
IA na infância: desafios para os pais
11 —Especialista em desenvolvimento infantil explica como lidar com as ferramentas de IA na infância e criar filhos nessa época de inteligência artificial
No trabalho e no lazer, a IA está transformando a infância. Ela promete a todas as crianças o tipo de educação antes disponível apenas aos ricos, com tutores particulares, currículos personalizados e entretenimento sob medida. As crianças poderão ouvir músicas compostas sobre elas, ler histórias em que são protagonistas, jogar videogames que se adaptam ao seu nível de habilidade e ter uma comitiva de amigos chatbots torcendo por elas. Uma infância digna de um rei poderá se tornar universal.
A autora e cirurgiã pediátrica Dana Suskind, escreveu uma espécie de guia, Human Raised: Nurturing Connection, Curiosity & Lifelong Learning in the Age of AI (Criados com Inteligência Artificial: Cultivando Conexão, Curiosidade e Aprendizado ao Longo da Vida na Era da IA), para pais que temem que o acesso irrestrito à IA na infância possa prejudicar o desenvolvimento cerebral de seus filhos, mas que evitá-la comprometerá suas chances de sucesso.
Cada vez mais os pais da atualidade enfrentam um conjunto de desafios diferente dos enfrentados pelas gerações anteriores. Esses pais já tinham decisões difíceis a tomar sobre o uso de smartphones e redes sociais pelos filhos. Agora, a avalanche de ferramentas de IA generativa nos últimos anos gerou novas preocupações sobre como as crianças interagem com a tecnologia, portanto há ainda mais decisões a serem tomadas.
Atualmente, existem duas correntes de pensamento bastante expressivas: ou a IA é "a melhor coisa do mundo" ou "temos que evitar a IA a todo custo". A autora afirma que a IA é boa para algumas coisas e ruim para outras, e que não deve ser usada por crianças sem a supervisão de seus responsáveis.
A IA e o desenvolvimento saudável na infância
Utilizando seus conhecimentos da ciência do desenvolvimento infantil, a pediatra diz que seu trabalho sempre girou em torno de como podemos garantir o desenvolvimento saudável de nossas crianças e, especificamente, como a conexão humana, a linguagem e a interação apoiam esse desenvolvimento saudável.
Refletindo sobre como podemos lidar com este momento sem precedentes, em que temos tecnologia que pode imitar a interação que forma o cérebro de uma criança, mas que também pode ajudar os humanos a estarem mais presentes, ela discute a importância dos relacionamentos.
Os relacionamentos e a conexão humana são a essência não apenas para aprendizagem, mas também do aprendizado de como ser humano e se conectar com os outros. Essas tecnologias às quais os humanos, por sermos seres tão sociais, querem se apegar profundamente. Quanto mais jovem você for, maior a probabilidade de se apegar e se conectar.
O ser humano, desde criança, aprende a conviver e se relacionar com pais, tias e professores que, apesar de alguns atritos, são bons o suficiente. É assim que descobrimos que outras pessoas têm pensamentos e sentimentos que podem ser diferentes do nosso, e que as coisas não são perfeitas, mas ainda assim podem ficar bem. Quando temos tecnologias que podem simular empatia, mas de uma forma superficial e bajuladora, corremos o risco de ensinar às crianças que os relacionamentos podem ser assim. Com isso, tendemos a criar crianças que podem atingir todos os marcos do desenvolvimento, mas que, no fim, não serão capazes de se conectar com outros seres humanos.
Todas as tecnologias que construímos até agora, e que sempre remodelaram nossos cérebros de alguma forma, foram passivas. Essa nova tecnologia não se posiciona apenas como um mecanismo de interação, mas como um mecanismo de intimidade, uma forma de construir relacionamentos.
Habilidades humanas
Temos tentado otimizar nossos filhos para diversas habilidades, como acumulação de conhecimento, excelência em matemática e ciências. De repente, as regras do jogo mudaram, porque a IA consegue executar todas essas habilidades com capacidades sobre-humanas. Ficamos perdidos.
As crianças ainda precisam aprender a ler, escrever e fazer todas essas coisas, mas esse não será o grande diferencial. Os grandes diferenciais são aquelas habilidades distintamente humanas, certo? Curiosidade, criatividade, pensamento crítico, resiliência, agilidade — a IA corrói essas habilidades.
Para os pais, ela aconselha que ainda é possível aprender sobre IA, ou até mesmo usá-la esporadicamente, sem depender dela. Aprender a usar um chatbot de IA é fácil. Mas desenvolver habilidades humanas exige prática. É como ir à academia e outra pessoa levantar os pesos para você - você não desenvolveria os músculos. E esses músculos, essenciais para o desenvolvimento de habilidades humanas, só são formados sem o uso de IA, mas isso não significa que você não a entenda. O conhecimento sobre IA é extremamente importante, assim como a compreensão de como usá-la de forma segura.
Ainda não entendemos o que significa estar conectado e apegado a esses companheiros de IA. A ciência é bastante clara: relacionamentos e amizades não se constroem com base na concordância. Eles se constroem em tropeços, rupturas e reparos. Esses são os alicerces para construir relacionamentos realmente fortes. É como comer um doce de fruta todos os dias. Um doce de fruta foi feito à imagem da fruta de verdade, se crianças pequenas comerem doces de fruta todos os dias, elas passarão a preferir aquele substituto superdoce, hiperpalatável e fácil de engolir. De repente, quando você começa a comer aquela maçã de verdade, ela nem sempre tem o mesmo gosto e parece dar muito trabalho.
Os riscos da IA na infância e o que fazer com ela
Nos primeiros anos de vida, é muito mais fácil dizer: "Sabe aquele bichinho de pelúcia [com inteligência artificial] que parece tão fofo e conversa com você? Ele não é bom." Você tem mais controle.
Com crianças mais velhas, ajude-as a entender como essas tecnologias funcionam. Não há nada melhor para fazer as crianças questionarem as coisas do que compartilhar como as empresas estão se aproveitando de suas vulnerabilidades.
Converse na escola de seu filho e pergunte: "seu programa tem uma política de IA para o ano letivo? Quais ferramentas de IA são permitidas e quais são proibidas? Como vocês estão recebendo apoio?" Porque muitos desses professores merecem apoio e aprendizado, assim como nós.
Minha maior preocupação é como isso se refletiu no caso dos alimentos ultraprocessados. As empresas alimentícias descobriram que podiam criar esses alimentos em laboratório a um custo muito menor, o que levou à criação de desertos alimentares em comunidades carentes, onde o acesso a esses alimentos era visto como "melhor do que nada", resultando em consequências para a saúde de indivíduos que não tinham a sorte de receber alimentos orgânicos ou frescos da fazenda.
Existem riscos bem conhecidos em deixar crianças usarem uma tecnologia em constante evolução. Tutores de IA podem ter alucinações e dar respostas erradas. Brinquedos podem sair do controle: recentemente, um ursinho de pelúcia com IA foi descoberto mantendo conversas com mensagens de teor sexual. Crianças podem facilmente usar a IA de forma indevida, para colar na lição de casa ou assediar umas às outras com vídeos "deepfake". Chatbots podem induzir adolescentes vulneráveis a se automutilarem. Empresas de tecnologia insistem que esses problemas podem ser resolvidos; o Chat GPT tem apenas três anos.
Da mesma forma, a IA pode ser construída para replicar a interação humana ou substituir os humanos. Por que não construir tecnologia que permita que pais ou professores estejam mais presentes? Esta é uma tecnologia revolucionária. Vamos usá-la para realmente promover o florescimento humano, para que todas as crianças tenham uma oportunidade.
A inteligência artificial demonstra um potencial inegável para melhorar a educação e enriquecer o entretenimento. Talvez um dia permita que todas as crianças vivam como realeza. Mas os verdadeiramente privilegiados serão aqueles cujos pais e professores souberem a hora de desligá-la.
Fontes:
- Human Raised: Nurturing Connection, Curiosity & Lifelong Learning in the Age of AI by Dana Suskind MD (Author)
- Como a IA está transformando a infância - The economist
Saiba mais:
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Dr. José Luiz Setúbal
(CRM-SP 42.740) Médico Pediatra formado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com especialização na Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduação em Gestão na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Pai de Bia, Gá e Olavo. Avô de Tomás, David e Benjamim.