
Transtorno do Espectro Autista em crianças
194 —O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento complexa. Crianças autistas frequentemente apresentam diferenças na forma como se comunicam, brincam e se comportam. Como a maioria das crianças no espectro autista consegue sentar-se, engatinhar e andar no tempo certo, atrasos precoces nas habilidades sociais e de comunicação podem não ser notados.
Olhando para trás, muitos pais conseguem se lembrar das diferenças na maneira como seus filhos se conectavam com o mundo já no primeiro ano de vida. Crianças no espectro do autismo e suas famílias podem ser saudáveis e resilientes.
Mais pesquisas são necessárias para compreender o curso do desenvolvimento de crianças identificadas como autistas. Estudos mostram que muitas são saudáveis e podem progredir bem ao longo da vida. Isso é especialmente verdadeiro quando recebem apoio e serviços.
Quão comum é o TEA?
Essa é uma questão polêmica, pois há variações em vários locais do planeta. Cerca de 1 em cada 31 crianças nos EUA (3,2%) são identificadas como autistas aos 8 anos de idade, de acordo com um relatório de 2025 da Rede de Monitoramento do Autismo e Deficiências do Desenvolvimento dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). O relatório foi baseado em dados coletados em 16 locais nos Estados Unidos em 2022.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima 1 em cada 100 crianças. No Brasil, dados do Censo 2022 indicam a existência de 2,4 milhões de pessoas autistas, e o IBGE tem inclusão de perguntas sobre autismo para rastrear as prevalências. A prevalência na Europa também varia por país, com estimativas gerais entre 1 em 100 e 1 em 200, com algumas nações relatando taxas mais altas.
Fatores que afetam as estimativas:
- Metodologia: a maneira como os estudos são conduzidos, com foco em diagnóstico, varia, levando a diferentes resultados.
- Acesso ao diagnóstico: o aumento do diagnóstico de autismo, especialmente em grupos minoritários, pode ser um reflexo de um melhor acesso à saúde e maior consciência.
- Diferenças culturais e de saúde: as práticas de saúde e as atitudes culturais também influenciam a identificação e o registro de casos de autismo em cada país.
Meninos são identificados como autistas com uma frequência mais de três vezes maior do que meninas.
Por que mais crianças estão sendo diagnosticadas com autismo?
No geral, o número de crianças relatadas como pertencentes ao espectro do autismo aumentou desde o início da década de 1990. O aumento nas taxas de autismo pode ser causado por diversos fatores. Por exemplo:
- As famílias se tornaram mais conscientes sobre o Transtorno do Espectro Autista.
- Os pediatras começaram a realizar mais exames para autismo, conforme recomendado pela Academia Americana de Pediatria. Com isso, as crianças são identificadas mais cedo, o que é positivo. Quanto antes são examinadas e diagnosticadas, podem começar a receber o apoio personalizado de que precisam para prosperar.
- As escolas ficaram mais conscientes sobre o autismo, e as crianças começaram a receber serviços educacionais individualizados mais adequados.
- O espectro do autismo se ampliou e agora inclui crianças com outros diagnósticos, como jovens com traços autistas sutis.
O que dificulta o diagnóstico é a falta de um exame que confirme, ficando muitas vezes em fatores subjetivos, principalmente os casos mais leves de autismo nível 1. No Brasil ainda há o agravante de que as pessoas com autismo recebem um benefício financeiro, o que faz com que haja pressão para que o diagnóstico seja positivo.
Causas do autismo
Crianças no espectro autista não têm uma causa ou razão comum para a condição. Os cientistas continuam a aprender mais sobre as causas do autismo. Atualmente, sabemos que:
- As famílias não causam o autismo. Crianças autistas são encontradas em famílias de todas as origens.
- Vacinas não causam autismo. Isso tem sido exaustivamente pesquisado há décadas por diversos especialistas médicos nos EUA e em vários outros países.
- O histórico médico familiar e a genética podem desempenhar um papel. Quando uma família tem uma criança autista, a chance de um irmão estar no espectro é de 10 a 20 vezes maior do que na população em geral. Parentes de crianças no espectro autista são mais propensos a compartilhar algumas características sociais e comportamentais semelhantes às observadas entre crianças autistas. No entanto, essas características podem não se destacar o suficiente para que um diagnóstico médico seja feito.
- A maioria das crianças no espectro autista não apresenta uma condição médica ou genética específica que explique o diagnóstico. No entanto, o autismo pode ocorrer com mais frequência em crianças com certas condições médicas ou diferenças genéticas. Essas condições podem incluir a síndrome do X frágil, o complexo de esclerose tuberosa, a síndrome de Down ou outras condições genéticas. Bebês nascidos prematuros são outro grupo com maior probabilidade de serem identificados como autistas.
- Diferenças cerebrais foram encontradas entre algumas crianças autistas e crianças não autistas.
- Fatores ambientais que podem contribuir para o autismo estão sendo estudados, mas ainda não são bem compreendidos.
Segundo a OMS, as evidências científicas disponíveis sugerem que provavelmente existem muitos fatores que tornam uma criança mais propensa a ter autismo, incluindo fatores ambientais e genéticos. Estudos científicos mostram que a exposição a certos fatores ambientais parece ocorrer com mais frequência em crianças com autismo ou em seus pais. Entre eles, estão a idade avançada dos pais, diabetes materno durante a gravidez, exposição pré-natal a poluentes atmosféricos ou a certos metais pesados, prematuridade, complicações graves no parto e baixo peso ao nascer.
Além disso, estudos têm investigado a possível associação entre o uso de diversos medicamentos durante a gravidez e o aumento do risco de autismo. Por exemplo, a exposição pré-natal ao valproato e à carbamazepina, usados para convulsões, parece ocorrer com mais frequência em crianças com autismo.
Mais pesquisas são necessárias para entender melhor o papel de cada um dos fatores que parecem estar associados a um maior risco de autismo e como eles interagem com variações genéticas.
Intervenção precoce
Cada criança no espectro autista tem necessidades diferentes. Quanto mais cedo o autismo for identificado, mais cedo as famílias poderão acessar apoios e serviços precoces, adaptados às necessidades de seus filhos.
A AAP recomenda que todas as crianças sejam examinadas para autismo nas consultas de rotina aos 18 e 24 meses. Pesquisas mostram que iniciar uma intervenção precoce pode ajudar crianças e famílias a prosperarem ao longo da vida.
Condições coexistentes
Além disso, crianças no espectro autista podem ter outros problemas ou necessidades médicas que exigem avaliação e tratamento adicionais. Condições concomitantes comuns podem incluir convulsões, problemas de sono, problemas gastrointestinais (dificuldades de alimentação, dor abdominal, constipação, diarreia) e problemas de saúde comportamental, como ansiedade, TDAH, irritabilidade e agressividade.
O Plano de Ação Abrangente para a Saúde Mental da OMS 2013-2030 e o Plano de Ação Global Intersetorial sobre Epilepsia e Outros Transtornos Neurológicos apelam aos países para que abordem as atuais lacunas significativas na detecção precoce, cuidado, tratamento e reabilitação de transtornos mentais e do neurodesenvolvimento, incluindo o autismo. Solicitam também que os países atendam às necessidades sociais, econômicas, educacionais e de inclusão das pessoas que vivem com transtornos mentais e neurológicos e de suas famílias, e que aprimorem a vigilância e a pesquisa relevante.
Nós, da Fundação José Luiz Setúbal, nos juntamos a essas vozes para que nossas autoridades no Brasil também busquem soluções para as milhares de crianças que estão nessas condições sem nenhum apoio educacional, de saúde ou de assistência social.
Fontes:
Conselho da Academia Americana de Pediatria sobre Crianças com Deficiências, Subcomitê de Autismo (Copyright © 2025)
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Dr. José Luiz Setúbal
(CRM-SP 42.740) Médico Pediatra formado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com especialização na Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduação em Gestão na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Pai de Bia, Gá e Olavo. Avô de Tomás, David e Benjamim.