensação de estufamento. Melhorar os hábitos à mesa, manter regularidade nas refeições e moderar o consumo de frituras e ultraprocessados ajudam a controlar melhor os sintomas sem transformar a alimentação da criança em mais uma fonte de sofrimento.
Quando é necessário procurar um médico?
A avaliação médica é indicada em todo caso de dor abdominal crônica, principalmente quando a dor interfere nas atividades da criança e no seu bem-estar. Se a criança apresenta dor de estômago recorrente associada a um desses sinais, a avaliação deve ser urgente:
- Dor abdominal recorrente associada à perda de peso ou queda no crescimento
- Vômitos recorrentes (principalmente com sangue)
- Dor que acorda a criança à noite
- Fezes escuras (quase pretas)
- Diarreia crônica
- Dor bem localizada e persistente
O histórico familiar de doença ulcerosa péptica ou doenças inflamatórias intestinais também pode justificar exames complementares já na avaliação inicial.
Como é feito o diagnóstico de gastrite?
É comum que os pais cheguem ao consultório já esperando que o gastroenterologista pediátrico solicite uma bateria de exames como ultrassom, tomografia, endoscopia… Mas ultrassom e tomografia contribuem pouco para avaliar a mucosa gástrica, e mesmo a endoscopia pode trazer achados inespecíficos que não têm relação causal direta com o sintoma da criança: uma gastrite enantematosa leve, por exemplo, ou a presença de H. pylori, muitas vezes não explicam sozinhos a dor relatada. Por isso, ficam reservados para afastar outros diagnósticos e para casos com sinais de alarme ou fatores de risco para doença ulcerosa péptica.
Gastrite tem cura?
Os inibidores de bomba de prótons são os medicamentos mais utilizados para o tratamento de gastrite em crianças com sintomas. Nos casos com Dispepsia Funcional, o tratamento mais eficaz muitas vezes não está no medicamento, mas na educação dos pais sobre os DGBI. Entender o verdadeiro mecanismo por trás da dor reduz a preocupação dos pais e ajuda a reduzir o ciclo de exames e medicações sem benefício real.
O mais importante é sempre ouvir a queixa da criança com seriedade. Dor de estômago recorrente que interfere na escola, no sono ou nas brincadeiras é sinal de que algo pede atenção mesmo quando os exames vêm normais. Um sinal real que merece cuidado real.

Dra. Nathalia Gioia
Médica Pediatra formada na Universidade Federal de São Paulo, com especialização em Gastroenterologia Pediátrica. É pesquisadora e responsável pelos atendimentos clínicos do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (CENDA) do Instituto PENSI. Também atua no Hospital Infantil Sabará.