Livros constroem cérebros e ligações afetivas
Educação

Livros constroem cérebros e ligações afetivas

76
Este foi o título de uma aula que assisti na NCE (National Conference & Exibition) da AAP (American Academy of Pediatrics) em outubro. Nela, o professor Perri Klass, um pediatra e jornalista da Universidade de Nova York (NYU), discorreu sobre a importância de ler para crianças menores de 5 anos. Até aí, nenhuma novidade, este é um fato sabido há muitos anos. Aqui no Brasil, o Itaú Social tem um programa lindo, apoiado pela Sociedade Brasileira de Pediatria e pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. O Leia Para Uma Criança existe há mais de 10 anos e distribui milhares de livros gratuitamente em todo o Brasil para que pais leiam com (e para) seus filhos. A importância de ler não está só no estímulo que a criança recebe - e por isso a construção do cérebro mencionada no título. O momento da leitura também cria vínculos com quem conta a história. Em um mundo cada vez mais digital, passa a ser ainda mais significativo um processo que envolve o manuseio de um livro por um bebê, a interação humana, o fazer caretas, a emissão dos diferentes sons e as perguntas que surgem ao longo da história. É o que torna a interação entre livro, criança e adulto algo mágico e saudável. As evidências científicas dos benefícios da leitura são muitas. Englobam desde o aumento do vocabulário, a facilitação da alfabetização, o aproveitamento escolar nos primeiros anos, a sociabilização, a melhora da resiliência e a prevenção ao estresse tóxico, tão prejudicial nesta fase etária. Todos sabemos que isso, quando ocorre na primeira infância, terá um impacto no resto da vida do indivíduo. A AAP recomenda o uso da leitura para crianças em situação de risco. Trata-se de uma ótima ferramenta de afeição, mesmo em lares sob estresse extremo. Além disso, cria rotinas e dá a sensação de segurança para as crianças e seus pais, ajuda na prevenção de depressão dos adultos, diminui o tempo de tela e aumenta o estímulo cerebral - com melhora do vocabulário e de prontidão na pré-escola. Os pediatras são incentivados a estimular os pais a lerem para seus filhos desde que saem da maternidade e a estabelecerem uma rotina de leitura antes de dormir ou em outros momentos. Conforme a criança vai crescendo, deve ser estimulada a interagir mais, segurando e manipulando o livro e apontando alguma coisa ou cor, por exemplo. Aqui vão algumas dicas simples e preciosas para incentivar o hábito da leitura nas crianças:   Com 1 ano: Escolha livros de papelão mais grossos, para que possam ser manipulados; Nomeie coisas quando apontadas pelo bebê ou pergunte os nomes apontando; Use os livros nas rotinas de dormir e nas horas de espera; Escolha livros de palavras ou de rimas.   Com 2 anos: Deixe manipular mais os livros; Junte as palavras e repita as histórias familiares; Aumente o vocabulário com perguntas como: “o que é isso?”; Escolha alguns livros com histórias simples e curtas e deixe a criança decidir qual prefere. Com 3 anos: Manipule as páginas em ordem; Sente junto para histórias mais longas; Faça e responda questões mais complexas, como: “E agora? O que vai acontecer?”; Emita sons de animais, vento, rios, exagere em alguns; Escolha livros que tenham letras, histórias maiores, assuntos que interessam as crianças (dinossauros, animais, cavalos, carros). Com 4 anos: Já começa o reconhecimento de letras e números; As histórias são maiores e são familiares, as crianças gostam que sejam recontadas; Já conseguem seguir histórias mais complexas e longas; Deixe a criança escolher o livro e peça para ela contar a história a partir das figuras; Converse com a criança sobre as emoções que a história traz (medo ou alegria, por exemplo); Encoraje a desenhar e até a escrever; Escolha livros de assuntos que a criança gosta mais.   A importância de ler para uma criança no mundo atual eu diria que é vital. Por meio da leitura, desenvolvemos a imaginação, podemos nos desenvolver como seres humanos mais complexos e criativos. Isso, sem dúvida, será um diferencial no século XXI. A leitura de livros não impede o uso de telas – podemos, inclusive, usá-las para a leitura. Mas o que importa é a criança interagir, não com a tela, mas com quem conta a história. Que ela ou o adulto faça os sons e não o aparelho. Que as perguntas sejam feitas por humanos e não por algoritmos. Não se preocupe, elas saberão usar um computador, e muito mais que isso, aprenderão a ser criativas.   Saiba mais: Fonte: Books build brains and bonds Perri Klass – NCE 2020 Atualizado em 14 de fevereiro de 2025
Dr. José Luiz Setúbal

Dr. José Luiz Setúbal

(CRM-SP 42.740) Médico Pediatra formado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com especialização na Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduação em Gestão na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Pai de Bia, Gá e Olavo. Avô de Tomás, David e Benjamim.

#criança #livro #leitura #ler #livros #desenvolvimento #vínculo