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O Enfrentamento do Medo na Troca de Curativo: intervenções entre o Child Life Specialist e a Enfermagem
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O Enfrentamento do Medo na Troca de Curativo: intervenções entre o Child Life Specialist e a Enfermagem

O Enfrentamento do Medo na Troca de Curativo: intervenções entre o Child Life Specialist e a Enfermagem

14/01/2021
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Caso Pedro: o curativo do PICC

Texto por Dora Leite

A intervenção do profissional Child Life conta, na enorme maioria das situações, com uma entrada em conjunto com os demais membros da equipe multidisciplinar no cuidado de saúde. Os procedimentos da enfermagem, às vezes considerados simples ou que geram pouca dor, podem gerar diferentes sentimentos para cada criança. A retirada ou troca do curativo do cateter venoso central de inserção periférica de longa permanência (PICC) pode gerar ansiedade, medo e dor para as crianças e adolescentes que estão passando por um tratamento prolongado (ex: antibioticoterapia, quimioterapia, nutrição parenteral).

Pedro tem 6 anos, foi diagnosticado com Osteossarcoma. É filho único e tem pais muito presentes e atentos ao estímulo do desenvolvimento e implicação nas atividades da escola. Eles foram muito importantes e acolhedores no cotidiano de Pedro no hospital e ainda mais em momentos de maior tensão ou dor por procedimentos médicos ou da enfermagem.

Desde o início do tratamento, Pedro manteve, como principal via de acesso aos medicamentos, um cateter central de inserção periférica (PICC). O seu primeiro PICC foi na região do pescoço (pela veia jugular), local sensível por estar próximo ao rosto e ser de difícil visualização por parte de Pedro – o que gera menor sensação de controle. A troca do curativo para a manutenção dos parâmetros de higiene no local do PICC é necessária sempre quando o curativo possui algum sangramento, ou de sete em sete dias. Para ele, o momento da troca e limpeza do curativo era um grande desafio: o medo da dor e a angústia do local do procedimento foram os dois fatores que Pedro reclamava mais.

No dia de ir embora do hospital Pedro passava todo o período do dia ansioso porque ele sabia que chegaria o momento da retirada ou troca do curativo. Questionava: “por que a gente tem que sentir dor?”, “eu to nervoso, será que a enfermeira vai vir agora?”. A preparação para o procedimento de retirada do PICC incluiu uma intervenção educativa e uma abertura para que Pedro tivesse algumas opções, como olhar pelo espelho ou não olhar, ter uma música de fundo ou ter a voz dos pais cantando para ele, ter a narração sobre o passo a passo do que estava acontecendo.

Isso foi criando uma organização e uma confiança, porque Pedro passou a ter maior controle sobre a situação que tanto temia. Pedro preferiu estar com os pais perto na maca, sem música nem narrações. Durante o procedimento, Pedro, eu e seus pais fomos fazendo exercícios de respiração profunda para promover a minimização do estresse e da ansiedade. Em alguns momentos Pedro conseguia dizer “estou com medo”, acolhíamos o seu medo e eu reforçava “estamos aqui com você” e iniciávamos mais uma respiração profunda.

Enquanto isso, a enfermeira ia retirando aos poucos o curativo, a fixação, o ponto, até tirar o cateter por inteiro. Assim que tínhamos tudo finalizado, confirmamos: “acabou, Pedro!” Os pais comemoraram muito e o elogiaram pela força e coragem.
Nas trocas seguintes das suas próximas internações, estive com ele, lembrando da respiração profunda e dando as escolhas possíveis que Pedro poderia fazer. Cada vez menos Pedro precisava de mim e conseguia enfrentar aquela situação com mais recursos. O trabalho da enfermagem, por sua vez, foi ficando também mais tranquilo a cada episódio de troca do curativo. Pedro foi entendendo as possibilidades de enfrentamento daquele procedimento e se engrandecendo diante dele.

Da última vez que Pedro foi internado no Sabará Hospital Infantil, antes da realização do transplante de medula óssea, eu estava no corredor do seu andar e a enfermeira saiu do quarto comentando com a técnica de enfermagem “foi muito tranquilo, o Pedro não tem mais medo da troca do curativo (do PICC)”.

O profissional Child Life cumpre bem o seu trabalho quando a criança precisa cada vez menos da sua presença. A tranquilidade e calma na hora de procedimentos delicados podem minimizar o tempo da atuação da enfermagem e facilitar os processos de cuidado.

Dora Leite

Dora Leite

Psicóloga pela Universidade de São Paulo (USP), com especialização em Child Life pela University of Califórnia Santa Barbara (UCSB) e formação prática no AdventHealth for Children, Flórida. É Especialista Child Life Certificada pela Association of Child Life Professionals e coordenadora da equipe Child Life do Hospital Infantil Sabará. Ama as artes e as crianças.

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