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ELE VAI VOLTAR? Como ajudar as crianças a lidarem com a realidade da morte.
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ELE VAI VOLTAR? Como ajudar as crianças a lidarem com a realidade da morte.

ELE VAI VOLTAR? Como ajudar as crianças a lidarem com a realidade da morte.

22/06/2016
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Falar de morte com as crianças é um tema delicado e muito sofrido para os adultos. Dúvidas e angustias suscitam, principalmente, quando são confrontados com a situação real de comunicar aos filhos sobre a morte de um ente querido ou alguém muito próximo ou até mesmo um bichinho de estimação. O sofrimento é vivido duplamente pelos pais: terem que lidar, ao mesmo tempo, com a própria dor e amparar e dar suporte ao sofrimento do filho.

Como então comunicar a notícia da morte, para alguém ainda tão pequeno, que mal entende ainda o que é a vida?

Nos contos de fadas, Branca de Neve e Cinderela já iniciam a história com a mãe morta e, logo perdem o pai. Mais recente ainda é a história de Ana e Elza, do desenho Frozen da Disney que ficam órfãs, abruptamente, com a morte dos pais em um naufrágio. Bambi, tem a mãe morta por caçadores e no desenho do Rei Leão o pai é assassinado na frente de Simba ainda filhote. Em Procurando Nemo, o peixinho também perde a mãe de uma forma cruel.  A princesa Bela de “A Bela e a Fera” é criada apenas pelo pai. Bruxas tentam matar, Branca de neve, Bela adormecida e João e Maria. A morte ou o medo da morte fazem parte do enredo infantil.

Na realidade do dia a dia, as plantinhas morrem, como o pé de feijão plantado no algodão, regado diariamente até que perde a vida. O peixinho é encontrado morto no aquário.

Enfim, basta estar vivo para morrer e de algum modo, as crianças vivenciam de modo menos dramático em seu cotidiano, essa dicotomia entre vida e morte.

Difícil é quando a perda é muito próxima e significativa. O que nunca deve ser questionado é se é melhor falar a verdade ou inventar uma história. Contar que “vovô foi viajar ou que o cachorro fugiu” não é uma opção. Tentar disfarçar uma verdade sofrida com uma mentira velada pode ser devastador. Dificilmente se engana uma criança. Todos a sua volta, sabem a verdade e o não-dito se torna um fantasma presente nos olhares, nos sussurros, e nas lacunas de uma farsa sem sentido e sempre prestes a ser desmarcada.

Como vovô foi viajar e nunca mais voltou ou deu notícias? Todo mundo que viaja não volta nunca mais?

E se meu cachorrinho estiver com frio, fome ou machucado?

A mentira não consegue poupar a dura realidade: a dor da falta. O acesso a verdade sobre a morte permite um ponto final, enquanto que uma história inventada nunca terá fim. Sem um final é impossível um recomeço.

Seu avô morreu e não vai voltar mais. Mas a lembrança e o carinho dele ficarão guardados em nossos corações e poderemos sempre lembrar dele com muito carinho.  

O Rex morreu, pois estava muito doente, agora ele não sofre mais. Sentiremos muita falta dele!

Lidar com a morte é entrar em contato com três conceitos difíceis de admitir em vida:

  • A finitude da vida, ou seja, que todo ser vivo, nasce, cresce e morre.
  • A irreversibilidade da morte: quando se morre não se volta mais.
  • A funcionalidade do corpo, que na morte não tem mais função, ou seja, que a pessoa que morreu não vai mais se mexer, abrir os olhos, falar ou comer.

O apoio, carinho e as crenças familiares podem ajudar a criança a passar pelas fases de luto frente as perdas. Respeitar o tempo da criança (diferente do tempo do adulto) é permiti-la se expressar, à sua maneira, os sentimentos que permeiam este momento.

A crença na vida após a morte e a espiritualidade da família podem ser fortes aliados neste momento de dor. No entanto é importante frisar para a criança que estas são as “verdades” de sua família já que ela poderá encontrar pelo caminho, opiniões divergentes a estas, o que não inviabiliza a fé de seus pais.

Vovô foi para o céu, é uma questão de crença e pode ser um consolo para os que lidam com a perda.  Isto é diferente de dizer que o Rex virou uma estrelinha, já que isto é no sentido fantasioso e imaginário e a criança, ainda no pensamento concreto, poderá pensar em maneiras de ir até a estrela ou encontrar um modo de transformá-la novamente em seu lindo cachorro.

Entre dois e seis anos ainda é muito difícil para criança entender de imediato a irreversibilidade da morte. A falta concreta é, muitas vezes, percebida apenas com o passar do tempo, já que por estar ainda na fase do imaginário e no mundo de fantasias, há sempre a ilusão de que algo na ordem do impossível pode acontecer. Nos joguinhos eletrônicos, os personagens morrem e automaticamente ganham muitas vidas. Nas histórias infantis com um beijo de amor, as princesas acordam de um sono profundo e são felizes para sempre. Como isso pode ser tão diferente da vida real?

É, justamente, no duro embate com a realidade que damos conta da dor da falta, e com outros sentimentos, que podem suscitar na fase de luto: negação (insistir de que isso não aconteceu, é apenas um pesadelo), Raiva (revolta/ agressividade) Tristeza (entrar em contato com o fato) e Aceitação, em que se consegue lidar com a perda de uma maneira mais realista, buscando conforto nas boas lembranças de uma maneira mais positiva. As etapas do luto não são necessariamente lineares, muitas vezes precisam de um tempo maior tanto para absorver, quanto para digerir tantas informações.

Perder um ente querido, ou até mesmo pai, mãe ou irmãos, em uma situação abrupta, como por exemplo um acidente de carro ou assassinado é dramático para todos os envolvidos. Difícil demais ter que lidar com a fatalidade em situações tão imprevisíveis e a dúvida pode girar em torno de como expor à criança as informações sobre esta tragédia?

Quem dará a notícia? É importante que seja alguém muito próximo da criança e que tenha um vínculo afetivo com a mesma.

Como contar? Sempre dizer a verdade com uma linguagem simples e assertiva.

E os detalhes da morte?  Permita que seja estabelecida com a criança, um canal de comunicação, onde ela possa, no tempo dela, elucidar as suas dúvidas frente o corrido. As informações podem ser gradualmente fornecidas. Ela própria solicitará os detalhes, à medida em que conseguir processar o que de fato aconteceu. As perguntas e dúvidas podem se estender por anos, principalmente no caso da morte do pai ou da mãe, onde a cada idade, a criança terá mais condições de formular questionamentos cada vez mais elaborados.

Mesmo que o contexto da morte tenha sido muito dramático é preciso, através de uma linguagem infantil, informar à criança o que ela anseia ouvir. Infelizmente isto é parte de sua história e ela precisa ter acesso ao verdadeiro enredo para conseguir seguir em frente.

O melhor a se fazer é permiti-la perguntar o que quiser, encorajando-a a expressar o que sente. Nem sempre temos todas as respostas e nestes momentos, deve se priorizar a honestidade e, quando possível, compartilhar os  sentimentos (Também não sei sobre isso, mas também estou muito triste e sinto muita falta dele).

Outra dúvida que suscita nas famílias é se devem permitir ou não a ida ao velório ou enterro. Estes rituais de despedida têm uma função importante no processo de luto. É preciso, antes de mais nada, explicar à criança do que se trata este cerimonial e permitir que ela faça a sua escolha entre estar presente ou não participar. Para tanto, ela precisa ter idade suficiente para entender do que isto se trata. Antes dos três anos ela só se dará conta da falta no dia-a-dia, já que a morte, no momento do ocorrido, ainda é um conceito muito abstrato.

Caso a criança escolha a primeira opção, é importante que antecipe do que se trata o ritual e o que ela verá neste local. Esta deverá permanecer durante toda a cerimônia, sempre próxima de um adulto com quem tenha um vínculo afetivo e que o mesmo possa dar todo suporte e acolhê-la neste momento tão difícil.

Se ela optar por não ir ao velório/enterro, nunca se deve fazê-la sentir-se culpada por isso, muito pelo contrário, que a família possa dar todo o apoio frente a sua decisão e procurar oferecê-la outras maneiras se despedir do ente querido, como por exemplo: escrever uma carta, fazer um desenho ou soltar um balão.

A vida tem começo, meio e fim, pelo menos do lado dos vivos. É na experiência real da perda que a criança entra em contato com a finitude da vida. A sua própria história está sendo escrita e, infelizmente está é a parte triste do seu enredo. É necessário viver plenamente os momentos de dor, angústia e tristeza, pois só assim, será possível virar esta página e seguir em frente.  

Mesmo com tantas perdas, Cinderela, Branca de Neve, Bela, Elza, Ana, Bambi, Nemo, Simba, entre outros, não deixaram de sorrir e continuaram se encantando pela vida em busca de um final feliz!

Déborah Moss

Déborah Moss

Déborah Moss Psicologa, formada pela PUC- SP em 1998 Mestre em Psicologia do Desenvolvimento- USP Especialista em Neuropsicologia CEPSIC-HC Mãe de três filhos- ARIEL 12 anos, PATRICK 8 anos e ALICIA 4 anos.

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