PESQUISAR

Sobre o Centro de Pesquisa
Sobre o Centro de Pesquisa
Residência Médica
Residência Médica
Sendo criança negra no Brasil
Compartilhar pelo Facebook Compartilhar pelo Twitter Compartilhar pelo Google Plus Compartilhar pelo WhatsApp
Sendo criança negra no Brasil

Sendo criança negra no Brasil

17/11/2022
  86   
  0
Compartilhar pelo Facebook Compartilhar pelo Twitter Compartilhar pelo Google Plus Compartilhar pelo WhatsApp

Não é fácil ser uma criança negra no Brasil. Quase toda semana vemos, pelo menos, uma notícia sobre racismo nos noticiários. Isso nos faz pensar se os casos de racismo estão aumentando ou se as câmeras dos celulares facilitam a exposição deles.

Vamos falar do impacto desse racismo na vida e na saúde dessas crianças?

No Brasil, o Dia da Consciência Negra ocorre anualmente em 20 de novembro, como um dia “para celebrar uma consciência recuperada pela comunidade negra sobre seu grande valor e contribuição para o país”. A data é celebrada desde a década de 1960 e amplificou seus eventos nos últimos anos. Originalmente, era comemorado em 13 de maio (data da abolição da escravatura no Brasil). Mais tarde, foi transferida para o dia 20 de novembro para homenagear a morte de Zumbi.

Com mais da metade da população negra (53% dos brasileiros são negros, segundo classificação do IBGE que reúne quem se declarou preto ou pardo no censo de 2010), convivemos com o racismo estrutural há séculos, sem que isso incomode uma parte importante de nossa população. O Brasil foi o maior território escravista do Ocidente, o último a extinguir o tráfico negreiro e o último a abolir a escravidão. O resultado é um legado de desigualdade social, exclusão e violência.

Em um estudo realizado pelo professor e amigo Jack Shonkoff, encontramos uma visão geral dos avanços na biologia da adversidade e resiliência através das lentes da primeira infância, seguida por um panorama dos efeitos únicos do racismo na saúde.

“Nas crianças, os episódios diários de racismo – desde ser alvo de preconceito até assistir a casos de violência sofridos por outras pessoas da mesma raça – têm um efeito às vezes ‘invisível’, mas duradouro e cruel sobre a saúde e o corpo, e que vão impactar o cérebro delas, sobretudo as menores”. Essa é a conclusão do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Harvard, que compilou estudos documentando como a vivência cotidiana do racismo estrutural, de suas formas mais escancaradas às mais sutis ou ao acesso pior a serviços públicos, impacta o aprendizado, o comportamento, a saúde física e mental infantil. A longo prazo, isso resulta em altos custos em saúde, na perpetuação das disparidades raciais e em mais dificuldades para grande parcela da população em atingir seu pleno potencial humano e capacidade produtiva. É o que chamamos de estresse tóxico e seus efeitos duradouros para o resto da vida.

Tudo isso leva ao quadro onde homens e mulheres negros têm, historicamente, incidência maior de diabetes – 9% mais prevalente em negros do que em brancos; 50% mais prevalente em negras do que em brancas, segundo o Ministério da Saúde – e pressão alta, por exemplo.

O ‘Atlas da Violência’ aponta 35 mil crianças e adolescentes vítimas de violência nos últimos cinco anos, quase 90% (31 mil) tem entre 15 e 19 anos, sendo 90% meninos, em sua grande maioria negros (80%). Até os 9 anos, um terço eram meninas, em sua maioria negras (56%) e que morreram dentro de casa (40%). Os negros foram 75,7% das vítimas de homicídio no Brasil em 2018. A taxa de homicídios de brasileiros negros é de 37,8 para cada 100 mil habitantes, contra 13,9 de não negros.

Há, ainda, uma incidência possivelmente maior de problemas de saúde mental: a cada dez suicídios em adolescentes em 2016, seis foram de jovens negros ou pardos e quatro de brancos, segundo pesquisa do Ministério da Saúde publicada no ano passado.

E por que essa é violência é tão marcante entre pessoas negras?

Porque aprendemos que nosso semelhante é o pior possível e o quanto mais longe estivermos dele, melhor. A criança materializa isso de alguma forma. Temos estatísticas de que crianças negras são menos abraçadas na educação infantil, recebem menos afeto dos professores. Algumas ouvem, desde cedo, ‘esse menino não aprende mesmo, é burro’ ou ‘nasceu para ser bandido’.

Mais uma vez, os números brasileiros apontam para um quadro parecido. Segundo levantamento do Ministério da Saúde, 67% do público do SUS (Sistema Único de Saúde) é negro. No entanto, a população negra realiza, proporcionalmente, menos consultas médicas e atendimentos de pré-natal. E, entre os 10% de pessoas com menor renda no Brasil, 75% delas são pretas ou pardas.

Na educação, as disparidades persistem. Crianças negras de zero a 3 anos têm percentual menor de matrículas em creches. Na outra ponta do ensino, 53,9% dos jovens declarados negros concluíram o ensino médio até os 19 anos – 20 pontos percentuais a menos que a taxa de jovens brancos, apontam dados de 2018 do movimento ‘Todos Pela Educação’.

Precisamos criar outras estratégias para lidar com essas desigualdades que, sistematicamente, ameaçam a saúde e o bem-estar das crianças negras e dos adultos que cuidam delas. Isso inclui buscar ativamente e reduzir os preconceitos em nós e nas políticas socioeconômicas, por meio de iniciativas como contratações justas, oferta de crédito afirmativas, políticas de cotas, programas de habitação, treinamento antipreconceito e iniciativas de policiamento comunitário. Essas são apenas algumas das propostas do Centro de Desenvolvimento Infantil de Harvard.

Famílias e comunidades desempenham um papel crítico na proteção dessas crianças contra estressores externos do racismo, evitando interrupções fisiológicas internas de uma resposta ao estresse tóxico. A atenção primária à saúde tem um papel vital a desempenhar, com abordagens individualizadas e centradas na família para fortalecer as bases do desenvolvimento saudável. O desafio enfrentado pela comunidade de saúde pública é dar mais atenção, em nível social, à necessidade de confrontar as influências patogênicas do racismo estrutural e cultural, por meio de uma lente na primeira infância.

Fonte:

https://www.bbc.com/portuguese/geral-55239798

Saiba mais:

https://institutopensi.org.br/adversidade-na-primeira-infancia-e-os-impactos-do-racismo-na-saude/

https://institutopensi.org.br/usando-livros-para-conversar-com-criancas-sobre-raca-e-racismo/

https://institutopensi.org.br/blog-saude-infantil/o-racismo-e-as-criancas/

https://institutopensi.org.br/esse-e-o-resultado-da-violencia-contra-as-criancas-nos-ultimos-5-anos-no-brasil-35-mil-criancas-assassinadas-e-180-mil-estupradas-o-que-voce-pensa-disso/

Dr. José Luiz Setúbal

Dr. José Luiz Setúbal

Dr. José Luiz Setúbal (CRM-SP: 42.740) Médico Pediatra formado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo , com Especialização na Universidade de São Paulo (USP) e Pós Graduação em Gestão na UNIFESP. Pai de Bia, Gá e Olavo. Avô de Tomás e David.

deixe uma mensagem O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

posts relacionados

INICIATIVAS DA FUNDAÇÃO JOSÉ LUIZ EGYDIO SETÚBAL
Sabará Hospital Infantil
Pensi Pesquisa e Ensino em Saúde Infantil
Autismo e Realidade

    Cadastre-se na nossa newsletter

    Cadastre-se abaixo para receber nossas comunicações. Você pode se descadastrar a qualquer momento.

    Ao informar meus dados, eu concordo com a Política de Privacidade de Instituto PENSI.