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Hospitalização da criança: Carta aos pais
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Hospitalização da criança: Carta aos pais

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23/02/2015
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criança hospitalizada

Queridos pais:

Estou lendo “Momentos decisivos do desenvolvimento infantil[1], escrito pelo pediatra T. Berry Brazelton. No capítulo 25 ele analisa o problema da hospitalização da criança propondo coisas que vocês podem fazer antes, durante e depois dela. Surpreendeu-me saber o quanto podem compartilhar esse momento com seu filho e gostei das sugestões dadas por ele sobre como podem fazer isso. A intenção aqui é destacar alguns pontos que me chamaram a atenção na leitura, considerando que um dia, quem sabe, pai e mãe necessitarão hospitalizar seu filho ou filha. O objetivo, então, é convidá-los à proporcionar-lhes uma experiência positiva, mesmo em uma situação que pode ser assustadora para todos.

A criança vai ser hospitalizada. O Dr. Brazelton destaca a importância de os pais se prepararem e preparar a criança. Para ajudá-la eles precisam saber lidar com sua ansiedade. Uma forma de fazer isso é perguntar ao médico sobre os procedimentos que seu filho vai receber bem como quaisquer outros detalhes que julgarem importante. Com essas informações, eles podem, com antecedência, dizer ao filho, “com o máximo de honestidade e riqueza de detalhes, o que vai acontecer no hospital”. É bom que falem que ele vai receber algumas picadas de agulha, que isso pode doer um pouco, “mas não por muito tempo”, e que seu filho, se sentir necessidade, ”pode apertar seu dedo com toda força”. Ah! e se quiser chorar, pode chorar à vontade.

Brazelton orienta os pais, se o filho for tomar anestesia, a perguntarem ao médico o método a ser utilizado. Assim, poderão antecipar-lhe que usarão uma máscara no rosto, que poderão cheirar éter ou gás, que receberão picadas de agulha. O mais importante é a criança saber que seus pais estarão por perto o máximo que puderem.

Gostei da sugestão que ele deu para que os pais, se possível, façam “uma excursão com a criança pelo hospital”. No caso do Sabará isso é perfeitamente possível e certamente as crianças gostarão de saber que lá cachorros podem ser acariciados, músicos cantam para elas, palhaços fazem palhaçadas, voluntários contam histórias e dão desenhos para colorir. Lá também tem uma brinquedoteca. É bom que as crianças saibam que o hospital também é um lugar de alegria e gosto de viver.

Achei importante a citação de Brazelton de que pesquisas indicam que “as crianças, em termos físicos, passam por um processo de recuperação melhor e mais rápido quando são preparadas com antecedência para os procedimentos aos quais vão se submeter.” Em situações de emergência isto não é possível, mas, adverte ele, trata-se de “uma ocasião em que as crianças mais precisam dos pais”.

A criança está no hospital. É importante que os pais expliquem à criança a necessidade de tudo o que médicos e enfermeiros fazem com ela em favor da recuperação de sua saúde (medicação, agulhas, alimentação endovenosa). Eles podem explicar a razão dos passos do tratamento e que, ao longo dele, ajudarão e estarão com seu filho. Brazelton menciona coisas que as crianças pensam ou sentem sobre sua doença. Elas têm medo de mutilação. As doenças lhes parecem intermináveis. Quando doentes, é como se nunca estivessem estado sadias. Podem se sentir desamparadas ou pensarem que se trata de uma retaliação por algo que fizeram. Crianças doentes acreditam que são crianças más. Pensam que nunca ficarão boas. Essas formas de pensar podem “comprometer a capacidade de a criança lutar contra a doença e se recuperar”. Elas podem recusar a tomar remédios, tornarem-se voluntariosas e negativas. É fundamental que os pais observem e conversem com seus filhos sobre esses sentimentos ou ações, que as ajudem a se tornar cooperativas e se sentirem vitoriosas porque não estão mais doentes e superaram o processo de hospitalização.

Brazelton julga importante que os pais levem “a criança a se sentir que detém algum controle sobre seu mundo e seu destino.” A presença deles no hospital ao lado do filho, sempre que possível, é fundamental. E se tiverem que se ausentar, que preparem a criança para isso. “Nunca minta, nem tente sair sem ser percebido”, “diga-lhe quando vai voltar e tente ser pontual”, aconselha. E justifica: “o medo que a criança tem de ser abandonada torna-se mais intenso quando está fora de casa e, em especial, em um lugar tão estranho e ameaçador.” Por fim sugere que membros da família venham visitá-la, especialmente seus irmãos.

A criança voltou para casa. Brazelton menciona que acontece muitas vezes de “as crianças regredirem a um estágio anterior do seu desenvolvimento”. Podem voltar a fazer xixi na cama, terem medos e pesadelos, acordarem gritando durante a noite. Segundo ele, essas “reações são normais e, inclusive, saudáveis” (p. 368). E os pais, nessas situações, podem ajudar a criança a “abrir uma porta de compreensão de si mesma” e “não se sentir culpada por esse comportamento regressivo”. Sugere, também, que eles ajudem-na a falar sobre suas reações e, se possível, dramatizá-las. E que saibam que as crianças podem ter medo de serem internadas novamente. O que, de fato, é uma realidade para algumas delas.

Termino essa longa carta esperando que as lições de Brazelton possam ajudá-los a assumir seus filhos, cuidando bem deles na “alegria e na tristeza, na saúde e na doença”.

Lino de Macedo

[1] Agradeço à Dra. Sandra Mutarelli Setubal pela indicação de leitura desse precioso livro.

 

Lino-de-Macedo_Assinatura

Dr. José Luiz Setúbal

Dr. José Luiz Setúbal

Dr. José Luiz Setúbal (CRM-SP: 42.740) Médico Pediatra formado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo , com Especialização na Universidade de São Paulo (USP) e Pós Graduação em Gestão na UNIFESP. Pai de Bia, Gá e Olavo. Avô de Tomás e David.

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